Governo chama clubes para discutir impacto bilionário do fim das bets
Reunião ocorre nesta terça-feira (29) após reação dos times; casas de apostas movimentaram R$ 1,1 bilhão em patrocínios aos principais clubes em 2025
O governo federal vai se reunir nesta terça-feira (29) com representantes de clubes de futebol para discutir os impactos financeiros da proibição das bets no país. O encontro ocorre após a reação dos times à medida provisória que determinou o encerramento das plataformas de apostas de quota fixa.
A reunião é articulada pelo Ministério do Esporte e deverá tratar principalmente dos contratos de patrocínio mantidos pelos clubes com casas de apostas e de alternativas para reduzir eventuais perdas de receita. Empresas do setor já notificaram equipes sobre a possibilidade de rompimento dos acordos diante da proibição.
O tamanho do impacto preocupa os dirigentes. Em 2025, as bets pagaram R$ 1,143 bilhão em patrocínios aos 20 clubes brasileiros de maior receita, segundo levantamento da Sports Value. O montante representou aproximadamente 36% das receitas de marketing dessas equipes e cresceu 85% em relação aos R$ 618 milhões registrados em 2024.
Na atual temporada, 14 dos 20 clubes da Série A têm uma casa de apostas como patrocinadora máster. Além da perda direta de receita, o rompimento dos contratos pode atingir equipes que utilizaram valores futuros dos acordos para antecipar recebíveis junto a instituições financeiras.
A medida provisória publicada na sexta-feira (25) proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa. Novos depósitos já estão proibidos. Os apostadores têm até as 23h59 de 5 de outubro para retirar voluntariamente os saldos, e sites e aplicativos deverão sair do ar a partir do dia 6.
A decisão encerra um ciclo iniciado em 2018, quando as apostas de quota fixa foram autorizadas no Brasil. O setor foi regulamentado posteriormente pela Lei 14.790/2023 e ganhou espaço acelerado no futebol, especialmente por meio dos contratos de publicidade e patrocínio.
Paralelamente à MP, o governo enviou ao Congresso um projeto para criminalizar atividades ligadas às apostas. A proposta prevê pena de quatro a seis anos de prisão, além de multa, para quem explorar, operar, oferecer, receber, registrar ou intermediar apostas de quota fixa. A divulgação das plataformas também poderá ser enquadrada como crime, com pena prevista de dois a quatro anos. O projeto ainda depende da aprovação do Congresso.
A reunião desta terça coloca, portanto, o impacto sobre o futebol no centro das negociações após a proibição. Enquanto o governo sustenta a medida com argumentos relacionados ao endividamento das famílias e aos efeitos sociais das apostas, os clubes tentam encontrar alternativas para substituir uma fonte de receita que passou a ocupar parcela relevante de seus contratos comerciais.