Por Moara Semeghini
Quatorze anos após o impacto de Colegas (2012), obra que marcou o cinema nacional ao protagonizar atores com síndrome de Down sem tom paternalista, o diretor Marcelo Galvão retorna ao universo dos personagens com Colegas e o herdeiro.
Criado em Campinas e hoje residente em Boca Raton, na Flórida (EUA), o cineasta expandiu a escala do projeto: o novo longa reúne mais de 70 atores e figurantes com deficiências intelectuais e neurodivergências, incluindo síndrome de Down, autismo e síndrome de Williams. O cineasta acumula uma trajetória consagrada por premiações no Brasil e no exterior. Sua filmografia inclui o próprio Colegas, vencedor do Kikito de Melhor Longa em Gramado, do Prêmio do Público na Mostra de São Paulo e premiado em festivais na Itália, Portugal, Rússia e EUA, além de A Despedida, que lhe rendeu o prêmio de Melhor Diretor em Gramado, e O Matador, primeiro filme original brasileiro da Netflix. Títulos como Quarta B, Rinha e o curta Ouija também somam troféus de público e direção em mostras internacionais.
Em entrevista, Galvão relembra como a infância no interior paulista estimulou sua criatividade, analisa as diferenças entre os mercados de cinema do Brasil e dos Estados Unidos e detalha seu método de direção de elenco.
Sua trajetória no cinema é marcada por prêmios e projeção internacional. De que maneira as origens em Campinas e a infância no interior influenciaram seu olhar criativo?
Crescer no interior, da forma como cresci, foi fundamental. Eu morava em uma casa sem vizinhos próximos, perto de estrada de terra, e tomávamos leite que vinha da fazenda do parque. Era uma infância em que tínhamos que criar nossas próprias brincadeiras, porque nada vinha pronto. Minha mãe incentivava muito a criatividade. Eu não ganhava brinquedos prontos, tinha que construí-los. Além disso, Campinas proporciona uma calma que grandes metrópoles como São Paulo ou Rio de Janeiro não têm. O ócio é muito importante para a criação, para você pensar. Muitas referências da minha filmografia vêm diretamente dessa vivência no interior.
Hoje você reside na Flórida, depois de ter vivido em Los Angeles. Como a ida para os EUA e o contato com a indústria americana impactaram sua visão sobre o cinema?
Moro atualmente em Boca Raton. Mudei-me para os Estados Unidos em 2015, passei seis anos em Los Angeles e estou há cinco na Flórida. A mudança ocorreu principalmente para ter mais tempo com meus filhos, seguindo o exemplo do meu pai, que trocou o Rio por Campinas na época dele para poder criar a família de perto. Em relação ao cinema, a grande lição do mercado norte-americano é entender que o cinema é uma indústria e precisa dar retorno financeiro. Se o filme não se paga, você não faz o próximo. No Brasil, as leis de incentivo são fundamentais para viabilizar a produção, mas o setor peca na distribuição. Hoje, ir ao cinema é um programa caro, somando ingresso, estacionamento e pipoca, o que faz o público preferir superproduções como Homem-Aranha a arriscar em produções de diretores nacionais como eu, Hugo Giorgetti ou Roberto Berliner. Temos menos da metade das salas do México. Precisamos descentralizar o circuito, criar salas populares a R$ 5 ou R$ 10 nas periferias e subsidiar a exibição. A maturidade como cineasta veio ao compreender essa engrenagem de mercado.
Passados 14 anos do primeiro Colegas, o que o motivou a retornar a esse universo e como foi expandir o elenco nesta continuação?
A vontade nasceu ainda na época do primeiro filme. Quando trabalhei com o Ariel, a Rita e o Breno no Colegas, percebi que a atuação incrível deles não tinha sido um golpe de sorte: existiam muitas outras pessoas com deficiência intelectual extremamente talentosas que precisavam de espaço. Ao longo dos anos, viajando com o longa, também conversei com muitas mães de jovens autistas e decidi estudar profundamente o espectro para abrir esse leque. Em Colegas e o herdeiro, demos um passo além na inclusão: temos mais de 70 atores e figurantes com síndrome de Down, autismo e síndrome de Williams. O projeto foi também o último trabalho do meu grande amigo Marcial Souza, deficiente visual que deixou toda a sua parte pronta antes de falecer. Buscamos construir uma história divertida e emocionante sem cair em clichês.
O filme traz cenas movimentadas com aviões, polícia e perseguições. Qual é o seu método no set para equilibrar esse ritmo de ação com a espontaneidade do elenco?
Não utilizo preparador de elenco porque gosto de dirigir diretamente os atores e criar gatilhos com eles. Estudei a técnica Meisner em Los Angeles e Stanislavski em Cuba para aprimorar essa direção. O mais importante é conhecer a pessoa por trás do personagem e priorizar a verdade em cena. Mais de 90% do que está na tela é o texto do roteiro, não improviso. Quando há dificuldades com a memorização de trechos mais longos ou de dicção, adaptamos o texto para falas mais curtas sem perder o objetivo da cena. O critério para cortar e mudar de cena é quando eu realmente acredito no que eles estão entregando.
Que reflexão ou mensagem central você espera que o espectador leve ao sair do cinema?
A mensagem principal está além da narrativa em si. O grande objetivo é que o público assista a um filme divertido, se emocione, dê risada, torça pelos personagens e só se dê conta da questão da deficiência quando os créditos rolarem. Os atores são tão talentosos que a condição deles fica em segundo plano diante da aventura. A grande mensagem é provar que essas pessoas têm um potencial enorme e só precisam de oportunidades para mostrá-lo.
Menu