Tese do diplomata Henri Carrières sobre Vasco Leitão da Cunha vem de receber primorosa edição da Francisco Alves. O correto estudo confirma ser a nossa diplomacia, desde sempre, reveladora de notáveis brasileiros. Desde o Império, com o Barão do Rio Branco, Joaquim Nabuco e Domício da Gama, passando à República, com Oswaldo Aranha, Afrânio de Melo Franco, Pio Corrêa, Roberto Campos e Vasco Leitão da Cunha; todos foram notáveis servidores públicos. Além da presença na literatura desde sempre, como prova a presença na média superior a 10% dos 40 ocupantes de cadeiras em nossa Academia Brasileira de Letras.
Vasco Leitão da Cunha foi ministro da Justiça, no Estado Novo, e chanceler na Revolução de 64, sempre com independência, coragem e convicções democráticas. Sua oposição à influência de comunistas e afins no Itamaraty foi decisiva na opção correta de alinhamento com as democracias ocidentais nos anos da Guerra Fria. Foi ator relevante em vários momentos da presença internacional do Brasil, tendo sido importante quando na embaixada em Havana, nas relações restabelecidas com a União Soviética, e encerrado a carreira na embaixada nos EUA. Seu primeiro posto, em 1930, foi em Lisboa, servindo com o embaixador José Bonifácio, político mineiro e irmão de Antônio Carlos de Andrada. Sua palavra de bom senso fez o Brasil votar pelo ingresso da Espanha na ONU e desde sempre vislumbrou a importância das relações estreitas com Portugal como nossa porta de entrada na Europa. Testemunhou os primeiros passos do Estado Novo português e guardou admiração por Salazar ao longo da vida. Agiu sempre sem se deixar intimidar pelas patrulhas ideológicas, voltado para o interesse nacional e a causa da paz entre as nações.
O livro tem prefácio do admirável diplomata e intelecftual Gelson Fonseca, que seleciona algumas opiniões sobre o ilustre brasileiro, como a definição que lhe deu Roberto Campos de "diplomata perfeito", do chanceler Luiz Felipe Lampreia de que "era o paradigma do diplomata" e, nas palavras do próprio Gelson, "um sucessor do Barão do Rio Branco".
No mais, foi das últimas gerações em que a carreira abrigava membros de famílias tradicionais, descendentes de titulados do Império, que, pela cultura e presença social de alto novel construíram o prestígio internacional de nossa diplomacia, alinhando o Brasil com as nações e sociedades mais cultas e de alto nível do mundo, sem cotas nem apadrinhamentos.
Muitos poderiam fazer restrições ao fato de ter servido com lealdade e eficiência a diferentes governos por ignorarem que o bom diplomata, sem prejuízo de suas convicções, é um servidor público sujeito a hierarquia, disciplina. Um dos maiores diplomatas da história universal, Charles Maurice Talleyrand, ao ser indagado o que o levou a servir a tantos regimes e governos, surpreso, respondeu que nunca deixou foi de servir a França.
Vasco Leitão da Cunha prestou relevantes serviços ao Brasil em sua longa e bonita carreira na Casa de Rio Branco.