Campinas foi selecionada pelo Ministério da Saúde para receber o Método Wolbachia, tecnologia que utiliza mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia para reduzir a transmissão da dengue, zika e chikungunya e outras arboviroses a partir de 2027. A cidade é uma das seis de São Paulo selecionadas pelo ministério para a implantação da estratégia que também é efetiva contra os vírus da zika e da chikunugnya.
Para participar, o município formalizou a aceitação do convite nesta terça-feira, 7 de julho. Depois disso, técnicos da Wolbitos, empresa responsável pelo projeto no Brasil, virão para Campinas para participar da implantação.
"Esse programa vem validado e chancelado pelo Ministério da Saúde, com todo o histórico nos países onde foi desenvolvido. São seis cidades no Estado de São Paulo, e Campinas não poderia estar fora. A gente tem uma estrutura, capacidade técnica de aplicar, analisar e até colaborar cientificamente para a evolução desse método", destacou o prefeito Dário Saadi durante o anúncio na tarde desta terça.
Como funciona?
A Wolbachia é uma bactéria natural, presente em cerca de 60% dos insetos, inclusive em alguns mosquitos. No entanto, não é encontrada naturalmente no Aedes aegypti.
Ao injetar a Wolbachia em ovos do Aedes, pesquisadores verificaram que os mosquitos que a receberam não desenvolveram os vírus da dengue, zika e chikungunya, o que impossibilita que os transmitam aos humanos.
Neste projeto, mosquitos que receberam a bactéria são liberados para que se reproduzam com os Aedes aegypti locais, estabelecendo, aos poucos, uma nova população sem os vírus.
Além de impedir a transmissão dos vírus, em parte dos casos, a Wolbachia também impede a reprodução dos mosquitos:
- Se um macho com Wolbachia cruza com uma fêmea que não tem a bactéria, os ovos que ela produzir não vão originar filhotes;
- Se a fêmea tem Wolbachia e o macho não, ela produz seu número normal de ovos, e todos os filhotes terão a Wolbachia;
- Quando os dois insetos portadores de Wolbachia cruzam, acontece o mesmo, e todos os filhotes terão a Wolbachia.
Assim, o número de mosquitos que não transmitem as arboviroses aumenta gradativamente.
A bactéria passa de uma geração para outra pelos ovos do mosquito, portanto, não é necessária sua reintrodução no ecossistema.
Implantação em Campinas
A previsão é de que os insetos com Wolbachia sejam soltos a partir de maio de 2027, mas o impacto deve ser sentido a partir de 2028.
"A previsão é de que esses mosquitos serão soltos em maio, quando sentirmos que a dengue cessou ou diminuiu. Nessa época, a gente diminui o uso da dedetização. Porque a gente não pode soltar e continuar fazendo a dedetização, para não matar esse mosquito [com Wolbachia]", explicou o secretário de Saúde de Campinas, Lair Zambon.
A soltura dos mosquitos vai ocorrer ao longo de 26 semanas. O custo previsto do projeto na cidade será entre R$ 20 milhões e R$ 22 milhões, sendo R$ 7 milhões do Ministério da Saúde e o restante proveniente do orçamento do próprio Município.
Será implantada uma biofábrica de mosquitos, contratados 59 agentes de controle ambiental e dois biólogos, haverá locação de 14 carros e aquisição de equipamentos.
A empresa responsável pela implantação oferecerá a assessoria técnica para instalação da biofábrica, treinamento, conscientização da população sobre o trabalho, fornecimento de ovos com a Wolbachia, produção dos mosquitos e soltura deles.
"A Wolbitos manda esses ovos para cá, na nossa biofábrica ocorre o desenvolvimento do ovo até o mosquito na fase adulta e, então, a gente começa a soltar os mosquitos no ambiente", detalha Gláucia Margoto, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa).
Os resultados do projeto serão mensurados pela Fundação Oswaldo Cruz. Segundo diretriz do Ministério da Saúde, o método será considerado efetivo quando for alcançada a meta de 60% de mosquitos com Wolbachia.
Redução entre 60% e 80% dos casos
A técnica já foi implementada em 15 países, incluindo o Brasil. No país, as ações já foram aplicadas em 11 cidades em sete estados, com início no Rio de Janeiro (RJ) e Niterói (RJ).
Com base nos resultados já conquistados em outras cidades, a expectativa é de uma redução entre 60% e 80% dos casos de dengue.
Iniciativa sustentável
Não há qualquer modificação genética no mosquito. Com o tempo, a porcentagem de Aedes que carregam a Wolbachia aumenta, até que permaneça estável, sem a necessidade de novas liberações. Esse efeito torna o método autossustentável e uma intervenção acessível a longo prazo.
A técnica também é ambientalmente amigável. Os experimentos em laboratório identificaram que a Wolbachia, que é intracelular, não pode ser transmitida para humanos ou outros mamíferos.
Além disso, ela já está presente naturalmente em outras espécies de artrópodes. Assim, ao ser introduzida em uma população de Aedes, não haverá alteração significativa nos sistemas ecológicos.
Outras ações continuam
Campinas soma 3.368 casos de dengue neste ano e nenhuma morte pela doença. A implantação do método Wolbachia complementa uma série de outras medidas em andamento e que vão continuar sendo realizadas pela Secretaria Municipal de Saúde.
Veja o que já foi feito em 2026:
- controle de criadouros: 790.891 visitas a imóveis (até 24/6)
- nebulização: visitas a 53.382 imóveis (até 24/6);
- 6 mutirões;
- 24.946 toneladas de descartes irregulares retirados no município (até 6/7);
- monitoramento de pacientes com suspeita de dengue: 188.448 (de 3/2023 a 5/2026);
- uso de armadilhas contra o Aedes em pontos estratégicos;
- 137 lideranças de bairros capacitadas para o enfrentamento à dengue e outras ocorrências;
- 250 servidores brigadistas;
- 300 servidores capacitados.
A luta contra as arboviroses também exige uma contrapartida de toda a sociedade. Cada cidadão precisa fazer a sua parte, destinando corretamente os resíduos e evitando criadouros. Levantamento da Secretaria de Estado da Saúde aponta que 80% dos criadouros estão dentro das casas.
Para acabar com a proliferação do mosquito, é preciso evitar o acúmulo de água, latas, pneus e outros objetos.
Os vasos de plantas devem ter a água trocada a cada dois dias, e o pratinho deve ser retirado ou limpo com bucha, água e sabão a cada sete dias. É importante também vedar a caixa-d'água. Os vasos sanitários que não estão sendo usados devem ficar fechados. Mais informações em https://dengue.campinas.sp.gov.br.
Vacinação
No dia 8 de junho, em cumprimento à determinação do Ministério da Saúde, Campinas suspendeu temporariamente a vacinação contra a dengue com o imunizante do Instituto Butantan.
A medida, de caráter preventivo, segue orientação técnica e ocorre enquanto o Ministério da Saúde, a Anvisa e o Instituto Butantan investigam Eventos Supostamente Atribuíveis à Vacinação ou Imunização (Esavi).
No entanto, a suspensão se aplica exclusivamente ao imunizante do Instituto Butantan. A vacina contra a dengue disponível nos centros de saúde para a população de 10 a 14 anos, produzida por outro laboratório, não é afetada pela determinação do Ministério da Saúde e segue disponível normalmente.
As famílias que precisam vacinar seus filhos nessa faixa etária devem procurar uma unidade de saúde com um documento com foto e a caderneta de vacinação (se a tiverem).
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