Presidente do IBGE lança livro em Campinas com presença de José Dirceu

Por Moara Semeghini - Campinas

José Dirceu e Marcio Pochmann durante lançamento na Livraria Candeeiro, em Campinas

O economista e presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Marcio Pochmann, lançou no sábado (21) o livro “Novo Sujeito Coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil”. O evento, realizado na Livraria Candeeiro, no Cambuí, em Campinas, reuniu convidados e contou com a presença do ex-ministro da Casa Civil do primeiro mandato do presidente Lula, José Dirceu, que passou pelo local para cumprimentar o autor. À reportagem, Dirceu afirmou ser pré-candidato a deputado federal pelo PT. (leia mais aqui).

A obra de Pochmann propõe uma análise das transformações sociais no país diante da digitalização da economia e da precarização do trabalho, com a emergência de um novo perfil de organização coletiva. Segundo Pochmann, o chamado “novo sujeito coletivo” é uma categoria analítica que busca compreender a reconfiguração das formas de ação social no capitalismo contemporâneo, especialmente na transição da sociedade industrial para a era digital. “Ele não é mais o sujeito clássico da modernidade, como a classe operária industrial organizada, mas um conjunto heterogêneo de grupos sociais”, afirma.

De acordo com o economista, esse novo perfil é marcado pela precarização do trabalho, fragmentação ocupacional e pela mediação digital das relações sociais, o que configura uma nova morfologia social do século XXI. A motivação para o livro, explica, está ligada às transformações estruturais vividas pelo país nas últimas décadas. Após mais de 30 anos de hegemonia neoliberal, houve avanço da desestruturação do trabalho formal e, ao mesmo tempo, o surgimento de novas formas de inserção econômica ligadas à digitalização e à chamada “plataformização”.

À frente do IBGE, Pochmann afirma que teve acesso a uma base empírica ampliada, o que reforçou a análise presente na obra. Ele destaca que o foco deixa de ser apenas as classes sociais e passa a considerar “populações monitoradas por estatísticas ao longo do tempo”, além de aspectos territoriais e demográficos. Essa perspectiva, segundo ele, sustenta a tese de que o novo sujeito coletivo não é apenas sociológico, mas também estatisticamente observável na recomposição da sociedade brasileira.

Segundo o autor, esse novo sujeito é composto por uma pluralidade de segmentos, como trabalhadores de serviços e da economia de plataformas, informais, jovens com inserção instável, mulheres e populações periféricas urbanas. Trata-se, afirma, de um grupo fragmentado, descentralizado e, na maioria das vezes, sem representação institucional estável.

Apesar disso, há potencial de organização política, ainda que com características distintas das tradicionais. “São mobilizações mais episódicas, ligadas a redes e causas específicas, com grande capacidade de mobilização, mas baixa continuidade”, diz. Nesse contexto, as redes digitais exercem papel central, ao mesmo tempo em que possibilitam articulação, também ampliam a fragmentação e a desinformação. “A desinformação atua como mecanismo de disputa de consciência”, afirma.

Para Pochmann, esse novo sujeito está em disputa e pode ser capturado por diferentes narrativas, inclusive autoritárias. A ausência de identidades coletivas consolidadas e de organizações intermediárias fortes, segundo ele, torna esse grupo mais permeável a discursos simplificadores. “Ele é simultaneamente potencialmente transformador e altamente vulnerável à captura política”, conclui.

Pochmann também destaca que esse novo sujeito coletivo está diretamente relacionado às transformações tecnológicas e ao avanço das plataformas digitais, que alteram não apenas as formas de trabalho, mas também os vínculos sociais e políticos. Segundo ele, trata-se de uma configuração marcada por inserções instáveis, baixa proteção social e novas formas de empreendedorismo de sobrevivência. Esse cenário, afirma, exige novas formas de interpretação e de formulação de políticas públicas, já que os instrumentos tradicionais de organização social e representação política mostram-se insuficientes diante dessa realidade em transformação.