A Secretaria de Serviços Públicos de Campinas vai realizar, na manhã desta sexta-feira (3 de julho), a supressão da árvore remanescente da Praça do Coco, em Barão Geraldo. A extração do exemplar da espécie Ficus benjamina foi autorizada em caráter de urgência por despacho do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), que aceitou os argumentos de risco de queda apresentados pela administração municipal.
Como contrapartida, a Prefeitura informou que fará o plantio de dois exemplares adultos de jequitibá-rosa no local, além de outras mudas em uma rotatória próxima.
Por trás da decisão emergencial do MP, no entanto, há um complexo embate técnico e metodológico que dividiu especialistas em arborização urbana e mobilizou a comunidade local ao longo do último mês.
Do parecer ao laudo presencial
O recuo do Ministério Público, que havia suspendido o corte no dia 13 de maio sob o princípio da precaução, ocorreu após novas movimentações técnicas.
Inicialmente, a Prefeitura utilizou um documento de uma página assinado pelo professor Demóstenes Ferreira da Silva Filho, da Esalq-USP, para justificar a necessidade da extração. Conforme revelado pela reportagem, o próprio docente admitiu, à época, que o documento era apenas um parecer técnico elaborado à distância, baseado em fotos e relatórios antigos, sem qualquer vistoria presencial ou avaliação direta na praça. Especialistas ouvidos criticaram a superficialidade do texto inicial.
A reviravolta que culminou na autorização do MP veio após o professor contratado pela Prefeitura ir, finalmente, a campo. O docente realizou uma segunda avaliação, desta vez presencial, configurando um laudo técnico completo. O novo estudo buscou elementos em campo para corroborar a tese inicial de risco estrutural e biodeterioração, dando à Prefeitura o argumento técnico necessário para convencer a Promotoria a liberar a supressão nesta sexta-feira.
Mobilização popular e denúncia de danos ao entorno
A iminência do corte definitivo acirrou os ânimos no distrito. Nos últimos finais de semana, dezenas de manifestantes e defensores do meio ambiente se reuniram na Praça do Coco para protestar contra a política de manejo arbóreo da administração e abraçar simbolicamente o exemplar remanescente.
Além da contestação ao corte em si, o grupo técnico que apoia os moradores formalizou uma denúncia contra a execução dos serviços na praça. Segundo os especialistas, a MB Engenharia, empresa terceirizada contratada pela Prefeitura, acabou "machucando", causando danos e comprometendo outras árvores saudáveis do entorno durante os procedimentos de remoção e poda dos primeiros exemplares.
"Nós fizemos um contralaudo de mais de 60 páginas demonstrando que esta árvore que ainda está aqui não deve ser cortada. Estamos nos opondo ao laudo apresentado pela empresa e queremos a reparação do dano das outras árvores também, que foram prejudicadas e severamente podadas para o corte desta", afirmou o engenheiro agrônomo Ivan Andre Alvarez, membro técnico do Condema e doutor pela Esalq/USP.
A ciência que defendia a figueira
O relatório multi-institucional de oposição ao corte reuniu engenheiros agrônomos, florestais e ambientais ligados à Unicamp, à Esalq/USP e à Unesp. Diferente do primeiro movimento da Prefeitura, este grupo realizou exames de alta tecnologia diretamente no tronco da figueira, utilizando tomografia sônica e ultrassônica — uma tecnologia de inspeção interna não destrutiva desenvolvida pela própria Unicamp.
Os testes das três universidades convergiram, apontando que o exemplar ainda possuía resistência estrutural e condições biológicas para ser preservado de forma segura para a população, necessitando apenas de manejo adequado, e não da erradicação.
"Ninguem aqui é irresponsável, a gente sabe do risco que se corre quando deixa um exemplar arbóreo em risco de queda. Mas é necessário que se faça isso de forma mais cautelosa, mais responsável e de maneira mais ética", ponderou a professora Raquel Gonçalves, docente da Unicamp e especialista em engenharia de estruturas, que participou das análises de resistência da madeira.
Apesar dos protestos e do apelo científico, o Ministério Público considerou válidas as últimas alegações de perigo apresentadas pela Prefeitura. A área no entorno do parquinho infantil, que já estava interditada em um raio de 22 metros, receberá as equipes de motosserras nas primeiras horas da manhã desta sexta-feira.
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