Correio da Manhã
Opinião

O problema brasileiro não é a falta de atores. É a falta de um excelente roteiro

O problema brasileiro não é a falta de atores. É a falta de um excelente roteiro

O Brasil é um país curioso. Produz milhões de páginas para regulamentar e burocratizar o presente, mas não consegue produzir algumas centenas para organizar o futuro.

Há normas para tudo. Regulamentos para tudo. Carimbos, licenças, certidões, pareceres, autenticações e reconhecimentos de firma. Exigem-se documentos detalhados para abrir empresas, construir empreendimentos, contratar funcionários, obter crédito ou pagar impostos.

Mas, quando chega o momento de discutir o destino nacional, o rigor desaparece.

Talvez por isso nossa vida pública se pareça cada vez mais com uma novela. Discutimos personagens, acompanhamos conflitos, reagimos aos acontecimentos do capítulo da semana, mas raramente debatemos o enredo completo.

A China construiu um formidável projeto. Os Estados Unidos preservam e renovam continuamente sua estratégia. O Brasil administra capítulos.

Essa é uma observação desconfortável para uma das maiores democracias do mundo. Afinal, a democracia representativa não foi concebida como um concurso de popularidade. Em sua essência, é uma disputa entre plataformas, programas, prioridades e visões de futuro. O mandato nasce dos compromissos apresentados à sociedade e legitimados pelo voto.

Mas parece que desistimos de exigir isso.

As elites brasileiras não desistiram de seus setores, de suas regiões ou de suas agendas específicas. O que parece ter desaparecido é a disposição de pensar o Brasil como um projeto coletivo.

Os documentos produzidos pela indústria, pelo agronegócio, pelo turismo, pela educação ou pela infraestrutura são importantes. Mas representam partes. Um projeto nacional é algo diferente. Precisa integrar essas partes numa visão comum e responder perguntas maiores: onde o Brasil pretende estar em quinze ou vinte anos? Em quais áreas deseja liderar? Como pretende transformar suas vantagens em prosperidade, produtividade e influência internacional?

Poucos países enfrentaram essas perguntas com tanta disciplina quanto a China.

Os planos quinquenais chineses são frequentemente analisados apenas sob a ótica ideológica, quando talvez o aspecto mais relevante esteja em outro lugar: sua capacidade de coordenação. O plano nacional não termina em Pequim. Ele se transforma em planos provinciais, municipais, universitários e empresariais. Forma-se uma cascata de objetivos e responsabilidades que mobiliza governos locais, centros de pesquisa, parques tecnológicos e setores produtivos.

Quando a China decidiu liderar áreas como inteligência artificial, semicondutores, energia limpa e veículos elétricos, não anunciou apenas intenções. Organizou investimentos, infraestrutura, formação de talentos, pesquisa e financiamento.

Talvez a palavra mais adequada seja mutirão.

Um mutirão nacional de cidades, universidades, pesquisadores, empresas e governos locais trabalhando em torno de objetivos compartilhados. Foi essa capacidade de coordenação que ajudou a retirar cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza e posicionou o país na fronteira de algumas das tecnologias mais sofisticadas do mundo.

Os Estados Unidos seguem um caminho institucional completamente diferente, mas não menos revelador. O Departamento de Estado, o Pentágono, o Departamento de Energia e inúmeras outras instituições produzem regularmente estratégias para tecnologia, segurança, energia, infraestrutura, comércio e competitividade. Governos mudam. Presidentes passam. Mas a reflexão sobre os interesses permanentes da nação continua.

Não se trata de copiar a China ou os Estados Unidos.

Trata-se de compreender um princípio simples: países que sabem para onde querem ir costumam escrever isso antes.

Paradoxalmente, as democracias precisam ainda mais dessa capacidade. A alternância de poder é uma de suas maiores virtudes. Mas mandatos são curtos e a construção de uma nação é longa. Educação, saúde, infraestrutura, ciência, produtividade e inovação não obedecem ao calendário eleitoral. Sem referências estratégicas minimamente compartilhadas, cada governo corre o risco de reiniciar discussões que deveriam estar mais avançadas.

O Brasil já produziu experiências que apontavam nessa direção. O documento Ponte para o Futuro, apresentado durante o governo de Michel Temer, não era um projeto nacional completo, mas uma agenda estruturada de reformas. Concordando-se ou não com suas propostas, havia ali um diagnóstico, prioridades e compromissos explícitos. Uma ponte, porém, existe para conduzir a algum lugar. A questão que permaneceu em aberto foi qual seria a estrada seguinte.

Por isso chama atenção a escassez de iniciativas voltadas à formulação de projetos nacionais abrangentes. Há exceções respeitáveis, como o esforço persistente do embaixador Rubens Barbosa em produzir e difundir propostas estratégicas para o país. Mas a relevância de sua iniciativa revela também a dimensão do vazio.

E há uma circunstância que torna essa reflexão ainda mais atual.

O Brasil se aproxima de mais uma eleição presidencial. Este deveria ser o momento em que a sociedade estivesse comparando projetos de país, estratégias de desenvolvimento e compromissos para as próximas décadas.

Mas quem realmente espera isso?

Quem acredita que os próximos meses serão marcados pela apresentação de planos detalhados para o país?

Mais importante: quem está cobrando isso?

Exigimos redação de quem deseja ingressar na universidade. Exigimos provas discursivas para carreiras públicas. Exigimos projetos de quem busca crédito bancário ou investidores.

Mas deixamos de exigir um verdadeiro concurso de redação nacional daqueles que pretendem governar o Brasil.

Talvez o aspecto mais preocupante não seja a ausência dos planos.

Talvez seja a naturalidade com que passamos a conviver com essa ausência.

A China escreve seus planos.

Os Estados Unidos escrevem suas estratégias.

E o Brasil?

O Brasil continua discutindo personagens, conflitos, alianças e desavenças quando deveria estar debatendo o roteiro, os objetivos e os compromissos.

Porque o problema brasileiro não é a falta de atores.

O problema brasileiro é a falta de um excelente roteiro.

*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.