Caso Banco Master

Carbono Oculto mira Banco Genial e delator do Master em esquema bilionário

Terceira fase investiga estruturas financeiras usadas na compra de distribuidora de combustíveis; empresa envolvida nas operações movimentou R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025

Carbono Oculto mira Banco Genial e delator do Master em esquema bilionário
Antônio Carlos Freixo, executivo ligado ao Master, e diretor do Banco Genial, Humberto Arthur Tupinambá Neto, são alvos da 3ª fase da Operação Carbono Oculto Crédito: Reprodução

A terceira fase da Operação Carbono Oculto avançou sobre o mercado financeiro nesta quinta-feira (24) e colocou entre os alvos um executivo do Banco Genial e um empresário ligado às investigações do Banco Master. Batizada de Operação Crédito Oculto, a ação busca aprofundar a apuração sobre estruturas financeiras que teriam sido utilizadas para lavar dinheiro, ocultar patrimônio e financiar a aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.

Entre os alvos estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, ligado ao Banco Genial, os irmãos André e Bruno Tupinambá e Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como "Mineiro", dono da Entre Investimentos. Freixo firmou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) no âmbito das investigações envolvendo o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Segundo a Receita Federal, as buscas atingem endereços vinculados a 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas. A operação ocorre em sete estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Espírito Santo. A ação reúne Receita Federal, Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Secretaria da Fazenda de São Paulo, Procuradoria-Geral do Estado e as polícias Civil e Militar, além do apoio de unidades do Gaeco de outros estados.

O foco da nova etapa é a estrutura montada para a aquisição da Tobras Distribuidora de Combustíveis, conhecida como Terrana. De acordo com os investigadores, diferentes mecanismos financeiros teriam sido sobrepostos para dificultar a identificação da origem dos recursos e dos beneficiários finais das operações.

A investigação identificou inicialmente uma estrutura destinada a ocultar os verdadeiros controladores de uma usina sucroalcooleira no interior de São Paulo. Formalmente, a titularidade da empresa estava distribuída entre fundos de investimento e outras companhias aparentemente independentes. Para a Receita, porém, os elementos reunidos indicam que o arranjo teria sido construído para preservar o controle econômico do negócio sem revelar seus beneficiários.

Um dos pontos sob investigação envolve aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios. Segundo a Receita Federal, uma empresa ligada à sociedade de investimentos adquiriu esses créditos por meio da transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). Parte relevante dos recursos empregados teria origem em fundos controlados pelo próprio grupo investigado, formando um fluxo financeiro circular que dificultaria a identificação dos beneficiários.

A mesma usina teria sido posteriormente utilizada na estrutura financeira montada para viabilizar a aquisição da distribuidora de combustíveis. A Receita afirma que R$ 100 milhões enviados pela organização investigada passaram, em poucos minutos, por contas de diferentes empresas e estruturas mantidas em fintechs antes de chegarem à conta da usina.

Depois disso, os recursos teriam sido aportados em um fundo de investimento criado para a operação. A investigação também identificou o uso de certificado de depósito bancário vinculado, operações de crédito, holdings, fundos imobiliários, empresas patrimoniais e companhias de fachada. Para os investigadores, cada peça teria uma função específica para afastar formalmente os recursos de sua origem e dificultar a identificação de quem efetivamente controlava os ativos.

A dimensão financeira do caso também aumentou. Conforme a Receita Federal, uma empresa financeira empregada na aquisição simulada da companhia sucroalcooleira movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. O órgão afirma que o volume, analisado em conjunto com os demais elementos da investigação, reforça os indícios de ocultação patrimonial, dissimulação da origem de recursos e lavagem de dinheiro.

A nova fase também cria uma conexão direta entre a Carbono Oculto e personagens já investigados no caso Banco Master. Antonio Carlos Freixo Junior é apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Daniel Vorcaro e assinou acordo de colaboração com a PGR. Segundo informações, a Entre Investimentos também aparece nas investigações sobre repasses atribuídos a Vorcaro destinados à produção de "Dark Horse", cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na investigação sobre a compra da Terrana, aparecem ainda fundos como Radford, Derby 44 e Los Angeles 01 e empresas como Berna Holdings e Branson Holdings. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), documentos bancários, informações financeiras e mensagens recuperadas de celulares apreendidos em fases anteriores integram o conjunto de elementos analisado pelas autoridades.

As apurações anteriores da Carbono Oculto apontaram Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como "Beto Louco", e Mohamad Hussein Mourad, chamado de "Primo", como integrantes centrais da organização investigada no setor de combustíveis. Eles não estão entre os principais alvos anunciados nesta fase e permanecem foragidos.

Segundo a Receita Federal, a investigação agora aponta para a interligação de diferentes estruturas de lavagem de dinheiro e para a atuação de operadores financeiros que teriam oferecido mecanismos de circulação, fragmentação e ocultação de recursos. A terceira fase, portanto, desloca parte do foco da Carbono Oculto para o caminho percorrido pelo dinheiro e para os instrumentos financeiros que teriam permitido esconder os beneficiários finais das operações.

A Genial foi procurada pelos veículos que divulgaram a operação e, até as primeiras horas desta quinta-feira, não havia apresentado posicionamento público. A defesa de Freixo informou que não iria se manifestar.