O episódio envolvendo a utilização das marcas da Caixa e das Loterias Caixa em publicações de natureza político-partidária não pode ser tratado apenas como uma conduta individual. A CBAt administra o programa, seleciona seus participantes e tem o dever de orientar, fiscalizar e impedir o uso inadequado das marcas de uma empresa pública.
As publicações estavam expostas nas redes sociais. Por que a direção da Confederação não identificou o problema antes que ele alcançasse o patrocinador e colocasse em risco uma parceria construída durante décadas?
A reação da entidade somente ganhou força depois da repercussão pública. Notificações e promessas de apuração são necessárias, mas não apagam a demora nem explicam por que os controles preventivos falharam.
É nesse ponto que o presidente da CBAt, Wlamir Motta Campos, precisa assumir sua responsabilidade.
Nos últimos anos, a comunicação da Confederação passou a ser fortemente associada à sua figura. Viagens, cerimônias, entrevistas, encontros e conquistas recebem intensa exposição pessoal. Em muitos momentos, torna-se difícil distinguir a divulgação institucional da promoção individual do dirigente.
Essa postura transmite a imagem de uma gestão centralizadora, personalista e marcada pelo exibicionismo. O presidente aparece para anunciar resultados, celebrar eventos e ocupar o centro das imagens. Quando surge uma crise, porém, a resposta é tardia ou insuficiente.
Há muito marketing pessoal e pouca gestão
Uma confederação esportiva não pode funcionar como instrumento de projeção de seu presidente. Sua comunicação deve valorizar os atletas, treinadores, federações e profissionais que efetivamente constroem a modalidade.
A centralização também amplia a responsabilidade. Se as decisões, a representação e a visibilidade institucional estão concentradas no presidente, ele não pode, diante das falhas, transferir integralmente a responsabilidade para terceiros.
Quem centraliza o poder também centraliza a responsabilidade
A CBAt precisa explicar quais regras existiam, como os participantes foram orientados, quem fiscalizava as publicações, quando a presidência tomou conhecimento dos fatos e por que não agiu anteriormente. Sem essas respostas, atribuir o episódio exclusivamente a uma conduta individual parece mais uma tentativa de preservar a direção do que o resultado de uma apuração transparente.
Resultados esportivos, contratos e premiações não conferem imunidade administrativa. Reconhecimentos de governança também não substituem governança efetiva.
A eventual suspensão do patrocínio não prejudica quem ocupa o centro das fotografias. Prejudica atletas, treinadores, competições, categorias de base e projetos sociais.
O atletismo brasileiro não deve pagar por atos isolados. Tampouco pode pagar pela inércia de uma administração personalista, excessivamente centralizada e mais preocupada com a imagem de seu presidente do que com a proteção institucional da CBAt.
A entidade precisa de menos exposição pessoal e mais transparência; menos discursos e mais fiscalização; menos centralização e mais gestão.
Presidir não significa apenas aparecer nas conquistas. Significa responder pelas crises.
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