Campinas

Comdema cobra parecer técnico e alerta para impactos do mega data center na Mata de Santa Genebra

Conselho aponta possível irregularidade no licenciamento ambiental, alerta para risco de ilhas de calor e estresse hídrico e convoca oitiva técnica com prefeitura e empreendedores

Comdema cobra parecer técnico e alerta para impactos do mega data center na Mata de Santa Genebra
Comdema cobra parecer técnico e alerta para impactos do mega data center na Mata de Santa Genebra Crédito: Carlos Bassan/Prefeitura de Campinas

De onde vai sair tanta água? O funcionamento não será excessivamente barulhento? A apreensão de moradores de Barão Geraldo, Alphaville e Jardim Miriam diante do projeto para a Fazenda Pau D’Alho reflete uma reação que ganha força no cenário internacional. Nos Estados Unidos, a oposição sistêmica e popular à instalação desses complexos cresce aceleradamente, movida pelo consumo vertiginoso de recursos naturais e do meio ambiente, e pela perturbação do sossego, consolidando um cenário em que ninguém quer ter um mega data center por perto.

O Conselho Municipal de Meio Ambiente de Campinas (Comdema) oficializou na última terça-feira (22) a requisição de um parecer técnico-científico à Fundação José Pedro de Oliveira (FJPO) para avaliar os impactos diretos e cumulativos do projeto "Campus Campinas", um mega data center voltado para Inteligência Artificial (IA), localizado na Zona de Amortecimento da ARIE Mata de Santa Genebra, no distrito de Barão Geraldo.

O empreendimento, liderado pela gestora britânica Actis por meio da empresa Terra Nova 1500 Ltda., prevê investimento inicial de R$ 5 bilhões (com potencial de atingir R$ 20 bilhões até 2029) e ocupará uma área de 944 mil m² na Gleba 146 da Fazenda Pau D'Alho.

Questionamentos sobre a legalidade do licenciamento

No relatório técnico e jurídico publicado, o Comdema aponta que as licenças ambientais prévias e os alvarás de execução emitidos pela Secretaria Municipal do Clima, Meio Ambiente e Sustentabilidade (SECLIMAS) ocorreram à revelia do plenário do conselho. Segundo o órgão, a tramitação violou a Lei Municipal nº 10.841/2001, que exige a deliberação do COMDEMA antes da concessão de licenças para empreendimentos de grande impacto.

O conselho também alerta para um "fracionamento artificial do licenciamento", no qual a subestação de energia de alta tensão (440 kV) foi aprovada separadamente do complexo de servidores, o que teria evitado a exigência de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) de maior rigor.

Principais alertas e impactos ambientais apontados:

. Efeito térmico e microclima: A dissipação contínua de até 386 MW de calor pode induzir a formação de ilhas de calor urbanas, elevando a temperatura local, aumentando o risco de incêndios florestais no período de seca e afetando a vegetação nativa.

. Consumo de água e estresse hídrico: Embora a empresa promova o uso de sistemas em circuito fechado, modelagens apontam que, em dias de calor extremo, a necessidade de resfriamento pode demandar até 3,24 milhões de litros de água tratada por dia**. Isso poderia pressionar o sistema de abastecimento da Bacia do PCJ e o Rio Atibaia, que já opera em níveis críticos durante estiagens.

. Poluição sonora e fauna: O funcionamento contínuo de chillers, bombas e geradores a diesel gera ruídos de baixa frequência que podem perturbar a fauna da Mata de Santa Genebra (como o bugio-ruivo e a onça-parda) e exceder os limites noturnos previstos pela NBR 10151:2019 (50 dB).

. Ruptura de corredores ecológicos: A construção do complexo amuralhado pode criar uma barreira física que compromete a conectividade ecológica entre a Mata de Santa Genebra, a Unicamp e o Rio Atibaia.

. Impacto urbanístico e patrimônio: O modelo de "enclave industrial" contrasta com a proposta original de cidade sustentável e uso misto do Polo de Inovação para o Desenvolvimento Sustentável (PIDS/HIDS), além de interferir no entorno da sede histórica da Fazenda Pau D'Alho, tombada pelo Condepacc.

Próximos passos e convocação para oitiva

O Comdema concedeu prazo até o dia 30 de setembro de 2026 para que a equipe técnica da Fundação José Pedro de Oliveira envie o parecer e responda aos quesitos formulados.

Além disso, o conselho aprovou a realização de uma Sessão Técnica Multissetorial (com transmissão pública ao vivo) e convidou para prestarem esclarecimentos: o prefeito Dário Saadi e os titulares das secretarias envolvidas (Seclimas e SMU); executivos e técnicos da Terra Nova / Actis Invest; a reitoria da Unicamp e a gestão do projeto PIDS/HIDS; a presidência e diretoria técnica da Sanasa.

Confira a resposta da Prefeitura, na íntegra

A Prefeitura de Campinas informa que os alvarás e as licenças expedidos são para, apenas, a implantação de uma subestação de energia elétrica, que levaram em conta a compatibilidade da infraestrutura, urbanísticas e viárias existente na área. A estação de energia elétrica não é exclusiva para o datacenter, sendo que a estação poderá também atender o Datacenter e a cidade de Campinas. É de uma área que vai ser uma área pública. A estação será doada para a cidade.

A licença estabelece condições para a execução da obra, incluindo controle de resíduos, terraplenagem e drenagem, e determina que não haja supressão de árvores ou intervenção em Área de Preservação Permanente (APP) sem as devidas autorizações ambientais.

As demais etapas, relacionadas à futura ocupação da área, estão em análise. Todos os processos que envolvem um empreendimento são avaliados por vários setores da Administração Municipal.

Conforme o Decreto Municipal nº 18.705/2015, a emissão de licenças ambientais é de competência legal da Prefeitura. A norma prevê a participação do Conselho no processo de licenciamento, mas não estabelece que a manifestação do órgão seja obrigatória antes da emissão de todas as licenças ambientais.

O processo foi encaminhado ao Conselho para análise em 18 de agosto de 2026, após a emissão da licença.

Os impactos que as futuras obras podem gerar na área, e o plano de mitigação desses impactos, estão em análise. A Administração Municipal reafirma o compromisso com a transparência, a legalidade, o controle ambiental e o cumprimento das normas municipais.

Quanto à elaboração do parecer, a Prefeitura informa que a equipe técnica da Fundação José Pedro de Oliveira (FJPO) já está realizando a análise da solicitação.

Em relação à Sessão Técnica Multissetorial do Condema, a Administração Municipal aguarda a definição da data.

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ERRATA:

Nota da Redação: Diferente do publicado na edição impressa desta quinta-feira (24), a reunião da Comissão Permanente de Meio Ambiente da Câmara Municipal ocorreu na semana passada. O texto no portal foi devidamente atualizado.