Uma operação do Ministério Público da Bahia (MP-BA), com apoio da Polícia Civil e da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização, prendeu 10 advogados e cumpriu mandados contra 12 detentos suspeitos de integrar um esquema de comunicação entre líderes de facções criminosas e integrantes em liberdade.
Batizada de força-tarefa contra o crime organizado, a ação teve como foco o Presídio Estadual de Segurança Máxima de Serrinha, localizado a cerca de 180 quilômetros de Salvador. Segundo as investigações, os advogados atuavam como um "núcleo jurídico" das organizações criminosas, utilizando o parlatório da unidade prisional para transmitir ordens de chefes do tráfico.
Câmeras flagraram transmissão de ordens de facções
De acordo com o MP-BA, câmeras instaladas no parlatório com autorização judicial registraram, entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, encontros em que os investigados recebiam e repassavam orientações relacionadas ao funcionamento das facções.
As gravações mostram conversas sobre compra e venda de armas, contabilidade do tráfico de drogas, cobranças de dívidas, além de planejamentos de homicídios e sequestros.
Ainda conforme a investigação, bilhetes contendo instruções eram escondidos sob as roupas íntimas dos advogados para driblar a fiscalização da unidade prisional.
"O que identificamos foi o uso das prerrogativas da advocacia para a prática de crimes ligados às organizações criminosas", afirmou o coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), Luiz Ferreira de Freitas Neto.
Vídeos detalham atuação de advogados investigados
Os registros obtidos durante a investigação apontam diferentes formas de atuação dos profissionais.
Segundo o MP-BA, um dos advogados foi filmado recebendo orientações para recolher armas e anotando informações sobre a comercialização de drogas identificadas por codinomes.
Outra investigada aparece retirando papéis escondidos nas roupas enquanto recebia informações sobre movimentações financeiras da facção e cobranças de dívidas sob ameaça.
Já uma terceira advogada, conforme a investigação, mantinha contato frequente com uma liderança do Comando Vermelho. Em uma das gravações, ela comunica ao preso a morte de um integrante da organização e, segundo os investigadores, também recebe orientações relacionadas à localização de armamentos, munições e ao preparo de drogas para comercialização.
Investigação começou após atentado contra diretor de presídio
O delegado-geral da Polícia Civil da Bahia, André Viana, informou que a investigação teve início após um atentado contra o diretor de uma unidade prisional na região de Eunápolis.
Segundo ele, as apurações identificaram que um advogado fazia a ligação entre líderes presos e criminosos em liberdade para coordenar ações da facção fora do sistema penitenciário.
Os investigadores também afirmam que os profissionais prestavam assessoria informal às organizações criminosas, mantendo presos informados sobre a movimentação financeira das facções e auxiliando na divulgação de imagens de drogas em aplicativos de mensagens para atrair compradores.
MP defende monitoramento permanente em parlatórios
Após a operação, o Ministério Público da Bahia defendeu mudanças na legislação estadual para ampliar o monitoramento audiovisual dos parlatórios destinados ao atendimento entre advogados e presos.
A proposta é adotar modelo semelhante ao utilizado nos presídios federais, onde esse tipo de fiscalização já é previsto para casos envolvendo detentos de alta periculosidade.
Segundo o procurador-geral de Justiça da Bahia, Pedro Maia Souza Marques, a medida busca impedir que lideranças criminosas utilizem o sistema prisional para comandar atividades ilícitas, sem comprometer as garantias legais da advocacia.
OAB acompanha o caso
Em nota, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia (OAB-BA) informou que encaminhará o caso ao Tribunal de Ética e Disciplina para avaliar a eventual suspensão preventiva dos profissionais investigados.
A entidade afirmou ainda que acompanhou o cumprimento dos mandados e garantirá aos advogados envolvidos o pleno acesso aos autos do processo.
As defesas de duas advogadas investigadas informaram que não comentarão o mérito das acusações neste momento e que apresentarão seus argumentos exclusivamente no curso do processo judicial.
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