Somos péssimos videntes de nossas próprias biografias. Todos nós. Aos 20, não temos ideia do que vamos viver quando chegarmos aos 30. Mas a ansiedade, sempre ela, opera para que a gente imagine os piores cenários possíveis. Que não teremos emprego, que irão descobrir que não somos tão bons quanto parecemos, e por aí vai.
Há uma diferença, no entanto, entre a ansiedade que todos sentimos e aquela que se torna um transtorno. Pense em você num beco escuro, tarde da noite, andando sozinho. Até que percebe alguém caminhando logo atrás. A respiração fica ofegante, o coração na boca. Aí você se dá conta de que se trata apenas de um pai andando de mãos dadas com sua filha. Volta a respirar, aliviado, pelo perigo que não se confirmou.
Para quem tem um transtorno de ansiedade, o alívio pode não chegar com a mesma facilidade. O perigo não se confirmou, mas o alarme continua ligado. E a cabeça já sai procurando o próximo: a conta que talvez não feche, o exame que talvez traga notícia ruim, a mensagem que ainda não teve resposta. Não é preciso beco escuro. O medo vai junto, para onde a pessoa for.
Com o tempo, o medo acaba se confundindo com a própria pessoa. "Sou assim mesmo", ela explica, mesmo quando a preocupação tira o sono, dificulta decisões e não dá descanso. Quem está perto também se acostuma. Em vez de perguntar se ela está bem, diz que sempre foi assim. No trabalho, às vezes, a angústia é até confundida com dedicação. O sofrimento continua, mas já não causa estranhamento.
Costumo dizer que uma crise de ansiedade é a forma mais assustadora de perder o controle do próprio corpo. De tanto passar por isso, aprendi a reconhecer quando uma crise está chegando. Não deixei de sofrer com ela. Mas hoje sei o nome do que está acontecendo, e saber o nome muda tudo. Ninguém deveria aprender isso sozinho, no susto.
Dar o nome certo, aliás, não é simples. Eu mesmo demorei a chegar a ele. Sempre falei em público e, há sete anos, passei de repente a travar nessas situações. O primeiro diagnóstico foi fobia social. Só mais tarde cheguei ao de transtorno de ansiedade generalizada (TAG). A diferença parece detalhe, mas pode mudar o tratamento. E distinguir uma coisa da outra exige o que anda mais escasso na saúde: tempo. Tempo de escuta, de pergunta, de retorno. Como garantir isso com a fila do SUS e com planos de saúde que remuneram por consulta e, na prática, premiam o volume?
Sem tempo, a receita corre o risco de chegar antes da escuta. Remédio é importante, e para muita gente é indispensável. A psicoterapia também pode ser o caminho, sozinha ou junto com a medicação. Mas indicar um psicólogo sem perguntar se a pessoa consegue chegar até ele, pagar por ele ou esperar meses por uma vaga é só transferir o problema de lugar.
Para procurar ajuda, a pessoa precisa primeiro reconhecer que aquilo é sofrimento. E "cuide da sua saúde mental" é pouco para isso. Quem cresceu achando que viver preocupado, dormir mal e esperar sempre o pior é personalidade não vai se reconhecer em uma campanha genérica dessas que vemos por aí. Precisa ouvir, com todas as letras, que aquilo tem nome, tem tratamento e tem porta de entrada.
O maior custo do "sou assim mesmo" não aparece em exame. A pessoa passa anos organizando a vida em torno do medo. Recusa a viagem, adia a mudança, não se candidata à vaga. Ninguém nota, porque renúncia não faz barulho.
Somos mesmo péssimos videntes. Mas a ansiedade prevê o fracasso com tanta convicção que a pessoa desiste antes de tentar. A vaga que ela não disputou fica com outra pessoa. E ela segue achando que não era boa o bastante, sem nunca ter se dado a chance de descobrir.
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