Internacional

João Lourenço alerta para risco de conflagração global

Presidente de Angola afirma que mundo vive agravamento das tensões internacionais

João Lourenço alerta para risco de conflagração global
Lourenço condenou o terrorismo e afirmou que a situação de paz e segurança mundial vem se deteriorando ano após ano Crédito: Reprodução/ ONU

O presidente de Angola, João Manuel Gonçalves Lourenço, afirmou nesta terça-feira (22) que o mundo atravessa um período de agravamento das tensões internacionais e se aproxima "assustadoramente de uma conflagração global". O alerta foi feito durante o discurso na 81ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.

Ao abordar o cenário internacional, Lourenço condenou o terrorismo e afirmou que a situação de paz e segurança mundial vem se deteriorando ano após ano. Ele citou as guerras entre Rússia e Ucrânia, o conflito entre israelenses e palestinos, as tensões no Golfo Pérsico, conflitos no continente africano e o aumento das tensões na região da Ásia-Pacífico. Segundo o presidente angolano, não há sinais alentadores de que os principais conflitos possam chegar a uma solução de paz nos próximos tempos.

Lourenço criticou o predomínio da força sobre o Direito Internacional e afirmou que as guerras provocam consequências que ultrapassam os campos de batalha, agravando crises de segurança alimentar, energética e humanitária e ameaçando as cadeias internacionais de abastecimento. Ele defendeu que a ONU recupere seu papel central na busca pela paz. "Nosso apelo vai no sentido de actuarmos com sabedoria e coragem para restaurar o papel central das Nações Unidas", afirmou.

Durante o discurso, o presidente também criticou o embargo imposto a Cuba, que, segundo sua avaliação, agravou as condições de vida da população cubana. Lourenço defendeu o fim das restrições e destacou a participação de Cuba na luta contra o apartheid na África do Sul.

Outro ponto central foi a defesa de uma reforma profunda do Conselho de Segurança da ONU. Lourenço afirmou que a atual estrutura não corresponde mais à realidade internacional e defendeu que África, América Latina e Ásia tenham representação adequada como membros permanentes, com os mesmos poderes dos atuais integrantes nessa condição. Angola reafirmou apoio ao Consenso de Ezulwini e à Declaração de Sirte, que consolidam a posição africana sobre a reforma.

O presidente também associou a manutenção da paz ao desenvolvimento econômico e social. Defendeu maior acesso dos países africanos a financiamento, alívio da dívida, transferência de tecnologia e participação nas instituições financeiras internacionais. Segundo ele, o peso do serviço da dívida limita investimentos em saúde, educação e infraestrutura.

As mudanças climáticas também foram destacadas. Lourenço citou secas, inundações, desertificação, insegurança alimentar e deslocamentos populacionais e defendeu mecanismos de financiamento climático previsíveis e acessíveis, sem ampliar o endividamento dos países em desenvolvimento.

A inteligência artificial foi outro tema abordado. O presidente defendeu seu uso para ampliar o acesso à educação, saúde, agricultura, serviços públicos e pesquisa científica, além de cooperação internacional para reduzir o fosso digital, fortalecer a cibersegurança e criar mecanismos de governança da tecnologia.

A participação de Lourenço marcou ainda os 50 anos da entrada de Angola na ONU, em dezembro de 1976. Ele lembrou que a admissão ocorreu pouco mais de um ano após a independência e em meio à Guerra Fria, período que influenciou a trajetória do país até a conquista da paz, em 2002.

Ao final, Lourenço mencionou a proximidade do fim do mandato de António Guterres e afirmou que o próximo secretário-geral deverá ter independência, integridade, competência e capacidade de construir consensos. O presidente reafirmou o compromisso de Angola com o multilateralismo e defendeu a substituição da confrontação pelo diálogo, da competição pela cooperação e da força das armas pela força do Direito.