Por Moara Semeghini
Vencedora de oito prêmios Grammy Latino e consagrada como uma das vozes mais potentes e emblemáticas da MPB, Maria Rita estará em Campinas sábado (25), no Royal Palm Hall, trazendo a sonoridade afetiva e marcante dos clássicos da música brasileira com a turnê "Redescobrir Vol. 2".
A cantora divide o palco com o filho Antonio e transforma o espetáculo em algo além da homenagem prestada em "Redescobrir" de 2012: um reencontro visceral consigo mesma e de uma busca pelo colo materno de quem a entenderia por completo como mulher, mãe, artista e ser atravessado por luzes, sombras e inseguranças. O Correio da Manhã conversou com a cantora sobre este momento de cura e acolhimento. Os ingressos estão à venda pela Ticketmaster e na Academia Taquaral With Fit.
Correio da Manhã - Como está sendo dividir o palco com o Antonio nessa estreia dele na percussão e no violão?
Maria Rita - Gente… Ninguém me preparou pra emoção que é dividir o palco com um filho, não. Eu finjo que não tô vendo pra não perder a linha e apertar bochecha, amassar, querer exibir, mas a vontade que dá é de fazer tudo isso! É um privilégio imenso fazer parte dessa história dele, de tê-lo comigo nesse momento da minha vida, como um homem e não apenas como meu filho. Como um profissional dedicado, ansioso, estudioso, feliz. De escrever aqui, tô com nó na garganta e meus olhos enchem d’água. Eu tenho muito orgulho dele, da cabeça dele, da alma dele. E ele ainda vai me dar muito mais orgulho e alegrias nessa vida…
CM - Sua turnê fala muito sobre a busca por um colo e pela presença familiar; ter seu filho ali do seu lado muda a dinâmica da sua entrega e da sua segurança no palco?
MR - Boa pergunta… Não muda em nada na entrega, não. Mas, na segurança, talvez. Agora que você perguntou, tô percebendo que me pego um pouco “dividida”, quase como se eu tivesse que ser mais para ele e por causa dele, em cima do palco. Uma mãe que está sempre pronta pra proteger um filho. Não que vá acontecer alguma coisa com ele em cima do palco, até porque estamos cercados de profissionais imensamente talentosos e generosos, que acolheram meu menino como um mascote e já o tratam como um deles. No entanto, tem uma beleza ímpar num filho presenciar as emoções à flor da pele da mãe, como é o caso nesse show… E eu acabo que me pego atenta a isso também.
CM - Em 2012, o Redescobrir foi uma homenagem pública e direta à Elis. Hoje, o Vol. 2 é apontado como um reencontro com você mesma. É isso mesmo?
MR - É exatamente isso. O Vol. 2 sou eu buscando o colo da minha mãe, que, sinto, seria a única pessoa que me entenderia neste momento — por ser mulher, mãe, artista, muito inteligente, muito insegura, cheia de conflitos, belezas, luz e sombras.
CM - O que mudou na sua relação com esse repertório de lá para cá para que ele deixasse de ser apenas uma homenagem e virasse o seu próprio lugar de cura?
MR - Não é o mesmo repertório, né… São canções diferentes do de 2012… Daí minha liberdade de nomear o show como “Vol. 2” — é uma continuação, em várias frentes: não são as mesmas músicas, ali era para a mãe, hoje é para mim através dela… A questão do lugar de cura que você menciona é que é o lance… Não sei ainda se esse show vai me curar, mas, ao menos, eu sinto que estou num colo, e não mais vagando solta sem entender certas coisas.
CM - Você comentou sobre a visão marcante de um palco branco com você vestida de vermelho no centro, uma imagem que traduz a busca por um “colo”. O quanto esse show é também sobre se dar o direito de demonstrar fragilidade e dizer para o público que não dá para “ser forte o tempo todo”?
MR - Sim, foi uma imagem que, posteriormente, eu interpretei como um coração pulsando… Esse show é absolutamente sobre não ser forte o tempo todo. Eu até acho que meu público mais próximo não me veja dessa maneira, “forte o tempo todo”, dada minha entrega com choros e gritos e pulos e corridas no palco (risos). A questão é quando eu não estou no palco. As dores e sombras e trapaças e mentiras e traições que ninguém imagina que eu passo. E não tem que imaginar mesmo, não. Meu trabalho é estar linda e incrível pro meu público. Mas essa “preservação” do público, de minha parte, foi um dos motivos dessa minha exaustão violenta. Eu não gosto de compartilhar minhas coisas de forma direta com eles. É pra isso que eu canto o que eu canto da maneira que eu canto, entende? E eles, o público, transformam as minhas palavras cantadas em trilha sonora da vida deles. O acordo é esse. Meu ofício. Mas eu não segurei, e ainda estou reaprendendo a viver com novos limites, novos “nãos”.
CM - Depois de momentos tão duros, como o roubo do equipamento e o burnout, você encontrou na espiritualidade uma forma de acolher a tristeza sem se deixar paralisar. Como essa reconexão espiritual se reflete na sua arte e até em seu ritual de preparação para subir ao palco nesta nova turnê?
MR - Sabe que, se não fosse a espiritualidade, eu provavelmente teria abandonado tudo. Eu tenho orixá na minha vida da mesma maneira que o cristão tem Deus, sabe? Nos momentos mais absurdos de porrada que eu tomava, eu sabia que tinha alguma coisa maior regendo a confusão, um amor maior tentando me mostrar as coisas que eu deveria perceber e absorver. Porque orixá é amor, não é julgamento. Mas não foi uma reconexão, porque orixá vive em mim há seis anos, sabe? O desafio foi também não perder a fé. E eu não perdi.
CM - Depois do afastamento e de um período de esgotamento com a rotina de shows, como está a sua relação criativa com a música no dia a dia?
MR - Minha relação com a criatividade, hoje, passa pelos meus bordados com pedraria, passa por estudar com minha filha, passa por fazer pipoca no final da tarde, passa por fazer pilates três vezes na semana, passa por ouvir os relatos sobre surfe e jiu-jítsu do meu filho, passa por entender que eu não tenho mais como viver como eu vivia. Doa a quem doer. E disso vai sair arte, vai sair música, vai sair show, vai sair o que tiver que sair.
CM - O que tem te inspirado e feito seus olhos brilharem quando você escuta ou cria algo novo hoje?
MR - Perceber que eu, aos poucos, estou perdendo o medo que eu estava sentindo da música e do palco.
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