Há rankings que registram uma fotografia do momento e desaparecem do noticiário poucos dias depois. Há outros que, mais do que medir desempenho, ajudam a explicar por que um país cresce menos do que poderia, investe menos do que necessita e entrega menos prosperidade do que sua população espera. O Ranking Mundial de Competitividade do IMD pertence a essa segunda categoria. Em 2010, o Brasil ocupava a 38ª posição entre as economias avaliadas. Em 2025, havia caído para o 58º lugar e, em 2026, desceu para a 65ª posição entre 70 países. Em apenas quinze anos, perdemos 27 posições. Não se trata de uma oscilação conjuntural nem da consequência de um único governo ou de uma única crise. Trata-se de uma trajetória de declínio que, acompanhada ao longo de mais de uma década pela equipe da Fundação Dom Cabral, liderada pelo professor Luiz Ros, revela um processo contínuo de erosão da competitividade brasileira.
A palavra erosão talvez seja a que melhor traduza esse fenômeno. Não houve um colapso repentino que despertasse indignação nacional. Houve um desgaste gradual, silencioso e persistente, construído pela convivência com problemas conhecidos que deixaram de provocar espanto e passaram a ser tratados como parte da paisagem econômica do país. O resultado aparece de forma contundente no estudo do IMD: o Brasil ocupa a última colocação mundial em seis indicadores decisivos para a prosperidade de qualquer nação: produtividade e eficiência, atitudes diante da globalização, legislação trabalhista, custo de capital, proteção ao investidor e carga regulatória. Nenhum deles é periférico. Todos definem a capacidade de uma economia produzir riqueza, remunerar melhor o trabalho, atrair investimentos, inovar, competir internacionalmente e ampliar as oportunidades de sua população.
O paradoxo brasileiro continua sendo um dos maiores do mundo. Somos uma potência agrícola, energética, mineral e ambiental, dispomos de um vasto mercado interno, de uma localização geopolítica privilegiada, de empresários reconhecidos pela criatividade e de uma sociedade extraordinariamente empreendedora. O problema nunca foi a ausência de potencial. O problema está na dificuldade de transformar essas vantagens em produtividade, e produtividade é a única fonte duradoura do aumento dos salários, da expansão da renda, da formação de uma classe média sólida e da redução consistente das desigualdades.
Não por acaso, as economias mais competitivas são também aquelas que investem de forma permanente em educação, inovação, tecnologia, infraestrutura, segurança jurídica e eficiência institucional. O Brasil continua distante desse padrão. Os resultados obtidos pelos estudantes brasileiros nas avaliações internacionais mostram que a produtividade começa a ser comprometida muito antes da entrada no mercado de trabalho. Um ambiente de negócios excessivamente complexo, custos financeiros entre os mais elevados do mundo, burocracia, insegurança regulatória e um Estado pressionado por déficits persistentes e juros elevados reduzem, simultaneamente, a capacidade de investimento das empresas e do próprio setor público. Inovar deixou de ser uma necessidade apenas da iniciativa privada. Tornou-se uma exigência também da administração pública.
Essa agenda tampouco é inédita. O Movimento Brasil Competitivo, liderado por Jorge Gerdau, procurou colocar produtividade e gestão no centro das políticas públicas. O Plano Verde e Amarelo, no governo Fernando Henrique Cardoso, buscou acelerar a modernização tecnológica do país. A Ponte para o Futuro voltou a defender reformas estruturais voltadas ao aumento da competitividade. Eram iniciativas distintas, mas inspiradas por uma mesma compreensão: nenhuma sociedade distribui riqueza de forma permanente sem antes aprender a produzi-la.
Talvez a principal tarefa desta eleição seja recolocar o Brasil diante do espelho. Para que exista um prognóstico de país, é preciso antes aceitar o diagnóstico do país. O IMD não oferece uma sentença de fracasso, mas um diagnóstico rigoroso sobre as causas da perda de competitividade brasileira. Ignorá-lo porque suas conclusões são desconfortáveis significará apenas prolongar um processo que já custou quinze anos de oportunidades perdidas. Programas sociais cumprem um papel indispensável de proteção, mas não substituem um projeto nacional de desenvolvimento capaz de ampliar produtividade, investimento, inovação e crescimento. Tratar os brasileiros como incapazes de compreender essa realidade é subestimar uma sociedade que conhece suas dificuldades e também sabe reconhecer seu potencial.
A erosão silenciosa da competitividade acaba produzindo algo ainda mais profundo: a erosão do próprio país. Ela transforma o endividamento das famílias e das empresas em condição recorrente, reduz a capacidade de investimento do Estado, limita a mobilidade social e corrói, pouco a pouco, a confiança de que a próxima geração viverá melhor do que a anterior. Quanto mais tempo insistirmos em ignorar as causas apontadas pelo IMD, mais gerações desperdiçaremos. O verdadeiro escândalo não está apenas na queda de 27 posições em quinze anos, nem no fato de ocuparmos a última colocação mundial em seis indicadores essenciais. O verdadeiro escândalo está em aceitar esse declínio como se fosse inevitável, quando ele deveria ser o ponto de partida para reconstruir um projeto nacional capaz de devolver ao Brasil aquilo que nunca lhe faltou como potencial, mas que lentamente vem perdendo como realidade.
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