Correio da Manhã
Opinião

O país precisa de mais Ancelottis e de menos discursos

O país precisa de mais Ancelottis e de menos discursos

A trajetória da Seleção Brasileira nesta Copa traz uma reflexão que vai muito além das quatro linhas. Talvez ela represente, de forma simbólica, aquilo que muitos brasileiros desejam para o futuro do país.

Quando Carlo Ancelotti assumiu o comando da Seleção, não encontrou o cenário dos sonhos. Recebeu um Brasil desacreditado, questionado dentro e fora de campo, distante das grandes equipes que construíram a história das cinco estrelas no peito. Havia talento, mas faltava confiança. Havia qualidade, mas sobravam dúvidas.

Parecia que a Seleção ainda carregava nos ombros o peso de derrotas antigas, especialmente o trauma do inesquecível e doloroso 7 a 1 de 2014. Muitos torcedores simplesmente deixaram de acreditar.

Mas Ancelotti não chegou prometendo milagres. Não fez discursos grandiosos. Não apresentou fórmulas mágicas. Não passou o tempo inteiro explicando o que faria. Simplesmente começou a trabalhar.

Com seu jeito discreto, quase silencioso, conquistou o grupo, reorganizou o ambiente, fortaleceu o aspecto emocional dos jogadores e devolveu confiança a uma equipe que parecia ter esquecido sua própria grandeza.

Enquanto alguns falam durante noventa minutos, ele parece preferir mascar seu chiclete.

E talvez esteja aí uma das maiores lições.

O Brasil, como país, também atravessa um período de desconfiança. São décadas de problemas acumulados, promessas repetidas e soluções que insistem em não chegar. A dívida cresce, a insegurança preocupa, serviços essenciais continuam precários em muitas regiões e milhões de brasileiros ainda convivem com dificuldades incompatíveis com as riquezas desta nação.

Não faltam diagnósticos. Não faltam discursos. Não faltam explicações.

O que muitas vezes falta é resultado. A política brasileira, em diversos momentos, parece ter se especializado em coletivas de imprensa permanentes. Fala-se muito. Justifica-se muito. Anuncia-se muito. Entrega-se pouco.

Por isso, ao observar a postura de Ancelotti, surge uma pergunta inevitável: e se nossos próximos governantes adotassem um pouco dessa filosofia?

Não estamos falando de futebol. Nem de chicletes. Estamos falando de atitude.

Que os futuros ocupantes dos cargos públicos — da Presidência da República aos governos estaduais, passando pelo Senado e pela Câmara dos Deputados — compreendam que liderança não se mede pelo volume da voz, mas pela capacidade de transformar realidades.

Que cheguem acreditando no potencial do Brasil da mesma forma que Ancelotti acreditou no potencial da camisa amarela. Que encontrem um país dividido, cansado e desconfiado, mas enxerguem nele aquilo que muitos já deixaram de enxergar: a capacidade de voltar a vencer.

Não sabemos até onde a Seleção chegará nesta Copa. O mata-mata não permite garantias. O futebol, como a política, costuma reservar surpresas.

Mas uma certeza permanece: o Brasil precisa de mais gente disposta a trabalhar e menos gente preocupada em aparecer trabalhando.

Que a Seleção siga sua caminhada rumo ao sonho do hexacampeonato.

E que, nas próximas eleições, o Brasil encontre líderes capazes de fazer pelo país o que Ancelotti começou a fazer pela Seleção: recuperar a confiança de um povo que nunca deixou de amar suas cores, apenas cansou de se decepcionar.