Discurso na ONU

Trump defende força dos EUA na ONU, ameaça Irã e diz que "Cuba vai cair"

Presidente americano exalta poder militar, defende atuação na Venezuela, cobra fim da guerra na Ucrânia e coloca inteligência artificial no centro da disputa com a China

Trump defende força dos EUA na ONU, ameaça Irã e diz que "Cuba vai cair"
Trump endurece discurso sobre a guerra em Gaza e a escalada do conflito no Oriente Médio durante fala na ONU Crédito: Reprodução ONU

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou o discurso desta terça-feira (22), na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, para defender o uso do poder econômico e militar americano como instrumento de sua política externa. Ao falar logo depois do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Trump exaltou os resultados de seu governo, justificou a guerra contra o Irã, defendeu a atuação americana na Venezuela e afirmou que os Estados Unidos estão à frente da China na disputa pela inteligência artificial.

"Posso anunciar com orgulho que a América está de volta e que nosso país está mais forte hoje do que nunca", afirmou Trump na abertura do pronunciamento. O republicano disse que os Estados Unidos estão crescendo, que o poder do país está se expandindo e que o futuro americano é "muito, muito brilhante".

Trump apresentou sua política externa como uma contraposição a governos que, segundo ele, adiaram o enfrentamento de ameaças. "Enquanto outros falaram, eu agi. Enquanto outros falaram de paz, eu fiz a paz. Enquanto outros ignoraram ameaças, eu as confrontei", declarou. O presidente acrescentou que usou a força para tornar os Estados Unidos o país mais poderoso do mundo.

Irã e Ucrânia

O Irã ocupou uma das partes centrais do discurso. Trump defendeu a decisão de iniciar a guerra contra o país e voltou a afirmar que não permitirá que Teerã desenvolva uma arma nuclear. O conflito entre Estados Unidos e Irã se aproxima de sete meses e provocou uma escalada das tensões no Oriente Médio.

"Eu nunca permitirei que o Irã tenha uma arma nuclear", afirmou Trump. Segundo ele, o governo iraniano espalhou "morte, carnificina e caos" pelo Oriente Médio durante décadas.

O presidente foi além e fez uma ameaça direta ao regime iraniano caso não seja alcançado um acordo. Trump apresentou dois caminhos possíveis: uma negociação que permita ao Irã reconstruir o país ou uma nova ofensiva americana.

Ao tratar da guerra entre Rússia e Ucrânia, Trump afirmou que continuará tentando encerrar o conflito e mencionou uma nova legislação de sanções contra Moscou. "É hora de parar a matança", declarou.

Trump disse acreditar que um desfecho para a guerra pode ocorrer mais rapidamente do que se imagina. A invasão russa da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, se aproxima de cinco anos sem um acordo definitivo de paz.

Venezuela, Cuba e poder militar americano

A América Latina também ganhou destaque. Trump defendeu as ações de seu governo na Venezuela e a operação americana que retirou Nicolás Maduro do poder. O presidente justificou ainda o acordo firmado posteriormente com o governo de Delcy Rodríguez envolvendo as reservas petrolíferas venezuelanas. "Ao vencedor pertencem os espólios", afirmou Trump ao falar sobre a Venezuela.

O presidente disse que as ações americanas no país demonstram que Washington não permitirá que ameaças aos Estados Unidos ganhem espaço no Hemisfério Ocidental. Trump afirmou que, se considerar necessário, recorrerá ao poder militar americano para proteger interesses nacionais considerados vitais.

O discurso também trouxe ameaças aos cartéis de drogas. Trump comparou essas organizações ao Estado Islâmico e afirmou que os Estados Unidos continuarão usando força contra grupos considerados ameaças à segurança americana.

Trump ainda acusou o México de estar sob forte influência dos cartéis e classificou a situação como inaceitável para um país que compartilha uma extensa fronteira com os Estados Unidos.

Sobre Cuba, o presidente disse que sua administração busca uma "mudança fundamental" na ilha e afirmou que o governo comunista enfrenta uma pressão sem precedentes. "É um Estado absolutamente falido. Está falindo", afirmou. Trump acrescentou que o regime cubano "vai cair".

As declarações contrastam diretamente com parte do discurso feito por Lula pouco antes. O presidente brasileiro afirmou que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém", rejeitou interferências externas na América Latina, defendeu que os venezuelanos decidam o próprio futuro e condenou o embargo econômico imposto a Cuba.

Inteligência artificial e disputa com a China

Trump também dedicou parte do pronunciamento à inteligência artificial, que apresentou como uma das principais disputas estratégicas deste século. O presidente rejeitou iniciativas internacionais que, em sua avaliação, poderiam limitar o desenvolvimento da tecnologia.

Trump disse que os Estados Unidos não aceitarão um "esquema globalista" para controlar a inteligência artificial e afirmou que pretende estimular o desenvolvimento da tecnologia, que considera potencialmente maior do que a Revolução Industrial.

O presidente também propôs uma mudança de terminologia. Segundo ele, os Estados Unidos passarão a utilizar a expressão "superinteligência" para tratar das tecnologias mais avançadas de IA.

"Quem dominar a inteligência artificial, quem dominar a superinteligência, vence", afirmou Trump. O presidente declarou ainda que os Estados Unidos estão à frente da China e dos demais países nessa corrida tecnológica.

A posição contrasta com a defesa feita anteriormente pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, de uma governança internacional para a inteligência artificial. Lula também havia defendido em seu pronunciamento a regulamentação das grandes empresas de tecnologia e dos sistemas de IA.

Groenlândia, segurança e soberania americana

Trump também anunciou um novo acordo envolvendo Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia. Segundo o presidente, o entendimento amplia de maneira permanente a capacidade americana de atuar na segurança do território e prevê a construção de duas grandes bases militares.

O republicano afirmou que nenhum adversário dos Estados Unidos poderá estabelecer presença militar na Groenlândia ou realizar investimentos considerados sensíveis sem autorização americana.

Trump argumentou que o aumento da presença dos Estados Unidos no Ártico e no Atlântico Norte também fortalece a segurança europeia. O acordo ocorre após meses de tensão provocados pelas declarações do presidente sobre o território autônomo ligado à Dinamarca.

No campo doméstico, Trump aproveitou a tribuna da ONU para exaltar a política migratória de seu governo. O presidente afirmou que os Estados Unidos passaram da "fronteira mais perigosa" para a "fronteira mais segura" de sua história e disse que ninguém entra no país sem autorização.

A fala ocorreu em um momento de forte atividade diplomática em Nova York. Após o pronunciamento, Trump tinha uma extensa agenda de encontros com líderes internacionais, incluindo representantes da Ucrânia, Reino Unido, Venezuela, Dinamarca, Groenlândia e países do Golfo.

O discurso de Trump ocorreu imediatamente depois do pronunciamento de Lula. Enquanto o brasileiro concentrou parte da fala na defesa do multilateralismo, da soberania dos países e da reforma das instituições internacionais, o americano apresentou uma visão baseada na defesa dos interesses estratégicos dos Estados Unidos e na disposição de empregar poder econômico e militar para alcançá-los.