Correio da Manhã
Opinião

A copa e nova humanidade

A copa e nova humanidade

Há algo de historicamente novo nesta Copa do Mundo, algo que vai muito além da ampliação para 48 seleções, dos resultados inesperados ou dos debates sobre favoritos. O que está acontecendo diante de nossos olhos é uma mudança profunda na geografia do futebol e, em certa medida, uma mudança na própria representação do mundo.

Durante décadas, o esporte mais popular do planeta viveu uma curiosa contradição. Era amado em praticamente todos os países, mobilizava multidões em todos os continentes, produzia ídolos globais e despertava paixões universais, mas sua elite competitiva permanecia relativamente concentrada. Bilhões acompanhavam as Copas do Mundo enquanto um grupo restrito de nações chegava ao torneio acreditando efetivamente na possibilidade de protagonismo.

A atual Copa sugere que essa realidade está ficando para trás. O Japão já não surpreende. A Coreia do Sul já não surpreende. Marrocos já não surpreende. Senegal, Egito, Costa do Marfim, Canadá, Austrália, Estados Unidos e tantas outras seleções passaram a ocupar um espaço que, durante muito tempo, pareceu reservado a poucos. Não se trata de saber quem vencerá o torneio. Trata-se de perceber quantos passaram a acreditar, legitimamente, que pertencem a esse palco.

O futebol foi global durante muito tempo. Agora começa a tornar-se global também na distribuição das oportunidades. O talento sempre esteve espalhado pela humanidade. O que mudou foi a circulação do conhecimento. Treinadores atravessaram fronteiras, métodos de formação viajaram entre continentes, a ciência do esporte difundiu-se, centros de treinamento surgiram onde antes não existiam. O aprendizado deixou de ser patrimônio de poucos países para tornar-se patrimônio de muitos.

Há também um aspecto humano particularmente interessante nessa transformação. Em diversas seleções, vemos jogadores nascidos em um país, formados em outro e representando a terra de seus pais ou de seus avós. As grandes migrações das últimas décadas aparecem em campo não como problema, mas como parte da riqueza humana que caracteriza o século XXI. O pertencimento nacional permanece vivo, mas torna-se mais amplo, mais complexo e mais próximo da realidade contemporânea.

Marrocos tornou-se um dos símbolos mais visíveis dessa nova fase. Mas está longe de ser um caso isolado. O futebol passou a refletir um mundo de conexões, encontros e trajetórias compartilhadas. O que antes parecia exceção tornou-se parte da paisagem normal do esporte.

Talvez por isso esta Copa possua algo do espírito das Olimpíadas. Não porque os esportes sejam semelhantes, mas porque transmite uma sensação rara de participação ampliada da humanidade. Há mais povos em campo, mais histórias em campo, mais culturas em campo e mais possibilidades abertas.

Essa ampliação produz algo frequentemente subestimado: autoestima coletiva. Quando uma seleção africana enfrenta uma potência europeia de igual para igual, quando uma equipe asiática se apresenta entre as mais organizadas do torneio ou quando países tradicionalmente periféricos passam a ser respeitados pelo seu futebol, não cresce apenas a qualidade do espetáculo. Cresce também a confiança de sociedades inteiras em suas próprias capacidades. Milhões de jovens passam a enxergar horizontes que antes pareciam reservados a outros.

Décadas atrás, Pelé, que recriou o futebol norte-americano, percebia o potencial extraordinário do futebol africano. Sua observação revelava menos uma previsão esportiva do que uma compreensão intuitiva da natureza humana. O talento não reconhece fronteiras. Oportunidades, sim.

Existe ainda uma dimensão simbólica que ajuda a compreender a relevância desta Copa. Na tradição da semiótica, símbolos são representações capazes de condensar significados maiores do que os fatos que lhes deram origem. Tornam visíveis transformações que muitas vezes ainda estão em curso e cuja dimensão completa ainda não conseguimos medir.

Talvez esta Copa venha a ocupar esse lugar. Não porque determine o futuro, mas porque parece representar algo que está acontecendo muito além dos estádios. A ampliação dos protagonistas, a circulação global do conhecimento, a emergência de novos centros de excelência e a crescente participação de povos antes periféricos no futebol de alto nível compõem uma imagem poderosa de um mundo em transformação.

Em uma época marcada por guerras, radicalismos e tensões geopolíticas, o contraste chama a atenção. Enquanto grande parte do noticiário descreve divisões, o futebol revela aproximações. Enquanto os conflitos ocupam as manchetes, bilhões acompanham atletas de origens distintas compartilhando um mesmo espaço de competição, respeito e admiração.

O turismo produz algo semelhante. Viajar é descobrir o outro. O esporte é reconhecer o outro. Ambos ampliam horizontes e aproximam sociedades que, sem essas experiências, permaneceriam distantes. Talvez por isso os grandes eventos esportivos e os grandes movimentos de viagens estejam entre as manifestações mais visíveis de um mundo que continua buscando formas de convivência e cooperação.

Os símbolos possuem força porque revelam antes de explicar. Talvez o futebol esteja cumprindo exatamente esse papel. Sem manifestos, sem teorias e sem a pretensão de interpretar a história, acaba oferecendo uma representação visível de possibilidades que ainda estão se formando. Não uma promessa, nem uma previsão, mas uma imagem.

A imagem de um mundo com mais protagonistas, mais centros de excelência, mais circulação de conhecimento e mais povos ocupando espaços que, durante muito tempo, estiveram reservados a poucos.

Ao final, apenas uma seleção levantará a taça. Mas esta Copa talvez seja lembrada por algo que transcende o resultado. Pela ampliação do número de sociedades capazes de sonhar, competir e aspirar ao protagonismo.

Durante muito tempo, poucos representavam muitos. Agora, cada vez mais, os próprios povos representam a si mesmos, como na chegada da República do Congo, com figurino de extrema elegância e representação cultural simultânea. O futebol não está discutindo o futuro. Está mostrando o futuro.

*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.