Campinas

Pesquisa da Unicamp aponta que 70% da população apoia o fim da escala 6×1

Estudo revela rejeição ao trabalho formal precário, apoio maciço à escala reduzida e abertura à atuação sindical

Pesquisa da Unicamp aponta que 70% da população apoia o fim da escala 6×1
Comércio de Campinas projeta R$ 288,1 milhões em vendas para o Dia das Mães, que ocorre no próximo domingo, 10 de maio; montante representa uma elevação de 5,6% em comparação ao faturamento de R$ 272,9 milhões alcançado no mesmo período do ano passado, conforme dados divulgados pela Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic) Crédito: Rafael Lima

Uma pesquisa realizada em Campinas (SP) aponta que a maior parte da população apoia os direitos trabalhistas e os sindicatos, além de pautas como o fim da escala 6×1 e a taxação sobre grandes fortunas. O mapeamento também indica, no entanto, uma crítica ao trabalho assalariado. Um dos motivos, para os pesquisadores, seria a busca de alternativas ao trabalho precário, que prevalece nas ocupações criadas no setor de serviços.

Intitulado “Percepções sociais sobre trabalho, sindicalismo e direitos”, o levantamento realizado em parceria com a Unicamp ouviu 1.412 pessoas no centro da cidade, durante o mês de julho de 2025. O grau de confiança da pesquisa foi de 95%, com margem de erro de 3%.

Com relação aos direitos trabalhistas, 97,2% dos participantes assinalaram que eles devem ser garantidos a todos os trabalhadores. Um total de 58,1% acredita que o Estado é o principal responsável por essa garantia, enquanto 16,4% acreditam que são os patrões, 13,1%, os sindicatos, e 7,2% colocam essa responsabilidade em sua própria conta.

O apoio aos direitos apareceu também em outras questões. Ao todo, 71,4% concordam com a estabilidade empregatícia dos funcionários públicos. O apoio ao fim da escala 6×1 foi de 72,6%, e à redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas, de 80,3%.

Entre os 300 respondentes não assalariados e trabalhadoras domésticas, 53,7% não gostariam de trabalhar com carteira assinada e apenas 25,2% responderam afirmativamente. Outros 16,7% afirmam que dependeria da proposta, e 4,7% não sabiam ou não quiseram responder.

Para Andréia Galvão, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e uma das autoras da pesquisa, o nível de adesão aos direitos surpreendeu. “Não é porque tantas pessoas não querem trabalhar com carteira assinada que elas acham que os direitos não são importantes”, observa. “Há pesquisas muito taxativas, que sustentam que ninguém mais quer a CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]. Não é isso que nossa pesquisa mostra: ela indica uma preferência pelo trabalho por conta própria, mas, ao mesmo tempo, as pessoas são favoráveis aos direitos garantidos pelo emprego formal.”

Segundo Galvão, um dos motivos possíveis para a rejeição à carteira assinada é a baixa qualidade dos empregos formais disponíveis, marcados por baixos salários (68,9% dos participantes recebiam até três salários mínimos no momento da aplicação do questionário), instabilidade, jornadas extensas e ausência de perspectivas profissionais. Isso se reflete nas aspirações dos entrevistados: quando perguntadas sobre seu futuro, 35,9% das pessoas desejam abrir seu próprio negócio, 25,4% almejam se aposentar, 12,3% querem passar num concurso público e apenas 8,5% gostariam de ter um bom emprego com carteira assinada.

No que se refere à aposentadoria, a pesquisa mostra um quadro de incerteza: 21,1% dos respondentes têm certeza de que não conseguirão se aposentar, e 46,6% afirmam que terão dificuldades. Apenas 24,1% têm certeza de que conseguirão exercer esse direito.

“Conseguir se aposentar é um desejo. Por quê? Porque as condições de trabalho são tão ruins que mesmo as pessoas com emprego formal podem não conseguir contribuir por tempo suficiente, porque as regras mudaram ou porque saem do formal e vão para o informal”, aponta a professora.

Insatisfação no trabalho

A pesquisa captou uma percepção majoritariamente positiva do trabalho, mas esse dado esconde diferenças importantes. Os mais escolarizados relatam sentir maior pressão e controle, insatisfação com a remuneração e menor valorização social.

Para José Dari Krein, professor do Instituto de Economia da Unicamp e também um dos responsáveis pelo estudo, a pesquisa expressa um descompasso entre as ocupações geradas e a elevação da escolaridade. “A oferta de postos de trabalho disponível no mercado não corresponde aos anos de estudo, então a pessoa tem uma frustração de expectativas porque ela imagina que vai se qualificar, se formar, ter um diploma de nível superior e isso vai assegurar um trabalho mais estável, com condições melhores e uma renda mais elevada, mas nem sempre isso acontece”, afirma.

Krein ressalta que, na pesquisa realizada em Campinas, os trabalhadores das áreas de educação, saúde e segurança relatam maior descontentamento. Nesses segmentos, “prevalece de uma forma muito contundente uma avaliação mais negativa em relação à remuneração e às condições de trabalho”.

Já as pessoas que se dizem mais satisfeitas são aquelas que trabalham como autônomas. “Os assalariados são mais críticos em relação ao trabalho porque estão submetidos a relações hierárquicas marcadas por despotismo, assédio e discriminação”, observa Galvão.

Abertura para o sindicalismo

No terceiro eixo do estudo, os pesquisadores avaliaram as percepções sobre o sindicalismo. Embora poucos sejam sindicalizados (14,4% da amostra), a maioria dos respondentes considera os sindicatos importantes para a defesa dos direitos da classe trabalhadora (72,2%), para a melhoria dos salários e condições de trabalho da categoria à qual pertencem (63%) e para a melhoria das condições de vida dos trabalhadores (59,6%). Além disso, 73,9% afirmam que a greve é uma forma de luta legítima dos trabalhadores. Em diversas questões, o estudo testou a rejeição ao sindicalismo, mas a alternativa “sindicatos não deveriam existir” foi pouco assinalada pelos participantes (média de 7,95%), o que sugere que não há uma rejeição aberta aos sindicatos, embora existam críticas às suas formas de organização e atuação. Um total de 34% dos participantes afirmou não ter tido oportunidade de se sindicalizar, o que indica, para os professores, que há espaço para os sindicatos crescerem.

Ampliação do estudo

O levantamento foi desenvolvido pelos dois professores da Unicamp e pelas pesquisadoras Patrícia Trópia, Ana Paula Colombi, Ariella Araújo e Elaine Amorim, ligadas à Rede de Estudos e Monitoramento Interdisciplinar da Reconfiguração do Trabalho (Remir). Estudantes do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) foram responsáveis por aplicar os questionários.

O estudo contou com apoio do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho), a partir de um projeto financiado pelo Fundo Brasil, e foi realizado no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT-Trabalho), ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Para aprofundar as análises, serão realizados grupos focais ainda neste ano. A partir dessas duas fases, os instrumentos serão aperfeiçoados e a equipe fará um estudo nacional em 2027.

As informações são do Portal Unicamp