Correio da Manhã
Opinião

Ulisses

Ulisses

"Ulisses" é a obra-prima modernista do escritor irlandês James Joyce. Foi escrita entre 1914-1921 e publicada em 1922. Chegou a ser proibida nos EUA e Reino Unido por descrever aspectos fisiológicos humanos, considerados impróprios.

O livro é revolucionário no estilo, na concepção da escrita e na estrutura narrativa. Introduziu a técnica de fluxo de consciência do personagem diretamente transmitida, sem oferecer distinção entre o pensamento e a descrição, ou ação. O leitor habituado ao estilo direto fica confuso, pois não identifica narrador e personagem de forma óbvia. Também o espaço de referência narrativa é complexo devido às intertextualidades e alusões à literatura grega, a Shakespeare, à Bíblia e a muitas outras.

A obra é a adaptação da "Odisseia" de Homero. Faz explícita correspondência entre a viagem de Odisseu pelo mundo helênico ao retornar da Guerra de Troia à ilha de Ítaca, onde era rei e moravam sua esposa, Penélope, e seu filho Telêmaco, e as intensas 18h da viagem por Dublin do agente publicitário Leopold Bloom, no dia 16/06/1904, e madrugada do dia 17. A descrição detalhada apresenta um microcosmo de toda a experiência humana. Leopold Bloom, judeu irlandês, é um Ulisses moderno, ou Um Qualquer, ao mesmo tempo fraco e forte, cauteloso e precipitado, corajoso e covarde, representando os múltiplos aspectos de cada ser e de toda a humanidade. É o herói trágico da literatura modernista.

Joyce dividiu Ulisses em episódios relacionados a 18 dos 24 cantos do épico grego. Com aparência desestruturada e caótica, cada episódio/ hora tem um tema, cor, arte/ ciência, técnica e semelhanças entre os seus personagens e os da Odisseia. A obra está organizada em 3 partes: 1) Telemaquia; 2) deambulações de Bloom; e, 3) encontro definitivo de Stephen e de Bloom e ao monólogo de Molly. Embora epicamente concebido, o brilhantismo narrativo deve-se à técnica e à arte da escrita moderna estabelecidas pelo realismo naturalista e pelo simbolismo, pois ambas confundem-se mutuamente e completam-se.

A linguagem é o aspecto mais surpreendente. Ela descreve a realidade de modo labiríntico de desconstrução/ construção, ocultando o significado natural, quebrando a verdade fixa. As palavras não transparecem o mundo exterior de forma evidente. O fluxo de consciência aponta o pensamento como rastro e não como origem absoluta. A descentralização do sujeito e a criação de polifonia (muitas vozes) fazem monólogos e fragmentos escritos transcenderem o narrador onisciente. As palavras carregam ecos históricos, míticos e culturais que se sobrepõem, mostrando a ausência de uma linguagem pura, autoral ou isolada. A linguagem transpassa o texto, cria uma teia na qual o leitor transita, unindo-se aos personagens sem jamais acessar uma realidade última e inquestionável.

Há inúmeros modos de narrar uma história, com aura de mistério, contendo uma sabedoria sagrada e até profética. Leia Odisseia e Ulisses! Viaje entre mundos por diferentes caminhos.

Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora