Internacional

Mundo reage ao primeiro turno das eleições brasileiras

Imprensa internacional vê força da direita e cita Brasil como o 'troféu que falta para Trump'

Mundo reage ao primeiro turno das eleições brasileiras
Corrupção, endividamento e aproximação com presidente dos EUA aparecem como fatores determinantes Crédito: Saulo Cruz/Agência Senado

Veículos dos Estados Unidos, da Europa e da América Latina destacaram o avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e associaram o resultado ao crescimento de líderes de direita na região.

Para o jornal francês Le Monde, "Lula paga o preço pelo descontentamento dos eleitores", enquanto publicações como o The New York Times e o El País apontaram fragilidades na coalizão governista e o peso do endividamento das famílias brasileiras na decisão do voto.

IMPRENSA DOS EUA DIZ QUE BRASIL É 'TROFÉU QUE FALTA' PARA TRUMP

"Se Bolsonaro derrubar Lula no segundo turno, será a maior vitória até agora para a direita em ascensão da América Latina", diz o The New York Times. O jornal norte-americano destaca que uma possível vitória do senador do PL também pode levar ao poder um aliado entusiasmado de Donald Trump e ajudar Washington a avançar em seu objetivo de dominar a região.

O jornal classifica o Brasil como o "troféu que falta" para a Casa Branca e lembra que o filho de Jair Bolsonaro (PL) prometeu fortalecer laços comerciais com os Estados Unidos.

"Se Lula conseguir se recuperar do revés de domingo, isso pode ser visto como uma resistência à direita latino-americana. Enquanto muitos outros líderes latinos se alinham, Lula desafiou Trump diversas vezes, alertando-o para não se intrometer nos assuntos de seu país."

LULA PAGA PREÇO DO DESCONTENTAMENTO, DIZ FRANCÊS

Para o francês Le Monde, "Lula paga o preço pelo descontentamento dos eleitores". O jornal narra que a festa de petistas reunidos no Rio de Janeiro para aguardar os resultados rapidamente se transformou em "um comício melancólico".

"Vestidos de vermelho, apoiadores do presidente Lula, com rostos fechados e cerveja na mão, seguiram uma grande tela onde os resultados eram exibidos. Alguns analisavam nervosamente seus celulares para checar se os números eram reais. Outros enfrentaram os fatos: choravam ou apoiavam a cabeça nas mãos."

A publicação ressalta que os resultados deste domingo comprovam que o bolsonarismo segue vivo no Brasil e que virar o resultado no segundo turno será um dos maiores desafios da carreira política de Lula.

O Le Figaro diz que a votação de Flávio Bolsonaro surpreendeu porque as pesquisas apontavam uma leve vantagem para Lula até a véspera da eleição. Assim como em 2018, os institutos de pesquisa teriam subestimado a força da direita.

Segundo o Le Parisien, o herdeiro de Bolsonaro está prestes a vencer o duelo contra Lula. Antes de ser escolhido pelo pai como seu sucessor político, Flávio era relativamente pouco conhecido em âmbito nacional. Por isso, comemorou o resultado do primeiro turno, demonstrando confiança em uma vitória final no segundo turno de 25 de outubro.

ESPANHOL FALA EM ELEITORES PERDIDOS POR LULA

O espanhol El País fala em vitória "esmagadora" da direita e diz que o presidente Lula terá três semanas para tentar reconstruir a coalizão que em 2022 nasceu da rejeição de Jair Bolsonaro (PL) e vaticinou: "O retorno da extrema-direita está chegando".

Segundo a publicação espanhola, a intenção de concorrer a um quarto mandato, que terminaria aos 85 anos, foi uma aposta profundamente pessoal de Lula, mencionando que o atual presidente perdeu votos em comparação a 2022.

"Ele mantém uma base eleitoral formidável e um legado de políticas sociais que transformaram a vida de milhões de brasileiros. Mas para parte desses eleitores, a economia diária, o crédito caro e o cansaço pesam mais do que a memória das conquistas."

ARGENTINO APONTA 'VOTO DE CASTIGO' DE ELEITOR DE BAIXA RENDA

Nas palavras do jornal argentino Clarín, o que ocorreu neste domingo foi uma virada "surpreendente e dramática". A publicação destacou a abstenção (21%), e interpretou o resultado como um voto de castigo dos eleitores de baixa renda, tradicionalmente fiéis a Lula, sufocados por dívidas.

"O país é um sucesso macro, com números notáveis, mas esses resultados não chegaram aos bolsos daquele grande espaço de eleitores que se endividam para pagar despesas básicas."

Já o La Nación escreve que Flávio Bolsonaro se tornou a nova esperança da direita da América Latina, como representante do que o presidente Javier Milei chamou de "onda azul" de governantes de direita e ultradireita que têm sido eleitos no continente.

"É possível que Lula tenha alcançado seu teto e um limite muito claro, o que entra em conflito com uma sociedade cada vez mais conservadora e, portanto, de direita", diz o diário argentino.

BRITÂNICOS DESTACAM MERCADO SATISFEITO COM FLÁVIO

O Financial Times ouviu analistas que destacaram que Flávio Bolsonaro é o favorito no segundo turno pois a maior parte dos candidatos à Presidência derrotados neste domingo, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), também é de partidos de direita, em uma eleição marcada por forte polarização.

Segundo o veículo, a campanha do PL prioriza combate ao crime organizado, redução de gastos públicos, maior aproximação com os EUA e a libertação de Jair Bolsonaro.

"O mercado reage positivamente à vantagem de Bolsonaro, diante da expectativa de maior rigor fiscal e reformas pró-crescimento; contratos ligados ao real e um ETF de ações brasileiras registraram fortes altas."

A BBC destacou que a corrupção tornou-se um tema central na campanha brasileira, após o escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro. A rede lembra que a fraude financeira envolve altos escalões do espectro político brasileiro, ministros do Supremo —com impacto indireto na campanha petista— e o próprio Flávio, que reconheceu que pediu a Vorcaro que financiasse a cinebiografia "Dark Horse".

"Lula criticou a designação de facções brasileiras como terroristas pelos Estados Unidos, mas lançou várias reformas para combater as redes financeiras de crime organizado, melhorar investigações de homicídio e investir em prisões", diz a BBC. "A economia também tem sido central para essa campanha: o país apresenta altos níveis de dívida pessoal e crescimento desacelerado."

NA ÁSIA, 'FATOR EUA' É CITADO

A Xinhua, principal portal de notícias da China, citou o "fator EUA" como uma das questões da eleição brasileira ao mencionar proximidade de Trump com Flávio. O site reproduziu a fala do candidato do PL na qual ele afirma que, se eleito, pressionaria para que o Brasil se tornasse um "aliado próximo" dos americanos.

O texto cita ainda a pressão tarifária de Washington sobre o Brasil e os desentendimentos entre os dois governos, mencionando, por exemplo, os vistos brasileiros negados a autoridades americanas.

O site menciona ainda a exigência de Trump pelo fim do processo contra Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar, e cita uma queda na confiança do brasileiro em relação aos EUA.

"Analistas acreditam que a confiança do público brasileiro nos Estados Unidos continua a diminuir, limitando a eficácia do apoio americano a Flávio Bolsonaro. Além disso, a forte interferência dos EUA nos assuntos internos do Brasil pode fortalecer o apoio ao governo Lula entre alguns eleitores", afirma.

Na Coreia do Sul, o jornal especializado em economia Herald Economy também cita Trump como um fator de mobilização dos eleitores conservadores. "O candidato Bolsonaro angariou votos capitalizando-se na frustração dos eleitores decepcionados com a má gestão econômica do governo Lula", diz.

Já o jornal sul-coreano Seoul Shinmun afirma que a "dinastia de extrema direita" assumiu a liderança da corrida presidencial, além de citar a eleição de Michelle e Carlos Bolsonaro para o Senado.

No Japão, a TV Kyoto também cita o posicionamento "pró-americano" de Flávio, enquanto o Nikkei destaca que as abordagens econômicas e diplomáticas dos candidatos apresentam opções de futuro contrastantes para o Brasil.