Correio da Manhã
Opinião

Crime e castigo

Crime e castigo

"Crime e Castigo" é o 2º romance do escritor Fiódor Dostoiévski, após sua prisão e exílio de 10 anos na Sibéria, publicado na revista literária "O Mensageiro Russo", em capítulos mensais, durante o ano de 1866 e, posteriormente, publicado em volume único. É o seu 9º livro na carreira. O romance é classificado como uma das maiores obras da literatura universal de leitura 'obrigatória'.

A espinha dorsal do romance está na reflexão sobre religião e existencialismo, focada na ideia de salvação por meio do sofrimento, além de apresentar questões pertinentes ao socialismo e ao niilismo, em especial, a análise se os fins justificariam os meios, confusão existente até hoje. A obra impõe ao leitor uma profunda consideração moral: o assassinato de uma pessoa mau caráter seria moralmente aceito se o objetivo fosse nobre?

As caracterizações, as personalidades das personagens e outras obras de Dostoiévski inspiraram pensamentos filosóficos, sociológicos e psicológicos de Nietzsche, Sartre, Freud, Orwell, Huxley, entre outros. Há na narrativa traços autobiográficos evidentes, como a adoração pela mãe, o vício do jogo (explorado em O Jogador, de 1867) e a fidelidade psicológica própria do seu estilo, como em Os Irmãos Karamazov (1880), equiparando o autor ao escritor russo Lev Tolstoy.

O protagonista do romance, Ródion Ramanovich Raskolnikov, ex-estudante de Direito, defende publicamente uma tese extremamente perigosa, na qual certos homens considerados superiores (extraordinários, supremos) têm direito de matar, ou de cometer crimes, ou quebrar regras pelo avanço e pelo bem da humanidade. Raskolnikov sentia-se um deles. O outro grupo, dos homens ordinários, deve apenas obedecer.

Ele interrompe os estudos devido à sua miséria financeira, agravada por submeter-se a empréstimos com uma senhora agiota que cobra juros elevadíssimos e ainda maltrata a própria irmã caçula. Observando que a velha explora pessoas vulneráveis, ele resolve assassiná-la. No momento do crime, a irmã da agiota aparece e ele a mata por ser uma testemunha. Foge. Leva consigo algumas joias que depois enterra.

Após os crimes, a crise existencial se instala no âmago de Raskolnikov: ele sente remorso pelo crime não planejado da irmã da velha; por outro lado, crê ter feito o certo em relação à agiota. Angustia-se com a dúvida: Todo crime merece um castigo? O mau caráter da velha justificaria seu crime? O romance detalha o drama psicológico de Raskolnikov. Importunado por sua consciência sufocante que corroía seu íntimo, ele confessa seu crime às autoridades. Percebe, então, não pertencer ao grupo dos extraordinários, como pensava, pois indivíduos superiores eram considerados por ele como capazes de cometerem quaisquer crimes, ou infringir regras sem culpa alguma.

O autor deixou a resposta às questões morais da consciência por conta do leitor. Eu pergunto: ainda hoje, há indivíduos que se julgam superiores aos demais e pensam ter permissão para cometerem crimes?

Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora