Um levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab/UFRJ) identificou uma ampla rede de anúncios fraudulentos nas plataformas da Meta que utiliza programas sociais e serviços públicos para atrair vítimas. Entre janeiro e março de 2026, foram encontrados 860 anúncios enganosos, publicados por 152 páginas no Facebook, Instagram e outros serviços da empresa.
Segundo os pesquisadores, os criminosos exploram a credibilidade de iniciativas do governo federal para convencer usuários de que têm direito a benefícios financeiros, serviços gratuitos ou pagamentos inexistentes. O estudo aponta que os casos identificados representam apenas uma parcela de um esquema muito maior.
Valores a Receber lidera lista de programas usados em golpes
O programa mais explorado pelos golpistas foi o Valores a Receber, do Banco Central, citado em 345 anúncios. Na sequência aparecem o Brasil Sorridente, com 230 publicações, o Minha Casa Minha Vida, com 67, o Auxílio Gás, com 62, além de Bolsa Família, Carteira de Trabalho, CNH do Brasil e Desenrola Brasil.
De acordo com a pesquisa, mais de um quarto dos anunciantes utilizou simultaneamente diferentes programas públicos para ampliar o alcance das campanhas fraudulentas.
As peças prometiam dinheiro, benefícios ou serviços inexistentes e, em diversos casos, direcionavam os usuários para páginas que cobravam taxas indevidas para liberar supostos pagamentos ou realizar consultas falsas.
Criminosos imitam páginas oficiais e veículos de imprensa
O levantamento identificou que 185 anúncios utilizavam páginas e sites desenvolvidos para simular canais oficiais do governo.
Em grande parte dos casos, os endereços eletrônicos continham palavras como "oficial", "org" e referências a órgãos públicos para transmitir credibilidade. Algumas páginas também copiavam elementos visuais de programas federais e até de veículos de comunicação para induzir o usuário ao erro.
Segundo o estudo, uma das estratégias consistia em criar páginas falsas que prometiam consultas gratuitas a benefícios públicos, mas redirecionavam as vítimas para sites repletos de publicidade, gerando receita aos criminosos por meio do aumento de acessos.
Os pesquisadores também observaram que muitas dessas páginas permanecem praticamente inativas até serem reutilizadas em novas campanhas de golpes, alterando nomes, imagens e identidade visual para dificultar a identificação.
Inteligência artificial amplia sofisticação das fraudes
A pesquisa aponta que a inteligência artificial passou a desempenhar papel importante nas campanhas fraudulentas.
Dos 860 anúncios analisados, 394 continham vídeos gerados ou manipulados por inteligência artificial, correspondendo a quase metade do total.
Entre as técnicas identificadas estão vídeos alterados digitalmente com imagens de políticos, jornalistas e outras figuras públicas, utilizados para transmitir falsa credibilidade às mensagens.
Os pesquisadores também verificaram o uso do recurso de "criativo dinâmico" da própria Meta em 146 anúncios. A ferramenta permite combinar automaticamente diferentes imagens, títulos e textos para exibir versões distintas da mesma campanha conforme o perfil do usuário ou da plataforma acessada.
Segundo o estudo, essa funcionalidade pode dificultar a identificação das irregularidades e favorecer a circulação de conteúdos fraudulentos.
Anúncios permaneceram ativos por semanas
Embora a maioria das campanhas tenha permanecido no ar por poucos dias, os pesquisadores encontraram anúncios que ficaram ativos por períodos muito superiores.
A média de duração foi de 4,4 dias, mas 14 anúncios permaneceram publicados por mais de um mês. Um deles ficou disponível durante 73 dias, indicando, segundo o relatório, falhas nos mecanismos de detecção e remoção da plataforma.
Pesquisa identifica rede internacional ligada à China
Outro ponto destacado pelo levantamento foi a descoberta de uma rede formada por 18 páginas administradas na China, responsável pela divulgação de 67 anúncios fraudulentos direcionados ao público brasileiro.
As publicações misturavam referências a programas como Brasil Sorridente, Bolsa Família e Valores a Receber, além de promover benefícios inexistentes. Algumas dessas páginas também divulgavam conteúdos semelhantes em inglês e espanhol, indicando atuação internacional.
Para os pesquisadores, o caso evidencia que o mercado de fraudes digitais opera de forma transnacional e pode representar um desafio ainda maior diante da dificuldade de identificar responsáveis e rastrear campanhas patrocinadas no ambiente digital.
Metodologia da pesquisa
O estudo foi elaborado a partir de dados coletados na Biblioteca de Anúncios da Meta entre 1º de janeiro e 31 de março de 2026. Os pesquisadores utilizaram ferramentas automatizadas para localizar anúncios relacionados a programas públicos brasileiros e, posteriormente, realizaram análises computacionais e qualitativas para identificar indícios de golpes.
O relatório ressalta que a falta de transparência sobre a publicidade digital limita a fiscalização e impede uma estimativa precisa da dimensão do problema, indicando que os 860 anúncios identificados representam apenas uma fração do universo de campanhas fraudulentas em circulação.
Menu