Opinião

Epidemia de solidão

Epidemia de solidão

Desde criança, convivi com a escassez. Lembro que meus pais faziam as compras do mês e eu e meu irmão mais velho abríamos as sacolas com alegria. Todo primeiro fim de semana do mês minha mãe fazia lasanha. Era uma maneira informal de celebrar a fartura, que infelizmente durava pouco.

Quase sempre as compras acabavam na metade do mês. A partir daí, eram brigas e mais brigas. Por volta dos 10 anos, passei a querer brincar só no quarto.

Habitei a solidão sem nem saber o que era. Mas eu sabia que era o dinheiro, ou a falta dele, que deixava meu pai nervoso. Eram três filhos para alimentar e um dinheiro que não sobrava nunca. Minha mãe sempre representou o amor, a ponderação e o equilíbrio.

Quando a internet chegou em casa, me isolei de novo. Só que, dessa vez, parecia diferente. Na tela do computador, eu podia falar com várias pessoas ao mesmo tempo. Hoje, olhando para o que as redes sociais se tornaram, entendo que aquilo também era uma forma de ilusão.

Meu pai também descobriu a solidão em uma padaria perto de casa. Era lá onde ele bebia, sozinho, e tentava escapar dos problemas reais.

Essa não é só a história da minha família. É a história de muitas casas brasileiras onde a falta de dinheiro organiza o humor, o silêncio, o medo e até a forma como as pessoas se afastam umas das outras.

Uma pesquisa recente mostrou que quatro em cada dez brasileiros se sentem solitários. O fenômeno atinge com mais força mulheres, jovens e pessoas de baixa renda. O dado chama atenção, mas talvez não surpreenda quem cresceu em casas onde o fim do mês chegava antes do salário, onde a conversa virava briga e onde o quarto parecia o único lugar seguro.

A solidão não é apenas estar sozinho. Muitas vezes, é não se sentir escutado de verdade, mesmo cercado de gente. É estar em casa e, ainda assim, não encontrar lugar para dizer o que se sente.

A criança que vai para o quarto nem sempre está sendo antissocial. Às vezes, está apenas tentando se proteger de uma casa imprevisível.

A solidão também atravessa gerações de formas diferentes. Crianças crescem cercadas de telas antes mesmo de aprenderem a nomear o que sentem. Idosos, muitas vezes, descobrem que a tecnologia aproxima, mas nem sempre acompanha. Entre um grupo e outro, há uma promessa parecida: estar conectado. O problema é que conexão não é necessariamente vínculo.

Hoje, a solidão já aparece como questão global de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada seis pessoas no mundo seja afetada por ela, e a Assembleia Mundial da Saúde passou a tratar a conexão social como prioridade global.

No Brasil, esse debate não pode ser reduzido à ideia de que basta estar cercado de gente para não se sentir só. Há solidões que nascem da pobreza, da falta de tempo, da ausência de espaços públicos, da sobrecarga das mulheres, da vida digital que promete conexão e da rotina apertada demais para caber afeto com calma.

Por isso, enfrentar a solidão não é apenas recomendar terapia, aplicativo de meditação ou conselho de bem-estar. Passa também por renda, moradia, creche, praça, transporte, assistência social, cultura, saúde pública e por famílias que não precisem gastar toda a energia tentando chegar ao fim do mês. Quando o dinheiro sai por uma porta, o amor sai pela janela.

*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas.