Correio da Manhã
Nacional

Regulamentação de trabalho infantil on‑line acende alertas

Especialista alerta para riscos após Meta exigir documentos de menores

Regulamentação de trabalho infantil on‑line acende alertas
Nova regra procura ampliar a proteção às crianças, mas levanta preocupações Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil

O trabalho de menores de idade nas redes sociais têm levantado preocupações relacionadas à segurança e à superexposição precoce. Em junho, uma nova medida do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital entrou em vigor, estabelecendo que crianças e adolescentes que monetizam conteúdos on-line devem apresentar um alvará judicial para o exercício de tal atividade.

Em resposta à mudança na norma, a Meta – empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp – passou a exigir a mesma documentação aos criadores de conteúdo mirins. Assim, os responsáveis deverão apresentar a autorização dentro de 20 dias. Caso contrário, a conta poderá ser suspensa.

A medida busca garantir que o trabalho infantil nas redes sociais seja monitorado pela Justiça, assegurando que ele seja exercido em conformidade com os direitos fundamentais previstos no ECA, como o acesso à educação, ao lazer, ao descanso e à convivência familiar. A regulamentação também seria fundamental para impedir a exploração abusiva desses menores pelos pais, além de estabelecer limites para a jornada laboral.

Porém, especialistas alertam que a providência abre brechas perigosas. A advogada especialista em Direito de Família, Cyberbullying e Direitos da Criança e do Adolescente, Raphaella Marques, aponta que a medida valida algo que já é realizado informalmente: a transformação de crianças em força de trabalho comercial.

“Ao burocratizar a monetização de menores, a plataforma tenta se resguardar juridicamente, mas estamos lidando com a coleta de dados sensíveis de menores e, mais do que isso, com a oficialização de uma rotina de trabalho que, muitas vezes, atropela o direito ao lazer e ao estudo”, avalia a advogada.

Marques ainda explica que o país não dispõe de uma ampla rede de proteção jurídica que dê suporte à medida.

“A gestão [desse tipo de] carreira exige conformidade legal estrita. Entregar documentos e dados de menores para plataformas estrangeiras sem um ecossistema de proteção jurídica nacional forte é andar no escuro”, reitera a advogada. “Proteger a infância na era digital exige um tripé: regulação estatal forte que puna as big techs por negligência, educação digital obrigatória nas escolas e conscientização ativa das famílias”.

Por outro lado, o advogado especialista em Direito Digital, Alisson Possa, afirma que a iniciativa provém de “um contexto legal e regulatório amplo que passa a ser necessário para o ambiente digital”, modificando o paradigma de deixar a regulação digital única e exclusivamente por parte dos agentes econômicos.