Correio da Manhã
Opinião

Vitamina D e Implantes: o exame que ninguém pede antes da cirurgia

Quando um implante dentário falha, a investigação clínica costuma recair sobre os suspeitos habituais: higiene inadequada, qualidade óssea insuficiente, sobrecarga oclusal, tabagismo, diabetes

Vitamina D e Implantes: o exame que ninguém pede antes da cirurgia

Quando um implante dentário falha, a investigação clínica costuma recair sobre os suspeitos habituais: higiene inadequada, qualidade óssea insuficiente, sobrecarga oclusal, tabagismo, diabetes. O que raramente entra nessa lista é um exame de sangue simples, disponível em qualquer laboratório: o nível sérico de vitamina D. A evidência científica acumulada nos últimos anos sugere que esse descuido tem consequências concretas — e que a relação entre vitamina D e saúde peri-implantar é mais complexa do que se supunha.

A vitamina D não age apenas como reguladora do metabolismo do cálcio. Ela é um modulador ativo da resposta imunológica e inflamatória. No tecido peri-implantar, sua deficiência eleva os níveis de RANKL — molécula que ativa a reabsorção óssea — e reduz IL-10, citocina de ação anti-inflamatória. O resultado é um ambiente biológico desfavorável à osseointegração: mais destruição óssea, menos proteção imunológica local. Esse mecanismo foi documentado em estudo clínico publicado em 2025 no Clinical Implant Dentistry and Related Research, com medições diretas no fluido peri-implantar de pacientes com e sem insuficiência de vitamina D.

O que torna esse tema ainda mais relevante — e clinicamente contraintuitivo — é o que a literatura revela sobre o excesso. Estudo retrospectivo publicado no Journal of Prosthetic Dentistry (2025) identificou que pacientes com níveis séricos acima de 70 ng/mL apresentaram risco 21 vezes maior de falha do implante ou perda óssea peri-implantar grave, com comprometimento especialmente pronunciado na maxila. A janela terapêutica, portanto, existe nos dois sentidos: tanto a deficiência quanto o excesso comprometem o prognóstico. A faixa associada a melhores desfechos situa-se entre 30 e 70 ng/mL.

Essa informação raramente chega ao paciente antes da cirurgia. O planejamento implantodôntico convencional inclui tomografia, análise do volume ósseo e avaliação periodontal — mas não solicita rotineiramente exames laboratoriais que reflitam o estado metabólico e imunológico do paciente. Tratar a boca sem olhar para o paciente como um todo continua sendo o padrão. O implante vai para dentro de um organismo inteiro — e esse organismo precisa estar em condições de integrá-lo.

A solicitação de 25(OH)D sérica antes de uma reabilitação com implantes não é excesso de cautela. É parte da anamnese completa de um profissional que entende que osseointegração é um processo biológico, não apenas cirúrgico. Corrigir uma deficiência antes da cirurgia — ou identificar um excesso que pode comprometer o resultado — é uma decisão clínica que custa um exame e pode evitar uma falha.

*Juliana Ajuz Campos,  Cirurgiã-dentista com mestrado em Implantodontia, nutricionista, psicanalista clínica e Health Coach com formação pelo Institute for Integrative Nutrition de Nova York