Correio da Manhã
Esportes

Copa do Mundo derrubou o 'muro' das assinaturas

Copa de 2026 redesenhou o mapa das narrações no Brasil, e mostrou ao grande público que existe um 'muro' entre ele e os narradores

Copa do Mundo derrubou o 'muro' das assinaturas
Galvão Bueno anunciou aposentadoria das narrações de Copas do Mundo, mas deixou a cena com profissionais promissores crescendo na TV, como Paulo Andrade, da TV Globo Crédito: Divulgação/NSports

Existe uma distância no jornalismo esportivo brasileiro entre fazer o trabalho e ser visto fazendo o trabalho. Durante décadas, essa distância era curta: o narrador se formava no rádio, chegava à TV aberta e envelhecia diante do mesmo microfone, conhecido de todo o país. Foi o caminho de Galvão Bueno, cria do rádio nos anos 1970, que atravessou gerações com 41 anos de Grupo Globo; e de Luis Roberto, que começou em rádios paulistas, chegou à emissora carioca em 1998 e se tornou o narrador número um da casa na última década. A TV por assinatura mudou o jogo e criou um fenômeno novo, ainda pouco discutido: profissionais que passam vinte anos entre os melhores do ofício, falando para uma fração do público, atrás de um muro que a maioria dos brasileiros nunca atravessou. O muro, aliás, é mensurável: segundo a PNAD Contínua do IBGE, só 24,3% dos lares brasileiros com televisão tinham TV por assinatura em 2024, e a base de assinantes, que chegou a 19,6 milhões em 2014, fechou 2025 com 7,6 milhões, o menor patamar desde 2009, conforme a Anatel. Enquanto isso, a TV aberta segue concentrando mais da metade da audiência do país, segundo a Kantar Ibope.

A Copa do Mundo de 2026 escancarou esse muro, e nenhuma trajetória ilustra melhor do que a de Paulo Andrade. Por vinte anos, na ESPN, ele foi a voz que apresentou a Premier League ao público brasileiro, e construiu no canal fechado um currículo raro: Olimpíada de Atenas, Copa da Alemanha em 2006, voz principal da Copa América de 2007 e cinco finais de Champions League narradas de dentro do estádio. Em 2014, foi o principal narrador da emissora no Mundial, narrando, inclusive, a final. Nada disso o tornou conhecido de quem não assinava TV a cabo.

Quando a Globo o contratou, em março de 2024, não adquiriu uma promessa, mas um profissional mais do que pronto. Nos anos seguintes, ele se firmou no SporTV e no Premiere como uma das principais vozes do futebol nacional, diante do público que já o conhecia. A porta do sinal aberto se abriu com a Copa, numa conjunção de fatores. Galvão Bueno, após encerrar 41 anos de Grupo Globo, narrou o Mundial pelo SBT. Luis Roberto ficou fora por tratamento de saúde, empurrando Everaldo Marques ao protagonismo. E a divisão inédita dos direitos, TV aberta, TV fechada, streaming e YouTube transmitindo simultaneamente, multiplicou as cabines a preencher. O plano original mantinha Paulo Andrade a serviço do SporTV durante todo o torneio; na reorganização da escala, ele foi deslocado para reforçar a TV aberta na fase de grupos, direto dos estúdios, antes de embarcar para narrar o mata-mata dos estádios. Foi nessa janela que estreou no sinal aberto. E foi ali que o Brasil inteiro, pela primeira vez, o ouviu.

O padrão, porém, é maior do que um nome, e a Globo recruta nessa escola há duas décadas: em 2005, tirou Milton Leite da ESPN para o SporTV; em 2018, contratou Gustavo Villani, que estreou na TV pela própria ESPN e passou pelo Fox Sports antes de narrar esta Copa direto dos estádios; em 2020, foi buscar Everaldo Marques, consagrado na ESPN como a voz do futebol americano no Brasil. Fernando Nardini, formado na mesma casa, seguiu por outro caminho: deixou o canal após 14 anos e foi narrar o Mundial na CazéTV, que distribuiu os jogos gratuitamente pelo YouTube, um ambiente onde o muro da assinatura simplesmente não existe. E nos casos em que a apuração pública permite reconstruir o mecanismo, a porta se abriu por circunstância: foi o afastamento de Luis Roberto que fez de Everaldo o narrador principal dos jogos da Seleção, e que puxou Andrade do SporTV para a TV aberta. A escalação do Mundial fechou o retrato: segundo o Lance!, os quatro narradores mais utilizados pela Globo no rodízio das transmissões - Everaldo Marques, Paulo Andrade, Gustavo Villani e Renata Silveira -, são todos formados na TV por assinatura. Dos quatro, apenas um nunca havia narrado no sinal aberto da emissora.

Nos comentários públicos do perfil oficial de Paulo Andrade no Instagram, durante as cinco semanas do Mundial, chamou atenção menos o elogio e mais a cobrança: um seguidor marcou o perfil da emissora pedindo a escalação dele na TV aberta também no mata-mata "e depois quando a Copa acabar, coloca ele no Brasileirão também". Outro sugeriu que "tem que ter petição para você continuar na TV aberta pós-Copa"; um terceiro resumiu em uma linha: "Esse cara na TV aberta me parece inevitável". Houve quem descrevesse o muro com as próprias palavras: "Boa sequência de Copa no Sportv, infelizmente não sou assinante. Que eu consiga te acompanhar na TV aberta ainda mais vezes esse ano!", e quem, diante da fragmentação inédita das transmissões, comparasse as cabines entre si: "foi a melhor narração disparada do dia! Em todas as plataformas!". Os que já o acompanhavam reivindicaram anterioridade: "Nada de surpresa pra quem te acompanha há tantos anos"; "narrando gols do Haaland como nos bons tempos de Premier League". Na outra ponta do muro estavam os que o descobriram ali mesmo. "Que surpresa conhecer esse narrador incrível na Copa. Depois que vi Estados Unidos x Paraguai, fui atrás das outras narrações com ele e aprendi com todas. Ele tem um tom perfeito: educa, informa e emociona", conta à reportagem Gabriela Bernardo Pimentel, publicitária de 32 anos do Rio de Janeiro, que encerra com a pergunta que este texto inteiro tenta responder: "Como um cara desses não estava na TV aberta?". E houve um registro que nenhuma análise poderia inventar. No dia da estreia, Luis Roberto, o narrador número um da emissora, cujo afastamento para tratamento de saúde reorganizou a escala da Copa, escreveu publicamente no perfil do colega: "Dia de brilhar! Seja o Paulo de sempre! Encante os Brasileiros!". A resposta de Paulo veio em tom de reverência: "Tem um pouco (muito) de você em cada um de nós."

E a reação não se encerrou com o apito final. Quando o narrador publicou seu balanço de despedida do torneio, brincando que não sabia se a voz, o profissionalismo e os trocadilhos haviam agradado, um seguidor respondeu: "'Não sei se agradei', disse o melhor narrador do Brasil". Na mesma publicação, outro definiu o estilo que conquistou a audiência, "parece um amigo sentado na poltrona ao lado contando a história do jogo, e que se torna um gigante na hora da emoção do gol", e um terceiro fez a conta que resume esta análise melhor do que qualquer parágrafo: elogiou a "merecida exposição na TV aberta", emendou que ele "não podia ter ficado 23 anos fora dela. A amostra, colhida no perfil do próprio narrador, naturalmente reúne quem o aplaude, e é justamente por isso que o dado relevante não é o elogio, e sim o padrão dentro dele: a cobrança pela TV aberta se repete de comentário em comentário. E transborda a bolha: nos posts de páginas de mídia esportiva que cobriram sua escalação, a tônica dos comentários é a mesma. Para quem já o conhecia, a novidade de 2026 não foi o narrador, foi o canal. E, encerrado o Mundial, a cobrança segue de pé.

A Globo entendeu o recado: com avaliação interna positiva e repercussão favorável, decidiu ampliar a presença de Paulo Andrade na TV aberta pelo mesmo caminho gradual usado com Everaldo Marques, segundo a coluna Outro Canal, do F5, da Folha de S.Paulo. É o movimento certo, e o desejável é que não pare aí. A Copa do Mundo é o maior evento do esporte mais popular do planeta: quando ela apresenta uma voz ao país inteiro e o país responde pedindo mais, o caminho natural é consolidar essa voz onde todos podem ouvi-la.

Fica a pergunta que o caso devolve ao mercado, e que vale para muito além de um nome. Paulo Andrade não estreou em Copas em 2026, narrava Mundiais desde 2006. O que faltava não era torneio: era canal. E a porta do canal não se abriu por projeto, abriu-se porque uma ausência inesperada reorganizou a escala. Se é assim que o país descobre uma voz pronta havia vinte anos, por acaso e não por planejamento, quantas outras seguem do lado de dentro do muro, à espera não de uma Copa, mas de uma vaga?