Durante boa parte da história, o Brasil ocupou posições econômicas relevantes sem jamais exercer centralidade efetiva no sistema internacional. O mundo demandava produtos brasileiros — açúcar, ouro, borracha, café, minério —, mas não dependia estruturalmente do país como plataforma ampla de estabilidade, produção e escala. Isso começa a mudar.
A reorganização geopolítica global alterou profundamente os critérios de valor das nações. O planeta saiu da era da globalização relativamente previsível e ingressou em um período marcado por disputa tecnológica, fragmentação industrial, insegurança energética, competição estratégica e crescente preocupação com alimentos, minerais críticos, cadeias produtivas e estabilidade territorial.
O mundo voltou a valorizar ativos concretos e posição geopolítica.E poucos países concentram simultaneamente tantos desses ativos quanto o Brasil.
O país reúne água, energia, alimentos, território, biodiversidade, capacidade mineral, mercado interno relevante e relativa distância dos grandes conflitos globais. Em um cenário internacional cada vez mais instável, isso desloca o Brasil para uma categoria diferente de importância estratégica.
Talvez pela primeira vez na história moderna, o ativo geopolítico não seja apenas um produto brasileiro específico. O ativo estratégico começa a ser o próprio Brasil.
Hoje o país já é percebido como necessário. Em determinados cenários futuros, poderá tornar-se indispensável.
Aqui residem as maiores oportunidades e os maiores riscos do Brasil contemporâneo. O problema é que o Brasil ainda não parece agir como quem compreendeu plenamente a dimensão histórica do momento em que entrou.
Enquanto o mundo começa a enxergar o país como uma das poucas plataformas simultaneamente capazes de oferecer segurança alimentar, energética, ambiental e territorial em larga escala, o debate interno brasileiro permanece frequentemente aprisionado em disputas pequenas, ciclos populistas e uma lógica política incapaz de elevar a discussão nacional à dimensão do novo cenário internacional.
Um cenário no qual o Brasil poderia caminhar para tornar-se uma das quatro ou cinco maiores economias do planeta ao longo das próximas décadas.
O país continua preso ao curto prazo justamente quando o mundo passou a operar em lógica estratégica simultânea de curto, médio e longo prazo.
Hoje o Brasil possui o quinto maior superávit comercial do mundo e figura também entre os maiores destinos globais de investimento estrangeiro direto. Poucos países recebem simultaneamente tanto capital internacional e concentram tamanho volume de ativos estratégicos.
Ainda assim, o crescimento brasileiro permanece baixo para seu potencial histórico. O Brasil não consegue converter plenamente potencial em velocidade de enriquecimento nacional.
E o problema mais grave talvez seja outro: a produtividade avança lentamente. O investimento produtivo enfrenta obstáculos permanentes. Projetos estratégicos levam anos para sair do papel. Infraestruturas fundamentais convivem com judicialização interminável, insegurança regulatória e lentidão decisória.
O Brasil realizou reformas importantes nas últimas décadas, mas continua sendo um país difícil de desenvolver, difícil de investir e difícil de empreender.
O problema brasileiro deixou de ser ausência de potencial. Passou a ser incapacidade de transformar potência em peso econômico, produtividade e velocidade histórica. Grande parte dessa limitação nasce do próprio modelo interno.
O país passou décadas ampliando gastos correntes, expandindo estruturas estatais e convivendo com déficits públicos persistentes que ajudaram a produzir juros estruturalmente elevados e baixa capacidade de investimento produtivo de longo prazo.
O resultado é um ambiente em que enorme parte da energia econômica nacional é consumida tentando sobreviver às ineficiências do próprio sistema.
Juros elevados drenam investimentos. O baixo crescimento reduz produtividade. A produtividade limitada restringe renda. E então o próprio modelo passa a exigir mais expansão compensatória do Estado, alimentando novamente juros altos e crescimento baixo. O sistema morde o próprio rabo.
Talvez exista aqui uma dimensão ainda mais profunda e pouco discutida: o anti-investimento brasileiro possui consequências amorais invisíveis.
Porque ninguém responde objetivamente pelos empregos que não foram criados, pela renda que deixou de existir ou pelos investimentos que migraram para outros países em razão da paralisia estrutural. Os custos da lentidão dissolvem-se na burocracia impessoal, nos processos infinitos e na incapacidade sistêmica de decisão. Enquanto isso, o mundo se reorganiza rapidamente.
As grandes potências procuram segurança energética, cadeias industriais resilientes, minerais críticos, inteligência artificial, infraestrutura, capacidade produtiva e territórios estáveis. E poucos países oferecem simultaneamente essas características como o Brasil.
Foi exatamente essa percepção que apareceu de maneira muito clara nas conversas realizadas durante a Global Conference do Milken Institute, em Beverly Hills, reunindo algumas das principais lideranças globais de investimentos, tecnologia, energia e geopolítica.
O ambiente do encontro era menos de euforia financeira e mais de realismo estratégico. O historiador Niall Ferguson alertou para paralelos entre o momento atual e períodos anteriores às grandes rupturas geopolíticas do século 20. Larry Fink chamou atenção para a gigantesca demanda energética produzida pela inteligência artificial. Ken Griffin destacou riscos financeiros associados ao excesso de liquidez global.
Mesmo quando pouco mencionada diretamente, a China aparecia como pano de fundo de praticamente todas as discussões. Nesse cenário de reorganização global, o Brasil passou a despertar um tipo diferente de interesse. Não apenas como exportador de commodities, mas como uma das poucas grandes plataformas estratégicas disponíveis para o século 21.
O mundo já precifica o Brasil com suas mazelas, ineficiências e contradições. A verdadeira surpresa seria o país conseguir destravar seu ambiente de desenvolvimento, elevar produtividade, reduzir sua paralisia estrutural e operar à altura dos ativos históricos que possui.
Porque poucos países têm hoje tantas possibilidades simultâneas de transformação em suas próprias mãos quanto o Brasil.
*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.