Brasil na ONU

Na ONU, Lula diz que Brasil "continuará soberano" e "não cabe no quintal de ninguém"

Presidente defende soberania, alerta que "a democracia está em xeque" e afirma que avanço das guerras representa a "falência total da política"

Na ONU, Lula diz que Brasil "continuará soberano" e "não cabe no quintal de ninguém"
Lula defende soberania e critica ingerência externa durante discurso na ONU Crédito: Reprodução ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou a defesa da soberania brasileira no centro do discurso feito nesta terça-feira (22), na abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Ao tratar das eleições brasileiras e das interferências externas em processos políticos, afirmou que o futuro do país será decidido pelos próprios brasileiros. "A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho", declarou Lula.

O presidente também afirmou que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém" ao abordar a situação da América Latina. Lula defendeu relações internacionais baseadas em cooperação e disse que diferenças ideológicas não deveriam impedir uma maior integração entre os países da região.

"A democracia está novamente em xeque", afirmou Lula, ao criticar a volta da ingerência externa em processos eleitorais. Segundo o presidente, a divisão do mundo em zonas de influência e as disputas por recursos estratégicos representam práticas anacrônicas.

Sem citar nominalmente os Estados Unidos nesse trecho, Lula colocou a soberania entre os principais dilemas enfrentados pela comunidade internacional. Ao longo da fala, contrapôs "multilateralismo ou unilateralismo", "democracia ou extremismo" e "soberania ou subordinação".

Crise da ONU e avanço das guerras

Lula fez uma dura avaliação da capacidade da ONU de responder às crises internacionais. O presidente afirmou que a organização atravessa seu momento mais crítico desde que ele discursou pela primeira vez na Assembleia Geral, em 2003, e apontou uma "profunda crise de liderança" no cenário mundial.

Segundo Lula, 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. O presidente criticou os gastos crescentes com armamentos, alertou para o risco de confrontos regionais assumirem proporções globais e cobrou uma reação das principais potências. "Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir", afirmou.

O presidente voltou a criticar a estrutura do Conselho de Segurança e lembrou que o Brasil já questionava, na primeira sessão da Assembleia Geral, em 1946, o poder de veto concedido às grandes potências. "Não desconheço as realidades do poder. Mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites", declarou.

Ao tratar da escalada militar em diferentes regiões, Lula reformulou uma das frases mais conhecidas do estrategista prussiano Carl von Clausewitz e afirmou que "a guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política".

Ucrânia e guerra no Oriente Médio

A guerra entre Rússia e Ucrânia também esteve entre os temas do pronunciamento. Lula disse que o conflito se aproxima do quinto ano e voltou a defender uma saída negociada. Para o presidente, "não haverá vencedores no campo de batalha" e a diplomacia é o caminho para encerrar o confronto.

Lula citou a iniciativa promovida por Brasil e China para reunir países interessados em uma solução política para a guerra. O chamado Grupo de Amigos da Paz surgiu após os dois países apresentarem, em 2024, entendimentos comuns para uma saída negociada do conflito.

No Oriente Médio, Lula voltou a fazer críticas ao governo do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e classificou como genocídio a ofensiva contra palestinos em Gaza. Ao mesmo tempo, condenou os ataques cometidos pelo Hamas contra civis israelenses. "Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza", afirmou. Lula acrescentou que civis israelenses também pagaram o preço dos "atos terroristas do Hamas".

O presidente defendeu a solução de dois Estados e o respeito às instituições internacionais. Também mencionou a situação no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas para o comércio mundial de petróleo e gás, ao falar sobre a expansão dos conflitos no Oriente Médio.

América Latina, soberania e crime organizado

A América Latina voltou ao centro do discurso quando Lula tratou de Venezuela, Nicarágua e Cuba. O presidente afirmou que "o povo venezuelano merece definir o seu próprio destino" e disse que a Nicarágua não resolverá seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições. Também voltou a condenar o embargo econômico contra Cuba.

Foi nesse contexto regional que Lula reforçou uma das principais mensagens do pronunciamento ao afirmar que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém".

O presidente relacionou soberania ao combate ao crime organizado e rejeitou a presença de forças estrangeiras como solução para os problemas de segurança da região. "Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas", declarou.

Segundo Lula, o Brasil não pretende "terceirizar" a responsabilidade de defender as próprias fronteiras. O presidente defendeu, em vez disso, cooperação internacional para interromper os fluxos de armas e dinheiro que abastecem organizações criminosas.

Pix, bets, big techs e inteligência artificial

A defesa da soberania também apareceu no campo econômico e tecnológico. Lula afirmou que o governo não aceitará pressões de empresas estrangeiras contra o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. "Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix", disse. O presidente classificou o sistema como uma infraestrutura pública e gratuita que ampliou a inclusão financeira no país.

Lula também criticou a expansão das apostas on-line. Segundo o presidente, "a indústria milionária das bets transforma o vício em lucro" e vem provocando endividamento e problemas em milhões de famílias. "O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio", afirmou.

Big techs e inteligência artificial também entraram no pronunciamento. Lula defendeu a regulamentação das grandes empresas de tecnologia e dos sistemas de IA e afirmou que seria uma "omissão histórica" deixar de estabelecer regras para o setor.

O presidente criticou o poder concentrado nas mãos do que chamou de "técnico-oligarcas" e disse que uma corrida tecnológica sem regras, transparência e limites éticos pode produzir riscos para as sociedades.

Escravidão, desigualdade e mudanças climáticas

Lula ainda mencionou a decisão da Assembleia Geral que reconheceu o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. O tema integrou a defesa brasileira de medidas de enfrentamento ao racismo e às consequências históricas da escravidão.

Mudanças climáticas, fome, desigualdade e transição energética também fizeram parte do discurso. Lula defendeu que os compromissos ambientais sejam acompanhados por financiamento e criticou o uso de preocupações ambientais como justificativa para medidas protecionistas.

Ao encerrar a fala, o presidente voltou à democracia e às eleições brasileiras. A mensagem de soberania percorreu o pronunciamento tanto na política externa quanto nas questões econômicas, tecnológicas e de segurança. "A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho."

O discurso desta terça foi a décima participação de Lula na abertura do debate geral da Assembleia Geral como presidente. O Brasil tradicionalmente é o primeiro Estado-membro a ocupar a tribuna. Na sequência, discursou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.