O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou, nesta segunda-feira (18), no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), quatro novas linhas de luz síncrotron do acelerador de partículas Sirius. Considerado a maior e mais complexa infraestrutura científica já construída no Brasil, o Sirius está entre os poucos superlaboratórios de luz síncrotron de quarta geração em operação no mundo.
As novas estruturas ampliam a capacidade nacional de pesquisa em áreas estratégicas como saúde, energia, agricultura, mudanças climáticas, nanotecnologia e desenvolvimento de novos materiais.
O Sirius utiliza aceleradores de partículas para gerar a chamada luz síncrotron, uma radiação de altíssima precisão empregada em pesquisas científicas de ponta. A tecnologia permite investigar materiais em escala atômica e molecular, contribuindo para avanços no desenvolvimento de medicamentos, estudos sobre agricultura e clima, produção de chips para a indústria eletrônica, além de pesquisas nas áreas petroquímica e de minerais estratégicos.
Estiveram presentes na agenda o ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo do Estado de São Paulo, Fernando Haddad, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, além do ministro da Educação, Leonardo Barchini, que visitou os laboratórios da Escola de Ciência Ilum, também no CNPEM, e conversou com estudantes. O prefeito Dário Saadi também participou da inauguração.
Durante a visita ao CNPEM, também foi apresentado o projeto do Orion, futuro laboratório brasileiro de biossegurança máxima voltado ao estudo de vírus, fungos e bactérias. O espaço será o primeiro da América Latina com esse nível de segurança e funcionará integrado ao Sirius, permitindo pesquisas avançadas sobre patógenos, vacinas e desenvolvimento de fármacos. Segundo Lula, investir em ciência representa apostar no futuro, na soberania nacional e na saúde da população brasileira.
No mesmo evento, o governo federal lançou o Programa Nacional de Inovação Radical em Saúde, iniciativa coordenada pelos ministérios da Saúde e da Ciência, Tecnologia e Inovação para ampliar a capacidade do Brasil de desenvolver tecnologias estratégicas voltadas ao Sistema Único de Saúde (SUS). O anúncio foi feito por Lula e pelo ministro da Saúde em exercício, Adriano Massuda.
O programa prevê investimentos superiores a R$ 600 milhões nos próximos quatro anos e tem como foco reduzir a dependência externa do país na produção de medicamentos, vacinas, equipamentos e tecnologias de saúde. Entre as ações previstas está a criação do Complexo Arandus, que será o centro-âncora da iniciativa, além da ampliação de estruturas científicas ligadas ao Sirius.
“Esse ano já se inicia com investimento de R$ 60 milhões do Ministério da Saúde. Esse investimento vai ser destinado à construção da infraestrutura de pesquisa e também à compra dos equipamentos necessários para fazer os testes”, afirmou Massuda.
Segundo o governo federal, a iniciativa busca preparar o país para enfrentar futuros desafios sanitários, ampliar o acesso da população a tecnologias mais modernas e fortalecer a soberania nacional nas áreas científica e da saúde.
Após a agenda em Campinas, Lula seguiu para Paulínia (SP), onde participou do anúncio de R$ 37 bilhões em investimentos da Petrobras no Estado de São Paulo até 2030. Segundo o governo federal, a iniciativa deve gerar cerca de 38 mil empregos diretos e indiretos. Parte dos recursos, R$ 6 bilhões, será destinada à Refinaria de Paulínia (Replan), a maior da Petrobras e responsável pelo abastecimento de mais de 30% do território brasileiro.
Investimento
Ao se dirigir a cientistas, pesquisadores e autoridades presentes no CNPEM, Lula exaltou o potencial da ciência brasileira e afirmou que investir em pesquisa não representa gasto, mas um investimento fundamental para o desenvolvimento do país.
Em discurso no complexo científico, considerado um dos mais avançados do planeta e responsável por pesquisas que impulsionam inovação e tecnologia em diversas áreas, o presidente defendeu que o Brasil supere o atraso histórico causado pela falta de investimentos em ciência e tecnologia.
O investimento faz parte do Novo PAC, programa federal de investimentos em infraestrutura. “Inauguramos hoje quatro novas linhas desse super microscópio que coloca o Brasil na vanguarda global de tecnologia”, afirmou.
Na cerimônia, Lula defendeu o investimento público em ciência e pesquisa e afirmou que o país precisa abandonar a lógica de considerar projetos estratégicos apenas pelo alto custo financeiro.
“Quando se apresenta um projeto muito importante, seja ele para a área que for, a gente sempre fica dizendo que custa muito caro. E a gente nunca se pergunta quanto custa não fazer”, declarou.
Segundo o presidente, os recursos destinados ao Sirius representam um investimento pequeno diante do potencial de retorno científico, tecnológico e econômico para o país.
“Qualquer quantidade de milhões que nós colocarmos é muito pequena diante da quantidade de milhões que isso aqui vai render para o futuro do país e para o futuro da sociedade brasileira”, disse.
Lula também defendeu maior participação do Estado na formação de profissionais considerados estratégicos para o futuro do Brasil.
“A gente não pode continuar permitindo que seja o mercado que determine que tipo de curso um jovem vai fazer na universidade”, afirmou.
O presidente citou a necessidade de ampliar a formação de pesquisadores, matemáticos, engenheiros e especialistas em inteligência artificial, áreas que, segundo ele, podem fortalecer a autonomia tecnológica e científica do país.
“Precisamos formar muito mais pesquisadores, muito mais matemáticos, muito mais engenheiros, muito mais gente especialista em inteligência artificial”, declarou.
Orgulho
Lula também citou avanços do Brasil na área de biocombustíveis e relembrou a criação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), lançado em 2003 durante seu primeiro mandato. A iniciativa foi criada para estabelecer uma nova matriz energética, com foco na transição sustentável e no desenvolvimento da agricultura familiar.
Segundo o presidente, o país não precisa “ser refém” de tecnologias estrangeiras para reduzir a emissão de gases de efeito estufa, já que o biodiesel brasileiro teria desempenho ambiental superior ao europeu.
Ao mencionar a participação na Feira de Hannover, na Alemanha, uma das maiores feiras de tecnologia e inovação industrial do mundo, Lula afirmou ter proposto uma comparação entre combustíveis brasileiros e europeus em caminhões alemães.
“O nosso combustível, em média, é 67% menos emissor de gás de efeito estufa que o deles”, declarou.
O presidente defendeu ainda que o Brasil amplie investimentos em tecnologia própria e aproveite seu potencial em energia limpa.
“Então, ao invés deles quererem vender um mix tecnológico para nós, para encarecer o caminhão, é melhor eles comprarem o nosso biodiesel, porque eles não vão precisar inventar mix tecnológico e vão emitir 67% menos poluente no ar”, afirmou.
“E eu quero que o mundo veja, na sua voz de alemão, que o combustível brasileiro é mais eficaz que o combustível de vocês”, declarou. “E assim foi feito. E eu voltei de lá muito orgulhoso”, concluiu Lula.
Saúde e educação
Durante o discurso, Lula relacionou os investimentos em ciência à saúde pública e à educação. O presidente afirmou que o país precisa ampliar o acesso da população a especialistas, exames e medicamentos de alto custo, além de fortalecer projetos estruturantes para o SUS.
Lula destacou ainda programas de distribuição gratuita de medicamentos e disse que o governo passou a fornecer inclusive remédios de alto custo à população.
Ao falar sobre desigualdade no acesso à saúde, o presidente criticou o modelo tributário brasileiro e afirmou que trabalhadores de baixa renda acabam financiando benefícios utilizados pelas camadas mais ricas da população.
Lula também criticou desigualdades tributárias e voltou a defender a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais.
Durante o discurso, o presidente destacou ainda investimentos em educação e afirmou que o país precisa enfrentar problemas históricos de alfabetização e evasão escolar.
Segundo ele, o governo registrou avanço no número de crianças alfabetizadas nos primeiros anos do ensino fundamental e tem investido em programas para manter estudantes no ensino médio, como o programa Pé de Meia. “Hoje são quase R$ 17 bilhões para garantir que essas crianças fiquem na escola, porque, se não ficarem, o futuro será incerto”, afirmou.
Segundo o presidente, o governo identificou que muitos estudantes chegavam ao fim dos primeiros anos do ensino fundamental sem estarem plenamente alfabetizados, o que levou à criação de metas em parceria com estados e municípios.
“Nós tivemos que fazer um convênio com prefeitos e governadores para estabelecer uma meta de alfabetização”, afirmou. De acordo com Lula, os índices já apresentaram melhora nos últimos anos. “Saímos de 36% para 66% de crianças alfabetizadas no segundo ano escolar”, declarou.
Lula comparou ainda os custos da educação com os gastos do sistema prisional e defendeu que investir em ensino é mais eficiente e mais barato para o futuro do país.
Lula comparou ainda os custos da educação com os gastos do sistema prisional e defendeu que investir em ensino é mais eficiente e mais barato para o futuro do país. Segundo o presidente, um estudante de instituto federal custa menos ao Estado do que um preso no sistema penitenciário.
“Só isso demonstra que é muito mais barato e muito mais eficaz para o futuro acreditar na educação brasileira”, afirmou. Lula disse ainda que pretende ampliar os investimentos na área e defendeu a criação de um novo projeto nacional para a educação.
“A educação não tem mais volta. Nós vamos ter que dar um salto de qualidade”, declarou. Ao encerrar a fala, o presidente garantiu continuidade nos investimentos no Sirius e nas futuras expansões do laboratório. “Não faltará recurso para a gente concluir a segunda fase, a terceira fase, a quarta fase”, afirmou.
Sirius
O Sirius utiliza aceleradores de partículas para gerar a chamada luz síncrotron, uma radiação de altíssima precisão empregada em pesquisas científicas de ponta. A tecnologia permite investigar a estrutura de materiais em escala atômica e molecular, contribuindo para avanços em diferentes setores, como o desenvolvimento de medicamentos, estudos sobre agricultura e clima, produção de chips para a indústria eletrônica, além de pesquisas nas áreas petroquímica e de minerais estratégicos.