Quem já se sentiu andando em uma corda bamba? Quem já lutou por equilíbrio emocional? Em 1979, Lygia Bojunga publicou "Corda bamba", obra infanto-juvenil que, com linguagem leve, clara e objetiva, trafega oscilante entre mundos simbólicos: consciência e subconsciência; realidade e fantasia; pobreza e riqueza; afeto sincero e conveniência. A narrativa nos apresenta Maria, uma menina de 10 anos, que presenciou a morte dos pais equilibristas em um trágico acidente de circo. Traumatizada, ela perdeu a memória, silenciou e precisou alcançar o equilíbrio emocional para superar a dor do luto e restaurar sua identidade.
Após a morte dos pais, Maria foi acolhida por amigos do circo, como a Mulher Barbuda e Foguinho, dos quais recebeu amor e amparo para lidar com o luto. Sua avó materna, mulher rica, autoritária e soberba, ao saber do acidente, decidiu assumir a guarda e a criação da neta órfã, retirando-a do ambiente circense. Mais essa ruptura acentuou a tristeza da criança. No circo, onde nasceu e viveu com os pais, ela convivia com liberdade e responsabilidade, pois todos tinham função e valor como membros do grupo, contribuindo para o bem comum. A escassez material era compartilhada com trabalho, alegria e solidariedade. Havia afeto sincero e gratuito. Era lugar de segurança emocional em oposição aos elevados riscos profissionais circenses. No mundo da avó, havia fartura material e escassez de afeto; excesso de repressão, individualismo e solidão. Lugar onde o dinheiro comprava marido (a avó comprou 4), realização e felicidade.
Sem escolha, Maria precisava aprender a viver, a adaptar-se à realidade. Sem revolta ou agressividade, apenas em silêncio profundo, a menina buscou dentro de si o caminho de cura. Filha de equilibristas, seguiu o exemplo. Criou, então, para si uma corda imaginária para atravessar a distância entre dois edifícios, partindo da janela de seu novo quarto até a janela de outro apartamento em frente. Caminhando sobre a corda fictícia, a menina se viu em um corredor ladeado por portas coloridas, representando aspectos do seu subconsciente e as fases da própria vida; cada cor relacionava-se ao fato visualizado dentro da porta por ela aberta. A travessia onírica a estimulava a desenvolver o equilíbrio e a enfrentar o medo do desconhecido sem paralisar ou entrar em pânico.
Gradualmente, Maria abriu todas as portas do seu subconsciente, permitindo-se encontrar suas lembranças, reconciliar-se com o passado, construir meios de lidar com a tensão cotidiana, recuperar a voz e traçar caminhos para seu futuro.
O enredo narrativo apresenta a arte como instrumento de realização pessoal, ajudando a solucionar problemas e a superar os traumas. O livro de Lygia Bojunga enfoca aspectos dolorosos da condição humana com extrema sensibilidade e respeito. Embora classificada para jovens leitores, a obra emociona pessoas de qualquer idade. É um convite à reflexão: Viver é aprender a andar na corda bamba!
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