Em determinado momento da crise que acabou levando ao seu impeachment, o ex-presidente Fernando Collor começou a emagrecer muito. Era o início dos anos 1990, e a Aids assombrava o país e o mundo. Toda personalidade que começava a perder peso muito rapidamente sobre ela havia a especulação quanto a se tinha ou não contraído a doença.
Collor era presidente da República. Um homem ainda hoje de temperamento explosivo. De modo que ninguém tinha coragem de fazer a fatídica pergunta. Ela coube a Sonia Carneiro, numa entrevista coletiva. Soninha, como era conhecida a intrépida repórter de política da Rádio JB, não teve receio de fazer a pergunta, sem rodeios: “Presidente, o senhor está com Aids?” Collor ficou tão surpreso, que sorriu e, gentil, negou a pergunta.
A dúvida só poderia mesmo ser desvendada por Sonia Carneiro. À época muito obesa, Soninha impressionava a todos com a agilidade com que conseguia estar em todos os cenários importantes do debate político brasileiro para entrar no ar com suas reportagens. Em plena ditadura militar ou depois, ela corria os tapetes verdes e azuis do Congresso Nacional com seu enorme gravador, repetindo o mesmo bordão a quem quer que fosse o seu alvo, deputado, senador, general: “Espera, cachorro!”
Assim, Soninha ganhava o coração de todos. Não havia quem não tivesse grande carinho por ela. Tancredo Neves a chamava de “minha sobrinha”. Numa entrevista ao também já falecido jornalista Jorge Bastos Moreno, a viúva de Ulysses Guimarães, dona Mora, conta como Soninha foi fundamental para estabelecer um contraponto entre Paulo Maluf e Tancredo Neves na disputa presidencial entre os dois em 1985. Havia setoristas para cada um dos candidatos. Soninha cobria os dois. Maluf costumava dar entrevista mais cedo que Tancredo. Ela, então, levava o que Maluf dizia para Tancredo rebater. Os articuladores de Tancredo o aconselharem a não bater boca com Maluf. Ele não resistiu, segundo Mora, por causa de Sonia Carneiro. “E, assim, estabeleceu-se a luta do bem contra o mal”, conclui Mora, segundo a entrevista com Moreno.
De estagiária da rádio Jornal do Brasil no Rio, Soninha tornou-se uma das suas maiores repórteres no Congresso, passando também pelas páginas do jornal impresso. Em 2003, ela foi trabalhar com Jaques Wagner durante o primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva. Estava com ele até agora.
Na semana passada, ela esteve internada com complicações cardíacas. Saiu do hospital no final da semana. Voltou para seu apartamento na sexta. No domingo, familiares estranharam que ela não retornava as ligações. Soninha foi encontrada já falecida. Morreu dormindo. Soninha tinha 74 anos. Deixa dois filhos e netos.
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