A dimensão da tragédia que atingiu o Rio Grande do Sul (RS) em abril e maio de 2024 dificilmente pode ser mensurada apenas pelos números. Cidades inteiras ficaram debaixo d'água, famílias perderam suas casas, estradas e pontes foram destruídas, serviços essenciais entraram em colapso e milhares de pessoas precisaram ser retiradas às pressas de áreas inundadas.
Em meio ao cenário de destruição, uma grande corrente de solidariedade se formou em todo o País. Bombeiros, policiais, agentes de Defesa Civil, profissionais de saúde, voluntários e equipes especializadas de diferentes estados viajaram para o território gaúcho para ajudar nos salvamentos e no atendimento às vítimas.
Entre essas iniciativas estava a missão humanitária organizada pela Defesa Civil de Campinas, que enviou profissionais e o “superdrone” da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) para auxiliar nas operações em Canoas, um dos municípios mais atingidos.
A experiência, que envolveu quatro semanas de trabalho em condições extremas, acaba de ganhar registro na publicação livro “Escutas e reflexões sobre as inundações de maio de 2024: memórias da região metropolitana de Porto Alegre”, organizado por Claudiâni Guimarães Vargas Gonçalves e Moisés Waismann, da Editora Dom Modesto.
O técnico de mobilidade urbana Marcelo Tortorelli, da Emdec, participou da missão e compartilhou com os organizadores da publicação as suas experiências durante as operações. O relato recupera a complexidade de trabalhar em uma cidade tomada pelas águas, onde as equipes precisavam localizar pessoas e animais domésticos, identificar áreas de difícil acesso e contribuir para os esforços de salvamento.
Tortorelli conta que compartilhou fotos e informações para a pesquisa realizada, mas que não esperava ser mencionado, surpreendendo-se ao ler o livro. “Eu nunca achei que seria citado e, muito menos, apontado por ter feito um bom trabalho. Foi uma surpresa para mim”, afirma. O reconhecimento também se estendeu à equipe da missão humanitária, que recebeu troféus com o brasão da Prefeitura de Campinas em 2024. No mesmo ano, o técnico foi homenageado com a medalha da Defesa Civil do município.
A utilização do drone permitiu ampliar a capacidade de observação das equipes em áreas alagadas, oferecendo imagens e informações que auxiliaram no reconhecimento do terreno e no planejamento das operações. A contribuição de Campinas, porém, não terminou com o retorno da equipe.
Durante a permanência em Canoas, Tortorelli também capacitou servidores municipais para operar um drone semelhante ao utilizado pela Emdec, adquirido pela administração gaúcha. A transferência de conhecimento permitiu que os profissionais locais incorporassem a ferramenta às suas próprias estratégias de monitoramento e resposta a emergências.
A força das enchentes
As enchentes de 2024 entraram para a história como um dos maiores desastres climáticos já registrados no Brasil. Em alguns pontos do Rio Grande do Sul, o volume acumulado de chuva ultrapassou 400 milímetros em poucos dias. Na região de Porto Alegre, a situação foi agravada pela elevação do Guaíba, cujo nível chegou a 5,35 metros em 5 de maio, superando o recorde histórico da enchente de 1941.
O balanço consolidado da Defesa Civil gaúcha contabilizou 478 municípios atingidos, de um total de 497 existentes no Estado. Foram 2.398.255 pessoas afetadas, 806 feridos e 185 mortes confirmadas. No momento mais crítico, em 19 de maio, o número de desalojados chegou a 581.638 pessoas. Outras 23 continuavam desaparecidas no balanço oficial.
Mobilização nacional
Diante da dimensão da emergência, o Rio Grande do Sul recebeu reforços de diversas partes do Brasil. Um levantamento divulgado pelo governo gaúcho em 4 de maio de 2024 contabilizava 209 profissionais enviados por nove estados: São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Goiás, Espírito Santo e Mato Grosso. O reforço incluía bombeiros e integrantes das forças de segurança e Defesa Civil.
O Estado de São Paulo, por exemplo, enviou equipes especializadas de salvamento aéreo da PM, com o helicóptero Águia 12, além de profissionais da Defesa Civil, por mais de dois meses. Ao todo, 965 PMs participaram da mobilização, que também incluiu o transporte de aproximadamente 1,3 mil vítimas para atendimento médico, além da distribuição de alimentos e água potável.
Legado: tecnologia e prevenção
A experiência vivida por Marcelo Tortorelli em Canoas ganhou um desdobramento importante em Campinas. Além de compartilhar o conhecimento com outros colaboradores da Emdec, o técnico participa do Curso de Aperfeiçoamento das equipes da Defesa Civil de Campinas e de outros municípios da Região Metropolitana de Campinas (RMC).
Uma das atividades ministradas por ele é o treinamento de operações com sistemas de aeronaves remotamente pilotadas em vistorias de estruturas colapsadas. A proposta é preparar profissionais para utilizar drones em inspeções de áreas comprometidas, levantamentos topográficos e avaliação de situações de risco, reduzindo a exposição dos agentes a ambientes potencialmente perigosos.
O episódio também deixa uma reflexão para além da homenagem registrada no livro. A tragédia gaúcha mostrou que eventos climáticos extremos podem assumir proporções muito superiores à capacidade de resposta de uma única cidade ou estado. Por isso, cooperação entre municípios, integração de estruturas de Defesa Civil, investimento em tecnologia e preparação permanente das equipes são medidas que podem fazer diferença quando vidas estão em risco.
O livro está disponível gratuitamente para leitura e download no site da Editora Dom Modesto: https://www.dommodesto.com.br/?utm_source=chatgpt.com. A publicação reúne memórias de pessoas que vivenciaram as inundações, ajudando a preservar a dimensão humana de uma tragédia que marcou o Brasil.
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