Por trás de cada peça exposta no Museu de Arte Africana, em Campinas, há uma história que ajuda a ampliar o olhar sobre um continente muitas vezes apresentado de maneira simplificada. O espaço, idealizado e organizado pelo coreógrafo, bailarino e pesquisador Carlos Kiss, nasceu do desejo de compartilhar com o público uma coleção que, durante anos, permaneceu restrita ao âmbito particular.
A abertura para os visitantes começou em 2011. Naquele momento, segundo Kiss, a quantidade de obras reunidas já havia chegado a um ponto em que não fazia mais sentido mantê-las apenas como uma coleção particular. A decisão foi transformar o acervo em uma oportunidade de diálogo com a sociedade.
“Não dava para ficar mais em particular, tinha que compartilhar”, resume o pesquisador ao explicar a origem do projeto.
O resultado desse movimento foi a criação do Museu Isabel da Cunha Soares, que passou a receber visitantes interessados em conhecer mais sobre a história e a diversidade das sociedades africanas por meio da arte. O acervo é maior do que aquilo que o público consegue ver em uma única visita: o que está atualmente em exposição representa, de acordo com Kiss, cerca de 30% de todas as obras que fazem parte da coleção.
Por isso, as exposições estão em constante renovação. A proposta é permitir que diferentes peças e referências sejam apresentadas ao público ao longo do tempo, criando novas possibilidades de contato com o acervo.
O museu também mantém uma relação próxima com a educação. Escolas fazem visitas ao espaço, assim como professores que procuram o local para formação relacionada à educação afro-brasileira. Há ainda visitantes que vão individualmente, mediante agendamento.
A movimentação, segundo Kiss, faz parte da rotina do espaço. No dia da visita da reportagem, inclusive, o pesquisador havia acabado de receber um grupo antes de conversar com a equipe.
Um continente, muitas civilizações
Um dos principais objetivos do museu é justamente questionar uma visão que trata a África como se fosse uma realidade única e homogênea. Para Kiss, compreender o continente exige reconhecer a existência de diferentes povos, sociedades, histórias e manifestações culturais.
“Quando a gente pensa em África, aqui no Brasil, a gente pensa em um país, e a África não é um país, é um continente com 54 países”, explica.
A coleção procura apresentar parte dessa diversidade por meio de obras relacionadas a diferentes civilizações africanas. A predominância do acervo é de referências Bantu, mas também há peças ligadas às civilizações Yoruba, Akan e Nilótica.
Cada uma delas está associada a diferentes regiões e contextos históricos. A civilização Yoruba, por exemplo, está relacionada principalmente à Nigéria, além de áreas de Camarões e Benin. Já as sociedades Bantu estão presentes em uma extensa área do continente, incluindo países como Angola, Moçambique, República Democrática do Congo, África do Sul, Zâmbia e Essuatíni.
A referência às sociedades Nilóticas, por sua vez, está relacionada às populações de regiões onde o rio Nilo possui papel central na formação histórica e cultural.
Mais do que apresentar objetos isoladamente, a intenção é oferecer ao visitante elementos para compreender essas diferenças. A arte funciona, assim, como uma porta de entrada para uma discussão mais ampla sobre identidade, história, costumes e modos de vida.
“É isso que a gente tenta explicar para os nossos visitantes”, afirma Kiss.
O acervo, segundo o pesquisador, reúne obras provenientes de diferentes países africanos. Embora não seja possível representar todos os povos existentes no continente, a coleção permite percorrer diferentes regiões e tradições.
A experiência proposta pelo museu, portanto, vai além da contemplação das peças. Ao receber estudantes, professores, pesquisadores e visitantes interessados em conhecer o acervo, o espaço se transforma também em um ambiente de educação e troca.
Em Campinas, a coleção particular que um dia poderia ter permanecido distante do público ganhou outra função. As obras passaram a contar histórias, provocar perguntas e ajudar a estabelecer uma ponte entre o visitante e a complexidade do continente africano.
A cada nova exposição, parte desse acervo volta a ocupar as salas do museu. E, diante da dimensão da coleção, ainda há muito a ser descoberto.
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