Correio da Manhã
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Haddad diz que milícias já atuam em SP e que o pós‑Bolsonaro foi um pesadelo

'Foi um pesadelo ter que reconstruir cada um dos programas sociais', lembrou o pré-candidato ao governo de São Paulo

Haddad diz que milícias já atuam em SP e que o pós‑Bolsonaro foi um pesadelo
Fernando Haddad ministra aula magna no Teatro de Arena da Unicamp Crédito: Moara Semeghini/CM

Durante aula magna ministrada na noite desta quinta-feira (2), no Teatro de Arena da Unicamp, o ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo paulista, Fernando Haddad (PT), fez um alerta contundente sobre a segurança pública e afirmou que o período pós-Bolsonaro no plano federal foi um "pesadelo" de reconstrução. Diante de um público de cerca de 800 pessoas, o ex-ministro cruzou os dois temas para diagnosticar o que chamou de cenário de "involução" no Estado de São Paulo, destacando a urgência de frear o surgimento de atividades milicianas em solo paulista.

O avanço das milícias e a mercantilização de serviços

Um dos pontos mais contundentes da exposição de Haddad foi dedicado à segurança pública. O ex-ministro fez um alerta direto sobre o avanço de empresas privadas de segurança que passam a exercer funções tipicamente policiais nas cidades do interior paulista, muitas vezes geridas e operadas por ex-policiais.

"É um começo de milícia que está acontecendo no Estado de São Paulo. As pessoas acham que, como a segurança pública está em crise, devem contratar esse serviço, e não começam a perceber que esse é o caminho do caos", advertiu o palestrante.

Para Haddad, o campo progressista precisa assumir o protagonismo desse debate, apresentando soluções de tecnologia social e recusando a lógica de privatização do setor. Ele defendeu que serviços essenciais como saúde, educação e segurança pública devem permanecer estritamente sob a alçada e a responsabilidade do Estado para garantir padrões mínimos de civilidade e ascensão social.

Nessa linha, o pré-candidato ironizou a "cartilha básica" da atual gestão de focar exclusivamente na venda de patrimônio público e no corte de direitos, citando como exemplo extremo a concessão da prefeitura da capital paulista. "Na cidade de São Paulo, até o serviço funerário foi privatizado, com a concessão de 30 anos. Tem gente que não consegue enterrar parentes em São Paulo, não importa o preço do serviço", apontou.

O "pesadelo" da reconstrução federal

Na sequência de seu diagnóstico sobre o panorama nacional, Haddad detalhou as dificuldades financeiras e institucionais que herdou na Esplanada dos Ministérios. "É muito difícil imaginar o que foi o pesadelo do pós-Bolsonaro. Muita coisa foi destruída no Brasil em quatro anos, muita coisa", afirmou o ex-ministro, explicando que a atual gestão federal tem atuado de forma paulatina e sob severas restrições orçamentárias para recompor estruturas básicas de Estado.

Segundo o palestrante, o governo federal teve que reconstruir individualmente as bases de cada programa social desidratado no período anterior. "Foi um pesadelo ter que reconstruir cada um dos programas sociais. Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida, um por um dos programas foi preciso reconstruir", disse.

Haddad também mencionou o impacto financeiro para restabelecer os mínimos constitucionais de áreas prioritárias, destacando que foram necessários R$ 100 bilhões apenas para recompor o piso do Sistema Único de Saúde (SUS), além de aportes expressivos para reerguer o orçamento da educação e reestruturar o sistema de ciência e tecnologia, por meio da recomposição institucional do Ministério da Ciência e Tecnologia, da Finep e do FNDCT.

Conquistas sociais e o acesso à universidade

Apesar da crítica à "ânsia destrutiva" da gestão anterior, o ex-ministro pontuou que o bolsonarismo não conseguiu destruir conquistas que o povo brasileiro incorporou como valores permanentes. "Quando alguém incorpora, por exemplo, a questão do combate à fome. Ninguém aceita mais o Brasil como a pátria da fome. Isso aí, pode ter certeza que foi uma das coisas que derrubou o bolsonarismo", avaliou.

A democratização do ensino superior e a inclusão social também foram defendidas como marcos irreversíveis.

Presença popular: "Ninguém mais consegue voltar atrás sobre a presença do negro, do filho de trabalhador numa universidade. Ninguém mais consegue enxergar a universidade voltando aos tempos em que você não via o Brasil na universidade", enfatizou.

Avanço da escola pública: Haddad lembrou que, até o final dos anos 1990, a qualidade da escola pública era sofrida e aceita de forma assistencialista pelas famílias. "Hoje, as pessoas perguntam: 'O que meu filho tá aprendendo?' É isso que faz a diferença."

Interiorização: O petista relembrou a criação dos Institutos Federais em 2008, apontando que a instalação dessas estruturas mudou o eixo cultural e econômico das grandes cidades do interior de São Paulo. Por outro lado, alertou que o país ainda falha no tratamento de sua juventude, desperdiçando potencial tanto no ambiente escolar quanto no mercado de trabalho.

Haddad encerrou a atividade na Unicamp defendendo a política como o único caminho legítimo para a transformação social, demonstrando otimismo para o embate de projetos em São Paulo nas próximas eleições. "Se a gente pautar o debate com um programa sério, você não perde eleição", concluiu.