Eleições 2026

Diplomatas temem que Trump conteste resultado da eleição no Brasil

Embaixadores estrangeiros em Brasília avaliam reconhecer rapidamente o vencedor do segundo turno para evitar questionamentos externos; preocupação aumenta em caso de vitória apertada de Lula

Diplomatas temem que Trump conteste resultado da eleição no Brasil
Informação foi divulgada pela agência Reuters, com base em relatos de quatro embaixadores Crédito: Daniel Torok/The White House

Diplomatas estrangeiros em Brasília discutem a possibilidade de reconhecer rapidamente o vencedor do segundo turno da eleição presidencial deste domingo (25), em uma tentativa de evitar que líderes de outros países antecipem declarações de vitória ou questionem o resultado oficial. A informação foi divulgada pela agência Reuters, com base em relatos de quatro embaixadores.

Segundo a agência, as missões diplomáticas ainda não formalizaram um plano, e algumas continuam consultando seus respectivos governos sobre como agir. A principal preocupação é que declarações prematuras de autoridades estrangeiras possam alimentar questionamentos sobre a legitimidade do resultado e provocar uma crise institucional no Brasil.

O senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, aparecem empatados com 50% dos votos válidos em pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (22), segundo o texto da Reuters.

Dois dos embaixadores ouvidos pela agência disseram temer que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ou integrantes de seu governo questionem uma eventual vitória de Lula por uma margem estreita.

“Não me surpreenderia se Trump ou (o presidente argentino de direita Javier) Milei declarassem Bolsonaro vencedor antes mesmo das autoridades eleitorais”, afirmou um dos diplomatas, sob condição de anonimato. Ele disse temer que esse cenário provoque uma crise institucional.

O diplomata ressaltou que não participava das conversas entre governos sobre a estratégia de reconhecimento do resultado.

Diplomatas defendem reconhecimento rápido do resultado

Outro embaixador afirmou que declarações antecipadas de vitória por parte de líderes estrangeiros poderiam agravar tensões políticas no país.

“Um reconhecimento prematuro por parte de Trump ou de outra pessoa poderia levar a uma crise institucional que ninguém deseja”, disse à Reuters.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos e a embaixada norte-americana em Brasília não responderam às perguntas da agência sobre um eventual compromisso de Trump de reconhecer o vencedor conforme o resultado fosse anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O tribunal também não respondeu ao pedido de comentário.

Um dos diplomatas relacionou a preocupação ao comportamento de Trump diante de eleições recentes na América Latina. Na disputa presidencial de Honduras, em 2025, o presidente norte-americano alegou fraude durante atrasos na apuração, sem apresentar provas, e ameaçou impor “consequências terríveis” caso o resultado preliminar favorável ao candidato que apoiava fosse alterado.

Para os diplomatas ouvidos, uma situação semelhante no Brasil poderia aumentar a pressão sobre as instituições eleitorais e ampliar a desconfiança no processo democrático.

Eleição de 2022 reforça preocupação internacional

Na eleição brasileira de 2022, governos estrangeiros, incluindo os Estados Unidos, a União Europeia e países latino-americanos, reconheceram a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro (PL), que demorou a admitir a derrota.

Posteriormente, Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado relacionada à trama para impedir a posse do presidente eleito após o pleito de 2022.

Um embaixador europeu ouvido pela Reuters afirmou que o objetivo é reconhecer o resultado de uma eleição conduzida dentro dos padrões esperados e destacou a confiança no sistema eleitoral brasileiro.

“Nosso principal objetivo é reconhecer o resultado de uma eleição que esperamos que seja realizada de acordo com bons padrões. Temos confiança no sistema eleitoral brasileiro”, declarou. Segundo ele, “a rapidez é a principal preocupação”.

A avaliação dos diplomatas, de acordo com a agência, não está relacionada à preferência por um dos candidatos, mas ao risco de questionamentos sobre a votação e seus efeitos sobre a confiança nas instituições democráticas.

Especialista vê risco para a relação entre Brasil e EUA

A possibilidade de Trump demorar a reconhecer uma eventual vitória de Lula também foi abordada por Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo.

“Acho que esse é um cenário que precisamos manter no radar”, afirmou à Reuters. Para o professor, uma eventual recusa de Trump em reconhecer rapidamente uma vitória de Lula representaria um ponto baixo nas relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos.

Um dos embaixadores ouvidos pela agência resumiu a preocupação com o futuro das instituições brasileiras independentemente de quem vencer.

“Não me importa se Lula ou Bolsonaro vencer”, disse o diplomata, referindo-se a Flávio Bolsonaro. “O que me importa é o estado da democracia brasileira após esta eleição.”

As discussões entre as missões diplomáticas ainda estão em andamento. Até o momento, não há um plano formal anunciado para o reconhecimento do resultado, e as preocupações relatadas pelos embaixadores dizem respeito a um cenário hipotético, não a uma contestação já apresentada oficialmente por Trump.