"É muito difícil imaginar o que foi o pesadelo do pós-Bolsonaro. Muita coisa foi destruída no Brasil em quatro anos, muita coisa." A afirmação foi feita pelo pré-candidato ao governado de São Paulo e ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), durante aula magna ministrada na noite desta quinta-feira (2), no Teatro de Arena da Unicamp. Diante de um público de cerca de 800 pessoas, o pré-candidato usou o balanço das ações federais como ponto de partida para diagnosticar o que chamou de "involução" no Estado de São Paulo.
"Foi um pesadelo ter que reconstruir cada um dos programas sociais (quando o governo Lula assumiu após o governo Bolsonaro). Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida, um por um, dos programas foi preciso reconstruir. Agora, mesmo eles (governo Bolsonaro), com toda essa ânsia destrutiva, não conseguiram destruir algumas conquistas, sobretudo aquelas que o povo brasileiro incorporou como valor", afirmou.
"Quando alguém incorpora, por exemplo, a questão do combate à fome. Ninguém aceita mais o Brasil como a pátria da fome. Isso aí, pode ter certeza que foi uma das coisas que derrubou o bolsonarismo. Quando a gente tem consciência de uma conquista, nem mesmo quando há uma alternância trágica no poder - que foi a eleição do Bolsonaro - mesmo assim tem coisa que não se consegue voltar para trás", afirmou.
"Ninguém mais consegue voltar atrás sobre a presença do negro, do filho de trabalhador numa universidade. Ninguém mais consegue enxergar a universidade voltando aos tempos em que você não via o Brasil na universidade. Você vai setores, setores da sociedade que não representavam tudo o que é a nossa gente, ninguém mais consegue voltar para trás. Ninguém consegue mais pensar numa escola pública que não avança, uma escola pública que a qualidade da escola pública até o final dos anos noventa, era sofrida no Brasil e era aceitável", lembrou.
Segundo o ex-ministro, a atual gestão federal tem atuado de forma paulatina e sob severas restrições orçamentárias para recompor estruturas básicas de Estado. Ele destacou o esforço para reestruturar o sistema de ciência e tecnologia do país, mencionando a recomposição institucional do Ministério da Ciência e Tecnologia, da Finep e do FNDCT, e o restabelecimento dos mínimos constitucionais de áreas prioritárias. De acordo com o palestrante, foram necessários R$ 100 bilhões apenas para recompor o piso do Sistema Único de Saúde (SUS), além de aportes expressivos para reerguer o orçamento da educação.
Sobre a interiorização do ensino, Haddad relembrou a criação dos Institutos Federais em 2008, apontando que a instalação dessas estruturas muda o eixo cultural e econômico das grandes cidades do interior paulista. Por outro lado, o ex-ministro alertou que o país ainda falha no tratamento de sua juventude, desperdiçando o potencial econômico e intelectual das novas gerações tanto no ambiente escolar quanto no mercado de trabalho.
O diagnóstico do Estado de São Paulo: "Andando para trás"
Ao transitar para o debate estadual de olho no pleito de 2026, Haddad adotou um tom crítico em relação à atual governança paulista. "A minha surpresa foi o fato de que nós estamos andando para trás. Não estamos andando de lado, não estamos andando para frente devagar, nós estamos andando para trás", alertou, elegendo a educação básica e o financiamento universitário como as principais fragilidades atuais.
O ex-ministro denunciou uma crise velada na rede estadual de ensino, apontando a falta crônica de professores de disciplinas exatas (Matemática, Física, Química e Biologia) e a exclusão de matérias voltadas ao desenvolvimento do pensamento crítico na grade curricular do Ensino Médio.
Insegurança orçamentária nas universidades paulistas
Haddad também ecoou a preocupação de reitores, sindicatos e entidades estudantis sobre a autonomia financeira da USP, Unicamp e Unesp. Ele criticou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa reduzir o repasse obrigatório da educação de 30% para 25% no estado, e apontou a fragilidade de as universidades dependerem de um decreto governamental para o recebimento de recursos.
Como alternativa de longo prazo, o pré-candidato garantiu que sua plataforma eleitoral para 2026 reitera a proposta de vincular o financiamento universitário à Receita Tributária Líquida (RTL) do Estado. A medida visa blindar o planejamento das instituições diante da transição de nomes e formatos de impostos decorrentes da reforma tributária.
Alerta contra a "mercantilização" e milícias no interior
Um dos pontos mais contundentes da aula magna foi dedicado à segurança pública. Haddad defendeu que o campo progressista precisa assumir o protagonismo desse debate, apresentando soluções de tecnologia social e recusando a lógica de privatização do setor.
O ex-ministro fez um alerta direto sobre o avanço de empresas privadas de segurança que passam a exercer funções policiais nas cidades do interior paulista, muitas vezes geridas por ex-policiais.
"É um começo de milícia que está acontecendo no Estado de São Paulo. As pessoas acham que, como a segurança pública está em crise, devem contratar esse serviço, e não começam a perceber que esse é o caminho do caos", advertiu.
Para o palestrante, serviços essenciais como saúde, educação e segurança pública devem permanecer estritamente sob a alçada e a responsabilidade do Estado para garantir padrões mínimos de civilidade e ascensão social. Ele ironizou a "cartilha básica" da atual gestão de focar exclusivamente na venda de patrimônio público e no corte de direitos, citando como exemplo extremo a privatização dos serviços funerários na capital paulista.
Haddad encerrou a atividade defendendo a política como o único caminho legítimo para a transformação social. Afirmou estar em preparação física e intelectual para a disputa eleitoral e demonstrou otimismo para o embate de projetos em São Paulo. "Se a gente pautar o debate com um programa sério, você não perde eleição", concluiu.
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