Opinião

Cloud Capitalism e o novo feudalismo digital

Cloud Capitalism e o novo feudalismo digital

O capitalismo está mudando de natureza. Talvez estejamos entrando numa fase histórica em que os ativos centrais da economia deixam de ser fábricas, petróleo ou território físico para se tornarem dados, inteligência artificial, computação em nuvem e controle algorítmico da vida humana.

Não é apenas uma revolução tecnológica. Pode ser uma transformação estrutural do próprio sistema econômico.

O economista Yanis Varoufakis chamou esse fenômeno de "tecnofeudalismo". Segundo ele, parte do capitalismo competitivo está sendo substituída por plataformas digitais que funcionam como verdadeiros feudos globais. Elas não vendem apenas produtos ou serviços. Controlam infraestrutura, comportamento, informação, publicidade, reputação, comunicação e parte crescente das relações sociais e econômicas.

A tese parecia exagerada há poucos anos. Hoje, começa a soar plausível.

Quando Elon Musk afirma que a inteligência artificial poderá tornar o trabalho humano secundário em grande parte da economia, ele não está falando apenas de automação. Está descrevendo uma reorganização profunda da sociedade. Quando Peter Thiel afirma que competição é para perdedores e que o objetivo real das empresas é alcançar monopólios tecnológicos, ele explicita a lógica estrutural da nova economia digital.

E quando a Palantir Technologies se transforma em peça estratégica de governos, defesa, inteligência e segurança, percebe-se que as big techs deixaram de ser apenas empresas privadas. Tornaram-se estruturas de poder geopolítico.

O historiador Yuval Noah Harari alerta que a inteligência artificial poderá criar uma "classe inútil", formada por milhões de pessoas economicamente deslocadas pela automação. Pela primeira vez, não se trata apenas de substituir força física. A IA começa a substituir partes crescentes da cognição humana, da análise técnica, da criatividade e até da produção intelectual.

Ao mesmo tempo, surge um paradoxo extraordinário.

Serviços sofisticados poderão se massificar numa escala inédita. Médicos apoiados por IA atenderão mais pacientes. Arquitetos, engenheiros, professores e advogados poderão multiplicar produtividade e alcance. Robôs humanoides assumirão tarefas repetitivas e perigosas. O acesso a serviços de qualidade poderá se ampliar dramaticamente.

Mas a pergunta central permanece: quem ficará com os ganhos dessa explosão de produtividade?

O capitalismo industrial distribuiu parte da riqueza por meio do emprego de massa, da urbanização e da formação da classe média. O cloud capitalism pode funcionar de forma diferente. Poucas empresas controlam nuvens computacionais, chips, sistemas operacionais, algoritmos, redes sociais e infraestrutura global de inteligência artificial. Nunca tantos dados, capital e influência estiveram concentrados em tão poucas corporações privadas.

Por isso, ideias antes consideradas marginais começam a migrar para o centro do debate econômico. Renda básica universal. Participação acionária coletiva em fundos ligados à IA. Tributação automatizada da produtividade algorítmica. Novas formas de distribuição de riqueza produzida por máquinas.

A discussão deixa de ser apenas econômica. Passa a ser civilizacional.

E essa discussão já começou no mundo. Universidades, fundos de investimento, governos, centros estratégicos e líderes das grandes empresas de tecnologia passaram a debater não apenas o futuro da inteligência artificial, mas o futuro da própria sociedade diante dela.

O Brasil, porém, ainda discute muito pouco essas transformações.

Enquanto o mundo debate produtividade algorítmica, concentração digital, renda futura, reorganização do trabalho e soberania tecnológica, o debate público brasileiro segue frequentemente preso a disputas imediatas, polarizações superficiais e agendas do passado.

Mas essas questões definirão o futuro do emprego, da renda, da educação, da democracia, da economia e até da estabilidade social. Elas terão efeitos profundos sobre todos nós.

Por isso, esse debate precisa entrar na vida política brasileira. Precisa se tornar prioridade nacional. O país terá de discutir como preparar sua população para uma economia profundamente automatizada, como distribuir os ganhos da nova produtividade tecnológica e como evitar que a inteligência artificial amplie ainda mais desigualdades históricas.

Se algoritmos decidem, máquinas produzem e plataformas concentram poder, qual será o papel humano? O trabalho continuará sendo o principal organizador da identidade social? O que dará sentido à vida? Consumo? Entretenimento? Criatividade? Conhecimento? Comunidade? Propósito?

Já no século XIX, Alexis de Tocqueville alertava que sociedades excessivamente centralizadas poderiam produzir cidadãos passivos e dependentes. O risco atual talvez seja ainda mais sofisticado: uma centralização invisível, algorítmica e global, mediada por plataformas privadas com escala planetária.

O desafio do século XXI talvez não seja impedir a inteligência artificial. Ela já começou. O verdadeiro desafio será evitar que a prosperidade produzida por ela se transforme numa nova aristocracia tecnológica global.

Porque toda civilização entra em crise quando a maioria das pessoas deixa de enxergar um lugar digno para si dentro do próprio futuro.

*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.