Correio da Manhã
Campinas

Mesmo após novas propostas da reitoria da Unicamp, servidores mantêm greve

Categoria rejeita condicionalidades da administração e cobra isonomia com a USP, enquanto universidade alerta para déficit orçamentário de R$ 656 milhões

Mesmo após novas propostas da reitoria da Unicamp, servidores mantêm greve
Ranking da prestigiada QS classifica Unicamp como a 2ª melhor do Brasil Crédito: Antonio Scarpinetti/Unicamp

O cenário político e administrativo na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) permanece tensionado. Enquanto estudantes e professores encerraram suas paralisações em meados de junho, os servidores técnico-administrativos, representados pelo Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU), decidiram pela continuidade da greve. A deliberação ocorreu em assembleia realizada no dia 25 de junho, mesmo após a Reitoria apresentar uma carta-proposta com reajustes em auxílios e a abertura de mesas de negociação para pautas específicas.

O impasse coloca em lados opostos a busca da categoria por valorização e isonomia salarial frente à gestão de um orçamento universitário severamente pressionado por um déficit financeiro expressivo.

A proposta da reitoria e o limite orçamentário

Em carta aberta direcionada à comunidade universitária, intitulada "Carta aberta à comunidade universitária", com a linha fina "Reitoria se manifesta acerca do processo de negociação com os servidores técnico-administrativos", a administração central detalhou os termos da última proposta enviada ao STU. Segundo o documento, o texto reflete um esforço substancial de aperfeiçoamento construído ao longo das últimas semanas. Entre os principais pontos apresentados estão: vale-alimentação: elevação do benefício de R$ 1.950,00 para R$ 2.000,00, equiparando o valor ao que é praticado atualmente pela Unesp (sem pagamento retroativo); vale-refeição: reajuste imediato de R$ 43,00 para R$ 50,00 por dia (sem pagamento retroativo); auxílio-saúde: ampliação para R$ 990,00 mensais (um acréscimo de 10% sobre o valor atual) a partir de janeiro de 2027, condicionado ao desempenho da arrecadação do ICMS-QPE (sem pagamento retroativo). 

Pautas específicas da categoria: realização imediata da primeira reunião para debater a pauta emergencial do STU e definição de um cronograma voltado para a pauta específica de 2026.

Apesar dos acréscimos, que geram um impacto financeiro estimado em R$ 13 milhões anuais, a Reitoria enfatizou que a formulação ocorreu em um cenário de elevada restrição orçamentária. A Unicamp projeta um déficit superior a R$ 570 milhões para o exercício de 2026, montante que pode alcançar aproximadamente R$ 656 milhões após a incorporação dos impactos do reajuste salarial de 3,92% já concedido pelo Cruesp.

Diante da decisão do sindicato de manter a paralisação, a Reitoria declarou que o ciclo de negociações atingiu seus limites institucionais, administrativos e fiscais. Como os termos estavam condicionados ao fim do movimento, a implementação dos novos auxílios e as mesas de diálogo sobre as pautas específicas permanecerão suspensas enquanto perdurar a greve. O reajuste linear de 3,92% será submetido à apreciação do Conselho Universitário (Consu) em reunião extraordinária no dia 07 de julho.

A Posição do STU: mobilização e cobrança por isonomia

Pelo lado dos trabalhadores, a avaliação da proposta da Reitoria foi de insuficiência. Embora a assembleia do STU (Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp) tenha reconhecido avanços importantes no diálogo, como a garantia de que não haverá descontos salariais pelos dias parados e a retirada dos registros de "F3" (código administrativo que marca faltas por greve e que pode prejudicar a evolução na carreira do servidor), a categoria argumentou que os valores oferecidos para os auxílios não suprem as necessidades reais da classe.

A principal bandeira do sindicato continua sendo a busca por isonomia, ou seja, a igualdade de salários e benefícios, com os servidores da Universidade de São Paulo (USP), cujos valores são historicamente mais altos. Além disso, a categoria exige o pagamento de valores devidos pelo processo pela Lei do Descongela. A medida baseia-se em uma Lei Complementar 226/2026, sancionada pelo presidente Lula em 12 de janeiro de 2026, que autorizou o pagamento retroativo e a contagem de tempo de benefícios de servidores públicos. A medida revogou as restrições da Lei Complementar 173/2020, que congelou direitos de servidores das três esferas de governo durante a pandemia de Covid-19.

Os grevistas também aguardam respostas sobre a "Pauta Específica", um documento com reivindicações emergenciais exclusivas do dia a dia de trabalho da categoria, que engloba desde a melhoria no transporte fretado e a valorização das carreiras da saúde até políticas de acessibilidade para pessoas com deficiência (PCDs).

"É inegável que a continuidade das negociações e os avanços conquistados até aqui são resultado direto da greve e da unidade dos trabalhadores. Por isso, precisamos seguir unidos e mobilizados", defendeu a diretoria do sindicato.

Para demonstrar a força do movimento, o STU convocou o "Dia sem Paepe" para a quarta-feira (30). O termo "Paepe" refere-se aos Profissionais de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (isto é, todo o corpo técnico-administrativo que atua nos bastidores da instituição). O ato, que coincide com a data em que a Comissão de Trabalhadores volta à mesa para receber uma devolutiva da Reitoria sobre as pautas locais, visa evidenciar que, sem o trabalho desse setor, a universidade não funciona.

Unidades como a Faculdade de Educação (FE) já declararam adesão ao movimento. Uma nova assembleia está marcada para o dia 02 de julho, às 13h, na sede do STU, para avaliar as respostas da administração e discutir o indicativo de suspensão ou continuidade da greve.

Paralelamente, a categoria aprovou uma Moção de Repúdio à invasão promovida por militantes de extrema-direita ao Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), ocorrida em 23 de junho, classificando o episódio como um ataque intimidatório e antidemocrático ao espaço acadêmico e à liberdade de pensamento.

Fim da Greve de Docentes e Estudantes

A persistência dos servidores técnico-administrativos ocorre em um momento em que a Unicamp ensaiava um retorno pleno à normalidade. No dia 11 de junho, após cerca de 25 dias de paralisação, professores e estudantes decidiram encerrar suas respectivas greves.

Os docentes aceitaram o índice de 3,92% definido entre o Conselho de Reitores (Cruesp) e o Fórum das Seis. Já o Movimento Estudantil anunciou o fim da paralisação após considerar que grande parte de suas reivindicações foi atendida pela Reitoria, desocupando o prédio da Diretoria Geral de Administração (DGA).

O reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner, celebrou o desfecho na ocasião, ressaltando que as manifestações são legítimas e fazem parte da vida universitária, embora esbarrem frequentemente em barreiras orçamentárias. O diretor-executivo de Sustentabilidade, Roberto Donato, destacou a complexidade das negociações com os estudantes, que envolveram mais de dez entidades e coletivos identitários (como o Anticapacitista, o Núcleo de Consciência Trans e o Comitê das Terceirizadas). O processo resultou em avanços na política de moradia para o campus de Limeira, aperfeiçoamento de bolsas de permanência e o início das obras de reforma do Paviartes, no Instituto de Artes (IA).

É justamente esse equilíbrio entre responsabilidade fiscal e valorização institucional que agora prolonga o impasse com o funcionalismo técnico, cuja resolução dependerá crucialmente das assembleias e mediações agendadas para o início de julho.