O trabalho adoece. Não é impressão de quem anda cansado, nem reclamação de quem "não aguenta pressão". O Brasil já registra recordes sucessivos de afastamentos por transtornos mentais. A novidade é que, agora, o governo começa a admitir aquilo que muitos trabalhadores já sabiam no corpo e na mente: ambiente ruim também faz mal à saúde.
A NR-1 é a Norma Regulamentadora que estabelece regras gerais de segurança e saúde no trabalho. Ela não foi criada agora. Foi atualizada para incluir, no gerenciamento de riscos ocupacionais, os chamados riscos psicossociais relacionados ao trabalho — e passou a valer esta semana. Em português claro: as empresas precisam olhar também para assédio, sobrecarga, metas abusivas, jornadas extenuantes, pressão permanente e formas de organização capazes de adoecer.
Antes, era mais fácil entender o risco. Uma cadeira inadequada. Um ruído excessivo. Um produto químico. Um equipamento sem proteção. Tudo isso continua importante. Mas nem todo risco aparece no mobiliário, na máquina ou no chão da fábrica. Está no modo como se cobra, na meta impossível, na chefia que humilha, no medo de responder com sinceridade a uma pesquisa interna.
Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, alta de quase 16% em relação a 2024. Ansiedade e depressão lideram o ranking. As mulheres, sobrecarregadas pela jornada dupla e pela desigualdade estrutural, respondem por 63% dos afastamentos. A conta direta para a Previdência Social já supera R$ 3,5 bilhões.
O burnout nasce do estresse crônico no trabalho que não foi administrado. Um dos seus motores é a sobrecarga. Também é possível que os números contem menos do que deveriam. Muitos casos que hoje poderiam ser lidos como esgotamento profissional talvez tenham entrado, e ainda entrem, na conta da ansiedade, da depressão ou de outros transtornos. Não porque fossem menos graves, mas porque o trabalho nem sempre foi tratado como causa.
Conheço uma profissional competentíssima do mercado audiovisual que, na primeira crise, não conseguia abrir o notebook para trabalhar. Chorava antes de começar. Tentou se automedicar, achou que passaria. Não passou. Em outra crise, chorou durante uma reunião com a chefia depois de uma fala ríspida. O médico recomendou três meses de afastamento.
É aí que a nova NR-1 encontra sua parte mais difícil. Os sinais que o Ministério do Trabalho pretende ver não são tão objetivos quanto uma cadeira quebrada ou uma máquina sem proteção. Sofrimento psíquico nem sempre aparece na planilha ou no relatório. Aparece no medo de responder, na exaustão que se disfarça de comprometimento e na cadeira vazia de quem pediu demissão sem explicar o motivo.
Faz sentido que cada atividade tenha suas especificidades. Quem sofre no escritório, diante do computador, não sofre da mesma forma que quem trabalha num canteiro de obras. A sobrecarga pode aparecer na meta inalcançável, no ruído, no calor, na insegurança, na chefia abusiva ou na ausência de descanso.
O problema é quando a ausência de metodologia obrigatória vira brecha para relatórios bonitos e escuta frágil. A norma exige que as empresas incluam os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos. Aliás, os dados serão auditáveis? O auditor não vai saber se o trabalhador está bem, vai saber se o papel está em ordem.
Questionários internos, relatórios da própria gestão e entrevistas conduzidas dentro da empresa dificilmente capturam aquilo que o trabalhador sente, mas tem medo de dizer. A fiscalização pode encontrar um processo bem organizado. Isso não significa, necessariamente, que encontrou o sofrimento vivido todos os dias.
Também falta gente para fiscalizar. Antes das novas posses, havia menos de 2 mil auditores fiscais em atividade. Com o reforço de 829 novos servidores empossados em dezembro, o próprio ministro Luiz Marinho admitiu na cerimônia: 'nunca teremos auditores suficientes para olhar cada detalhe do Brasil.' Com esse efetivo, o país fiscaliza apenas 3% dos estabelecimentos.
E ainda houve atraso. A nova exigência deveria ter entrado em vigor antes, mas foi adiada por um ano. Agora, mesmo com a atualização em vigor, as multas só começam depois de um período de adaptação. Para o empregador, prazo. Para o trabalhador adoecido, espera.
A atualização da NR-1 é um avanço. Mas saúde mental no trabalho não se protege apenas com uma obrigação no papel. Não basta formulário, palestra, cartaz motivacional ou relatório bem escrito.
O risco invisível do trabalho está no medo de dizer a verdade dentro de uma estrutura que pode punir a sinceridade. Enquanto essa escuta não for protegida, a norma pode até organizar documentos. Mas dificilmente vai proteger trabalhadores.
*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e
Políticas Públicas pela
Fundação Getulio Vargas
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