Aos oito anos, Valdir João dos Santos recolhia materiais recicláveis para ajudar a mãe nas despesas de casa. Criado sem a presença do pai, encontrou na capoeira um espaço de acolhimento que mudaria sua trajetória. Décadas depois, tornou-se Mestre Seba, dedicado à formação de novos capoeiristas em Caruaru, município conhecido como Capital do Agreste de Pernambuco. Sua história é apresentada no curta-metragem documental Capoeira é Minha Vida, lançado em outubro de 2026, com 20 minutos de duração e acesso gratuito pelo YouTube. Com incentivo da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio do Governo de Pernambuco, a produção reúne depoimentos sobre desigualdade social, preconceito e preservação de uma manifestação afro-brasileira reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.
A escolha do YouTube para o lançamento busca ampliar o acesso à trajetória do capoeirista e levar a memória cultural do Agreste pernambucano a novos públicos. Para Douglas Cavalcanti, responsável pela coordenação e produção executiva do filme, a distribuição gratuita também ajuda a preservar conhecimentos transmitidos entre gerações. "O YouTube é uma das maiores plataformas de vídeo do mundo, com bilhões de usuários e presença em mais de 100 países. Ter a história de Mestre Seba nesse espaço é uma oportunidade de levar nossa cultura para muito além de Pernambuco. A gente quer que pessoas de qualquer lugar do mundo possam conhecer essa trajetória, de graça. É também uma forma de preservar nossa memória, valorizar os mestres da cultura popular e fazer com que seus conhecimentos cheguem às novas gerações", destaca.
Conhecida pelo São João, pelo forró, pelo artesanato e por diferentes expressões da cultura popular, Caruaru também guarda histórias de quem mantém viva a tradição da capoeira. Desenvolvida no Brasil a partir das experiências dos africanos escravizados e de seus descendentes, a manifestação atravessou séculos de perseguição até conquistar reconhecimento como patrimônio cultural. Foi nessa tradição que Valdir encontrou uma nova referência familiar após a morte da mãe. "Minha mãe era tudo. Minha mãe se foi, para mim ficou a capoeira", recorda. Formado mestre em 1998, ele transformou a experiência pessoal em um compromisso com o ensino. "Quando você escolhe a capoeira, você não escolhe sempre uma luta, você escolhe viver a capoeira", afirma.
A relação com a manifestação cultural também marcou a história de sua família. Jonathan João Cavalcanti dos Santos, filho do protagonista e praticante há cerca de oito anos, cresceu acompanhando as aulas e o esforço do pai para manter o grupo em atividade. "Eu vejo meu pai se esforçando pela capoeira e dando aula. Ele sempre amou a capoeira realmente, que eu não consigo desassociar meu pai fora da capoeira, como se tivesse nascido com ele", relata. Para Jonathan, a responsabilidade de um mestre ultrapassa o ensino dos movimentos. "Fazer a capoeira é uma coisa muito digna, e manter um grupo de capoeira mais ainda. Não é todo mundo que tem o dom de ser um líder", acrescenta.
O compromisso com os alunos também aparece no depoimento de Mestre Tigrão, conhecido como Zé Roberto da Silva, praticante desde 1989. Ele recorda situações em que o amigo utilizou recursos próprios para ajudar integrantes do grupo.
"Muitas vezes ele tirava do bolso para cobrir alguma coisa para aluno. Nós mestres somos feito um pai com filho", conta. Tigrão também compartilha a experiência de envelhecer sem abandonar a roda. "A coluna hoje tá um pouco maltratada, mas quando dá a gente joga, quando não a gente tá lá participando, o que vale é estar presente na capoeira", afirma. O relato revela uma relação que ultrapassa a prática física e permanece mesmo diante das limitações impostas pelo tempo.
Apesar de a capoeira ter conquistado reconhecimento internacional, a valorização de quem mantém seus conhecimentos vivos ainda enfrenta desafios. No documentário, Mestre Seba relata dificuldades para obter reconhecimento público em sua própria cidade. "Eu me formei mestre em 98. Dentro da minha cidade eu não sou reconhecido não, pelos poderes. Eu sou reconhecido mais na cidade de fora", declara. O sentimento, porém, não diminui o orgulho de acompanhar o crescimento dos alunos que ajudou a formar. "Que me esqueça agora, mas reconheça os outros. A nossa briga, nossa luta é para isso: para botar a capoeira cada vez num topo mais alto", afirma. Para ele, o valor de um mestre está na capacidade de compartilhar conhecimentos e abrir caminhos para outras pessoas.
A professora Batatinha, conhecida como Ivonei de Silva de Souza, também participa do filme e apresenta uma homenagem musical dedicada ao protagonista. Praticante desde 1999, ela explica que as cantigas preservam memórias sobre famílias, quilombos, ancestralidade e enfrentamento ao preconceito. "A música que a gente canta na roda de capoeira, ela traz toda a nossa história e o que a gente quer falar e ainda não pode", destaca. A professora conta que compôs uma canção após acompanhar as críticas dirigidas ao capoeirista. "Eu dediquei ela em uma homenagem uma vez ao Mestre Seba, porque ele foi muito criticado", recorda. Segundo Batatinha, a composição ajudou outras pessoas a reconhecerem o valor de sua trajetória.
Entre cantigas, palmas e toques de berimbau, a obra apresenta a emoção de quem encontra na roda um espaço de pertencimento. "Nós se arrepia quando nós vê o berimbau tocando naquela cadência bem acelerada, o ritmo da palma, a galera toda tocando e cantando", descreve Valdir.
Produção e acessibilidade
Produzido pela Vagalume Cultural, o curta-metragem reúne profissionais de diferentes áreas do audiovisual. Douglas Cavalcanti assina a coordenação e a produção executiva, enquanto Mestre Seba participa também como produtor geral. A direção de fotografia é de Robert Oniv, com assistência de produção de Diego Santos e Janailson de Sousa. Afonso Santti responde pela captação de áudio e vídeo, mixagem e masterização. O projeto conta ainda com apoio do Instituto Cultural Mestre Vavá.
A acessibilidade também integra a realização do filme. O documentário oferece Legendas para Surdos e Ensurdecidos (LSE), interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e audiodescrição, ampliando as possibilidades de acesso para pessoas com deficiência auditiva ou visual. Douglas Cavalcanti é responsável pela audiodescrição, enquanto a interpretação em Libras é realizada pela Ae Intérprete de Libras LTDA.
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