Campinas

Tarcísio congela verbas de combate à violência contra a mulher e feminicídio sobe em SP, diz Ana Estela Haddad em Campinas

Esposa do candidato ao governo de SP, Fernando Haddad, concedeu entrevista exclusiva ao Correio da Manhã durante a passagem da Caravana das Mulheres pela região

Tarcísio congela verbas de combate à violência contra a mulher e feminicídio sobe em SP, diz Ana Estela Haddad em Campinas
Ana Estela Haddad, esposa do candidato ao governo de SP, Fernando Haddad, concedeu entrevista exclusiva ao Correio da Manhã durante a passagem da Caravana das Mulheres pela região Crédito: Moara Semeghini / Correio da Manhã

A professora titular do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP), Ana Estela Haddad, esteve em Campinas e cidades da região nesta terça-feira (15), liderando a Caravana das Mulheres com Lula e Haddad, ato e caminhada em defesa dos direitos das mulheres. Além do município campineiro, a mobilização passou por Araras, Limeira, Santa Bárbara d’Oeste e Americana, integrando a coordenação da campanha no estado de São Paulo por meio de articulações conjuntas com lideranças políticas e da sociedade civil. Em Campinas, Ana Estela esteve na pizzaria Monte Bello, no bairro Bosque, onde recebeu a reportagem para uma conversa exclusiva.

Casada desde 1988 com Fernando Haddad (PT), candidato ao governo de São Paulo, a pesquisadora destaca a crescente vontade das mulheres de se posicionarem, declararem voto, militarem e participarem ativamente da vida política, pública e social. Para ela, a expressiva receptividade do público feminino nas ruas reforça a urgência de reunir e dar voz às mulheres neste momento político.

Há cerca de um mês, ela solicitou ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, sua exoneração do cargo de secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde para assumir a coordenação da campanha do presidente Lula em São Paulo. O movimento ocorre logo após a conquista do Prêmio 100 Mais Influentes da Saúde 2026 na categoria Tecnologia e Inovação, sua terceira premiação consecutiva pela modernização do SUS, consolidação da Rede Nacional de Dados em Saúde e expansão do Meu SUS Digital.

Na entrevista a seguir, Ana Estela ressalta a força dessa escuta coletiva, faz um balanço do seu trabalho à frente da transformação digital da saúde no país e faz duras críticas à atual gestão do governo paulista, apontando a falta de prioridade no combate à violência e ao feminicídio.

"Tarcísio cortou o orçamento da Secretaria das Mulheres e resolveu fazer um aplicativo agora. Mas por que ele teve quatro anos e não fez? O que é um aplicativo? As delegacias, são 18 delegacias, nenhuma fica aberta nos horários em que a violência mais acontece", questiona. Ela lembra que, enquanto o Brasil busca avançar na redução dos feminicídios por meio do fortalecimento do acolhimento e da capacitação dos profissionais de saúde, São Paulo precisa urgentemente de um projeto que proteja as mulheres na prática, e não apenas em promessas pontuais.

Confira a entrevista na íntegra

Correio da Manhã: Como você avalia a importância da participação das mulheres nestas eleições?

Ana Estela Haddad: Temos andado por todo o estado de São Paulo, seja na capital, no interior ou na Baixada Santista, e sentimos, nas mulheres em especial, uma vontade muito grande de participar mais da vida política, de se posicionar, de declarar o voto, de militar e de participar realmente do processo. Percebo que, quando as mulheres veem outras mulheres no espaço político, cria-se uma conexão direta, elas vêm e querem vir. Então, nesse sentido, os dois projetos de país, e também para o estado de São Paulo, que estão em jogo, são projetos diametralmente opostos. Um deles é a favor das causas femininas, o outro é totalmente contra.

As mulheres que têm essa sensibilidade e que estão percebendo isso, elas querem vir, porque entendem também que a gente está defendendo a nossa democracia. E a nossa soberania. A soberania do nosso País também está em jogo.

CM: Quais as diferenças que você observa entre os projetos políticos em disputa no estado de São Paulo, em relação à pauta feminina?

Ana Estela Haddad: A diferença é visível nas ações. Em São Paulo, o governador Tarcísio cortou o orçamento da Secretaria das Mulheres. Agora ele resolveu anunciar um aplicativo, mas por que teve quatro anos e não fez nada antes? O que é um aplicativo isolado? As 18 delegacias da mulher em São Paulo não ficam abertas nos horários em que a violência mais acontece. Enquanto no resto do país estamos vendo uma diminuição dos feminicídios e a estruturação de um processo de acolhimento às mulheres em situação de violência, com a capacitação de profissionais de saúde, em São Paulo vemos o contrário: delegacias fechadas e o número de feminicídios aumentando.

Vou citar uma coisa simples. Em São Paulo, Tarcísio cortou o orçamento da Secretaria de Mulheres, destinado ao enfrentamento à violência contra a mulher em SP.

Agora ele resolveu fazer um aplicativo agora. Mas por que ele teve quatro anos e não fez? O que é um aplicativo? As delegacias, são 18 delegacias, nenhuma fica aberta nos horários em que a violência mais acontece. No Brasil todo, a gente está tendo uma diminuição dos feminicídios e todo um processo para atender as mulheres e acolher em situação de violência, capacitando os profissionais de saúde.

Criamos no meu SUS Digital, pelo Ministério da Saúde, um canal para a mulher acionar e ter como ser direcionada para o atendimento, teleatendimento, acolhimento profissional. Então, tem todo um trabalho também muito conduzido pela primeira dama Janja, que tem tomado para ela a causa da violência contra a mulher de uma maneira intersetorial. Estamos estruturando um sistema de informação, de monitoramento do agressor.

Tem muitas medidas sendo tomadas para coibir a situação de violência contra a mulher, que muitas vezes termina no feminicídio. E em São Paulo é o contrário, as delegacias fechadas. Hoje o número de feminicídios aumenta, enquanto no resto do país diminui.

Então, enfim, nessa situação tão cara que é a violência, essa é a situação em São Paulo. Se for ver a educação, se for ver a saúde, se for ver a segurança pública, a gente precisa virar esse jogo.

CM: Qual balanço você faz do seu trabalho na saúde pública e quais avanços destaca no processo de transformação digital do SUS?

Ana Estela Haddad: Nestes três anos e meio na gestão federal, primeiro com a ministra Nísia Trindade e depois com o ministro Alexandre Padilha, ficamos encarregadas de criar a Secretaria de Informação e Saúde Digital e coordenar a transformação digital do SUS. Trabalhamos na estruturação e expansão de uma plataforma de interoperabilidade, a Rede Nacional de Dados de Saúde. Hoje temos sistemas, prontuários eletrônicos com padrão de troca de informação integrado. Isso faz com que, por exemplo, o usuário do SUS, no aplicativo Meu SUS Digital, que é um aplicativo gratuito e já tem mais de 70 milhões de downloads, faz com que o usuário tenha o acesso ao seu prontuário, ao seu histórico clínico atualizado.

O próprio profissional de saúde também acessa pela plataforma de interoperabilidade, através do SUS Digital Profissional, os dados do paciente que ele está atendendo, não importa onde ele está atendendo.

Então, a gente rompe esse limite e essa limitação de lugar, do prontuário estar em um determinado e ele agora está disponível onde for necessário, com os dados do paciente integrados. Isso leva a um atendimento contínuo, com qualidade, com segurança.

E a Telessaúde vem junto e se integra para a gente levar o processo assistencial para as regiões onde a gente tem vazio assistencial, onde o cuidado especializado, às vezes, pode não estar chegando. Então, muita coisa está sendo feita para melhorar a saúde no SUS.

Feminicídio

Entre 2024 e 2025, a gestão Tarcísio de Freitas congelou a maior parte das verbas voltadas ao combate à violência contra a mulher no estado de São Paulo, chegando a congelar 96% dos recursos e direcionando a maioria da verba executada apenas para gastos administrativos.

Esse bloqueio contínuo de investimentos ocorreu em paralelo ao crescimento nos índices estaduais de feminicídio e estupro, resultando em uma aplicação financeira de apenas R$ 0,18 por mulher. Para 2026, o governo projeta a continuidade do enxugamento da área ao propor um orçamento para a Secretaria de Políticas para a Mulher mais de 50% menor do que o montante aprovado para 2025.

Macaque in the trees
Ana Estela Haddad, esposa do candidato ao governo de SP, Fernando Haddad, concedeu entrevista exclusiva ao Correio da Manhã durante a passagem da Caravana das Mulheres pela região | Foto: Moara Semeghini / Correio da Manhã

Macaque in the trees
Ana Estela Haddad, esposa do candidato ao governo de SP, Fernando Haddad, concedeu entrevista exclusiva ao Correio da Manhã durante a passagem da Caravana das Mulheres pela região | Foto: Moara Semeghini / Correio da Manhã

Macaque in the trees
Ana Estela Haddad, esposa do candidato ao governo de SP, Fernando Haddad, concedeu entrevista exclusiva ao Correio da Manhã durante a passagem da Caravana das Mulheres pela região | Foto: Moara Semeghini / Correio da Manhã

Macaque in the trees
Ana Estela Haddad, esposa do candidato ao governo de SP, Fernando Haddad, concedeu entrevista exclusiva ao Correio da Manhã durante a passagem da Caravana das Mulheres pela região | Foto: Moara Semeghini / Correio da Manhã

Macaque in the trees
Ana Estela Haddad, esposa do candidato ao governo de SP, Fernando Haddad, concedeu entrevista exclusiva ao Correio da Manhã durante a passagem da Caravana das Mulheres pela região | Foto: Moara Semeghini / Correio da Manhã