Cerca de 21 anos depois da estreia na Albiceleste, Lionel Messi anunciou sua aposentadoria da seleção argentina nesta segunda-feira (31).
Por meio de suas redes sociais, o craque do Inter Miami divulgou uma carta escrita a próprio punho, em que abre o coração para relembrar sua história com a Albiceleste e revelar que tomou a decisão dois dias após perder a Copa do Mundo para a Espanha, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.
No emocionante texto, Messi diz ter dado tudo de si pela seleção, mas que entende que agora não tem muito mais como contribuir. Ele também agradeceu "por todo o carinho destes 20 anos", referindo-se aos torcedores e fãs, e disse que agora será mais um torcedor. "Vou sentir muita falta de ouvir vocês do lado de dentro. Agora serei mais um de vocês, torcendo e apoiando sempre do lado de fora (nas boas e nas más, muito mais)", afirmou.
Talvez o momento de maior emoção da despedida seja justamente o final. Leo revela ter tomado a decisão após o vice na Copa, e que a morte do pai, Jorge Messi, no último dia 8 de agosto, reforçou sua decisão.
"Escrevi estas palavras em 21 de julho, dois dias depois da final. Hoje, depois do que aconteceu com o meu pai, estou mais convencido do que antes", concluiu Lionel Messi.
Confira a carta na íntegra
"Depois deste tempo que se passou desde a final, pensando muito, quero comunicar a todos que me me retiro da Seleção... Foi uma decisão que doeu e dói na alma, mas entendo que é o momento. Juro que sempre dei tudo de mim, não apenas nos últimos anos em que ganhamos tudo, mas antes também. Sempre lutei e dei tudo por esta camisa, para lhes dar alegrias e fazer com que se sentissem orgulhosos de ser argentinos através do futebol.
Resta pouco e as etapas vão se encerrando, e esta é uma que me dói muito. Amo, amei e amarei sempre estar na Seleção. Eu me esvaziei, não tenho mais nada para dar e, além disso, estão vindo garotos muito grandes atrás que merecem estar aqui.
Obrigado por todo o carinho destes 20 anos. Vou sentir muita falta de ouvir vocês do lado de dentro. Agora serei mais um de vocês, torcendo e apoiando sempre do lado de fora (nas boas e nas más, muito mais).
Obrigado à minha família por estar sempre presente, por me acompanhar nesta viagem tão bonita, mas difícil. Obrigado a cada um dos treinadores, companheiros e dirigentes com quem me coube compartilhar. Levo comigo lembranças e momentos inesquecíveis vividos.
Vou embora com a tranquilidade e o orgulho de ter presenteado vocês, junto com meus companheiros, com momentos dos sonhos. Foi uma loucura ter vivido isso com vocês. Eu amo vocês!
Obrigado, Deus, por me fazer argentino. Vamos, Argentina!
*Escrevi estas palavras em 21 de julho, dois dias depois da final. Hoje, depois do que aconteceu com o meu pai, estou mais convencido do que antes", compartilhou Messi no Instagram.
Início tortuoso
A carreira de Lionel Messi pela seleção argentina teve caminhos tortuosos, mas terminou de um jeito belíssimo. Iniciada em 2005, a trajetória de Messi com a Argentina ficou marcada inicialmente por muitas frustrações. Craque inquestionável no Barcelona, o argentino era cobrado por não conseguir repetir o nível de jogo que tinha na Catalunha quando vestia a camisa albiceleste.
Tratado como herdeiro de Maradona, Messi viveu 11 anos sob forte pressão de seu próprio povo, que sonhava em voltar a levantar uma taça. A Argentina chegou a ficar 28 anos sem vencer nenhum título profissional oficial.
Nem mesmo a conquista da medalha olímpica de Ouro, nas Olimpíadas de Pequim 2008, foi o bastante para reduzir a pressão argentina sobre Leo.
No Brasil, na Copa do Mundo de 2014, o camisa 10 chegou muito próximo de sentir o gosto da glória eterna, mas perdeu a final para a Alemanha no Maracanã. Dois anos depois, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, Messi enfileirou seu terceiro vice consecutivo com a Argentina, ao perder a final da Copa América Centenário para o Chile. Desolado, ele anunciou sua aposentadoria da seleção. A decisão chocou o mundo e fortaleceu a relação de Messi com seu povo. O clamor popular foi tão grande que o craque do Barcelona reconsiderou e voltou à Albiceleste um mês depois.
Final glorioso
Felizmente, para os fãs de Messi e da Argentina, o caminho não terminou em 2016. De volta à seleção, Leo viveu mais algumas frustrações, como a Copa do Mundo de 2018 e a Copa América de 2019, mas viu sua história começar a mudar com a promoção do auxiliar Lionel Scaloni ao posto de técnico da seleção argentina. O que deveria ser um posto interino, acabou sendo o início da consagração de Messi.
Scaloni adotou uma visão de futebol agressiva, mas respeitosa, com os jogadores atuando em função de Messi. Ele criou uma aura santa para o camisa 10, que implantou nos jogadores a visão de que jogar com e por Messi era a maior honraria possível. Isso marcou uma geração que defendeu a Argentina - e Messi - com unhas e dentes.
Em 2021, no Maracanã, a "Scaloneta" nasceu ao dar fim ao jejum de 28 anos sem títulos oficiais. Messi e companhia bateram a Seleção Brasileira na final de uma Copa América esvaziada pela pandemia de Covid-19. Porém, foi o bastante para transformar o camisa 10 numa verdadeira referência. E a Argentina, que era vista como uma seleção acabada, renasceu.
Em 2022, a maré mudou de vez. Abrindo a temporada, a Argentina bateu a Itália, campeã da Eurocopa, pela Finalíssima. No fim do ano, no Qatar, a glória eterna foi conquistada diante da França. No gramado de Lusail, Argentina e França fizeram uma das maiores finais de Copa do Mundo da história. Após empate por 3 a 3 no tempo regulamentar, Messi e Mbappé decidiram a Copa nos pênaltis, e deu Argentina. Com a conquista do Tri, Lionel Messi virou deus em sua terra natal. Os argentinos, que passaram mais de uma década questionando o atacante, enfim o acolheram como um dos seus.
Mas não parou por aí. Em 2024, ele liderou a Argentina rumo à conquista da Copa América, disputada nos EUA, que seria palco da Copa do Mundo de 2026. Neste ano, após fazer seu mundial mais brilhante, com 8 gols marcados, Messi perdeu a final para a Espanha, país em que se consagrou jogando pelo Barcelona, e justamente no MetLife Stadium, o estádio em que o camisa 10 anunciou sua primeira aposentadoria.
No final das contas, os 21 anos de Messi pela seleção podem não ter sido tranquilos, como muitos esperavam, mas terminaram com glória. Messi encerra sua passagem pela Albiceleste com quatro títulos oficiais, recordes praticamente imbatíveis e idolatrado por uma nação que um dia ousou questionar seu talento.
A Associação de Futebol Argentino (AFA) emitiu um comunicado agradecendo pelos feitos do jogador e disse que sua lenda será eterna.
"Obrigado por tudo, Leo. Obrigado por representar a Argentina. Obrigado por nos fazer sonhar. Obrigado por transformar tantos sonhos em realidade. A história continua. Sua lenda será eterna", disse a nota.
Existe a expectativa de que a AFA anuncie uma partida de despedida para Messi, mas nada foi confirmado ainda.
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