Correio da Manhã
Opinião

Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

Recorri à minha amiga Patrícia, dias atrás, para desabafar sobre o trabalho. Estava cansado. Além de roteirista de TV competentíssima, ela é prática em seus conselhos. Depois de me ouvir, respondeu com uma pergunta: "Você trabalha para viver ou vive para trabalhar?". Respondi de pronto, quase em protesto, que trabalho para viver. Mas a resposta ficou ecoando.

Ao se apresentar, depois de dizer o nome, vem logo a pergunta: "e o que você faz?". Querem saber o cargo. Quase nunca querem saber se você é habilidoso com crochê, se faz um pudim de leite incrível, se cuida bem das plantas, se sabe ouvir ou se é bom amigo. É assim que muita gente organiza o valor dos outros. Primeiro o nome. Depois o ofício. Depois a posição. Como se a biografia coubesse no crachá.

Mas o crachá é sempre um adereço que não te pertence. Hoje está ali, pendurado no pescoço, preso por uma cordinha, autorizando entradas, abrindo portas, indicando uma função. Amanhã, pode não estar mais.

Ainda assim, muita gente passa anos tentando caber em um cargo. Há quem se orgulhe do que faz, e isso é legítimo. O trabalho pode dar sentido, prazer, pertencimento e reconhecimento. O problema começa quando ele deixa de ser uma parte da vida e passa a ocupar o lugar da identidade inteira.

É também aí que a saúde mental entra. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, os afastamentos por burnout cresceram 823% nos últimos quatro anos no Brasil. O número ajuda a dar dimensão a algo que muita gente já sente no corpo: há um modelo de trabalho que exige pertencimento integral, disponibilidade permanente e uma espécie de fidelidade emocional ao cargo.

Muita gente adoece tentando sustentar a imagem de um ser indispensável. Trabalha além do limite, engole humilhações, responde mensagens fora de hora, dorme mal, perde o domingo, normaliza a exaustão. Até o corpo ou a cabeça cobrarem a conta.

E quando isso acontece, a descoberta costuma ser cruel: quem adoece pode ser afastado, substituído ou simplesmente esquecido no dia seguinte. A cadeira não fica vazia por muito tempo. O e-mail continua chegando. A reunião acontece. A escala fecha. A empresa se reorganiza. O cargo que parecia definir uma vida inteira revela, de repente, sua natureza provisória.

Porque nem sempre a vida confirma aquilo que a gente responde. Todo trabalhador trabalha porque precisa. O aluguel vence, a dívida aperta, o remédio custa caro, o mercado não espera e a vida material impõe urgências. Seria ingênuo fingir que o trabalho existe apenas como escolha, vocação ou prazer.

Também seria ingênuo tratar o desencaixe com o trabalho como exceção. Um levantamento da FGV EAESP mostrou que 56% dos trabalhadores brasileiros estão desengajados ou ativamente desengajados. Mais da metade trabalha sem se sentir realmente envolvida com o lugar onde passa boa parte da vida.

Se a pessoa se torna apenas aquilo que entrega, responde, assina, coordena, produz ou executa, que espaço resta para o corpo, para o descanso, para o afeto, para o silêncio, para a vida que não cabe no crachá? Um cargo pomposo pode abrir portas, mas não sustenta uma vida inteira.

Por isso, é preciso ter tempo. Tempo para o corpo, para a cabeça, para os vínculos, para as coisas que não cabem em 44 horas semanais.

Também por isso, o debate sobre o fim da escala 6 por 1 vem mobilizando tanta gente. Quem trabalha seis dias e descansa um tem pouco espaço para ser qualquer outra coisa além do que faz.

Tempo livre não é sobra. É infraestrutura invisível da saúde mental. Quando o trabalho ocupa quase tudo, não tira apenas horas. Tira também a possibilidade de recompor a própria vida.

Mas há uma diferença entre um trabalho que adoece e um trabalho que simplesmente não faz feliz. Nem tudo se resume a ambiente tóxico. Às vezes, o trabalho é difícil, provisório, necessário, pouco estimulante. Às vezes, é uma ponte. Reconhecer isso não é resignação. É lucidez.

Empregos passam. Cargos passam. Governos também. O crachá volta para a gaveta, a sala ganha outro ocupante, a assinatura muda no organograma. Mas a relação que construímos com o trabalho deixa marcas mais duradouras do que a própria função. Às vezes, seguimos anos depois tentando recuperar o sono, a autoestima, o desejo, a capacidade de descansar sem culpa.

O trabalho não precisa nos fazer felizes todos os dias. Mas também não pode fazer da vida o intervalo entre uma obrigação e outra.

*Jornalista, mestre e doutorando em gestão e políticas públicas pela Fundação Getulio Vargas