100 Dias

Amyr Klink: 42 anos de uma viagem digna de cinema

Conclusão da travessia do Atlântico Sul em um barco a remo completa 42 anos nesta sexta História vai virar um filme da Disney

Amyr Klink: 42 anos de uma viagem digna de cinema
História da travessia do Atlântico Sul pelo explorador Amyr Klink está completando 42 anos. A adaptação da aventura chega aos cinemas brasileiros no filme "100 Dias" em 29 de outubro Crédito: Divulgação

A história do Brasil é repleta de heróis anônimos. Aqueles que olharam para o que todos consideravam impossível e o transformaram em realidade. Infelizmente, num país que passou décadas vivendo a síndrome de vira-latas, como definiu Nelson Rodrigues no século passado, ainda não é comum para os brasileiros a valorização dos compatriotas ilustres, sendo que muitos ainda acham que os feitos do Brasil valem menos que os de outros países.

Um desses heróis é o paulistano Amyr Klink. Formado em economia, o rapaz se destacou mundo afora como um grande explorador. Em 1984, ele entrou para a história da navegação mundial ao concluir a primeira travessia solo do Atlântico Sul a remo.

A conclusão desta aventura histórica completa 42 anos nesta sexta-feira (18).

A viagem

Após partir de Lüderitz, na Namíbia, em junho daquele ano, Amyr passou cerca de 100 dias sozinho no mar a bordo do IAT, embarcação projetada especialmente para a expedição. Ao alcançar o litoral baiano, desembarcou na Praia da Espera, em Itacimirim, concluindo a travessia após percorrer cerca de 3.500 milhas náuticas.

Posteriormente, o navegador seguiu até Salvador, destino final da expedição. Mais do que uma conquista esportiva ou náutica, a expedição se tornou um marco pela combinação de planejamento, autonomia e preparo técnico necessários para enfrentar o oceano em uma embarcação de pequenas dimensões.

Aos 28 anos, Amyr precisou lidar com o isolamento e as condições imprevisíveis do mar enquanto, sozinho a bordo, era responsável pela própria alimentação, navegação, comunicação e manutenção do barco.

Amyr contou, durante o Rio2C deste ano, que teve a ideia de fazer a viagem após ver outros navegadores tentando pôr o plano em prática, mas sempre falhando. E em alto-mar, qualquer erro significava a morte.

Sem experiência na navegação, o então jovem entusiasta se destacou pelo preciosismo. Ele estudou o que os outros navegadores que haviam tentado a travessia previamente erraram e corrigiu as rotas para colocar essa ideia mirabolante em prática.

Segundo Amyr, a viagem trouxe momentos de paz, como poder ver as baleias no oceano e as aves à procura de alimento. Porém, para o mundo da navegação, essa viagem abriu as portas para novas rotas marítimas.

Travessia virou filme

O feito, que transformou o então jovem navegador em uma referência nacional, também deu origem ao livro "Cem Dias Entre Céu e Mar", publicado em 1985, no qual Amyr registrou os preparativos, desafios e descobertas da viagem. A obra se tornou um best-seller e já ultrapassou 300 mil cópias vendidas no Brasil — um marco considerado excepcional para os padrões do setor.

Mais de quatro décadas depois, a travessia será retratada em "100 Dias", longa dirigido por Carlos Saldanha e estrelado por Filipe Bragança, que interpreta Amyr Klink. Com estreia em 29 de outubro nos cinemas, o filme também conta com a atriz francesa Philippine Leroy-Beaulieu no papel de Asa Klink, mãe do navegador, além de Felipe Camargo como Jamil Klink e João Vitor Silva interpretando Tymur Klink, pai e irmão de Amyr, respectivamente.

Durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada neste ano, a Disney promoveu um painel com Amyr e a equipe técnica do filme, que compartilhou os desafios de transformar essa aventura em cinema.

Para o filme dar certo, a roteirista Thais Tavares revelou ter contado com a total confiança de Amyr Klink.

- Na nossa primeira reunião com o Amyr, conversamos que teríamos que adaptar algumas partes da história. Ele respondeu: 'O barco é meu filho, o filme é filho de vocês. Então fiquem à vontade'. Ele deu total liberdade para que encontrássemos a melhor forma de contar essa história no cinema - relembrou a roteirista.

Já o diretor Carlos Saldanha, responsável por levar obras que valorizam a cultura nacional para o cenário internacional, como o filme "Rio" e a série "How To Be a Carioca", destacou o fator poético da jornada de Klink pelos mares.

- Um dos maiores desafios da adaptação de 100 Dias Entre Céu e Mar foi traduzir para o cinema a poesia dessa jornada, indo além dos aspectos técnicos da travessia. Buscamos construir uma narrativa visual que refletisse a conexão do Amyr com o mar, os animais e a natureza ao seu redor, para transmitir ao público as sensações e reflexões que o livro desperta - revelou.

O projeto foi especial para o ator Filipe Bragança, que dá vida a Amyr nas telonas, e para o próprio navegador, que se surpreendeu com a fidelidade das atuações e caracterizações dos atores, que deram vida a pessoas amadas de sua história.

- Ao conhecer mais sobre o temperamento dele [Amyr Klink], seu senso de humor, seus medos, suas angústias e a forma como viveu essa travessia internamente, consegui me aproximar ainda mais da sua história. O livro foi um grande companheiro durante a preparação e me ajudou a compreender melhor um personagem tão complexo e inspirador - contou Filipe Bragança.

- Desde a caracterização dos personagens, como o Fúria e a Philippine, que está impressionantemente parecida com a minha mãe, até o sotaque... Houve um cuidado e uma sensibilidade por parte da produção e de todos os envolvidos para construir essa história emocionante - concluiu Amyr Klink.