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Climacídio evidencia impactos de eventos climáticos extremos no território

Termo criado a partir da pesquisa de Pamela Mércia questiona responsabilidade pelas mortes decorrentes das tragédias

Climacídio
evidencia impactos de eventos climáticos extremos no território
Entre 2011 e 2024, Petrópolis registrou o maior número de mortes decorrentes de tragédias Crédito: Thiago Alvarez/CM

Insegurança é um estado de incerteza. Ela pode causar ansiedade, estresse e outros problemas de saúde. Esses sintomas são experimentados por cidadãos afetados pelos desastres socioambientais que fazem parte da história do município de Petrópolis. Com isso, uma dúvida sobrevoa a esfera social: a responsabilização pelas pessoas afetadas, pelo despreparo da cidade. É nesse recorte que surge o termo climacídio, criado pela pesquisadora e ativista Pamela Mércia, que evidencia os impactos desses eventos extremos no território e, segundo a pesquisadora, responsabiliza as mortes provocadas pela omissão do poder público.

O termo foi pensado e criado por Pamela Mércia, fundadora do Instituto Todos Juntos Ninguém Sozinho (TJNS), que nasceu em 2022 em prol de movimentos com foco no combate ao racismo ambiental e em prol da justiça climática em Petrópolis. Pamela chegou ao conceito através da pesquisa "Vivência e Urgência: o Climacídio", que surgiu dentro do processo de escrita da monografia da ativista.

E então, em setembro de 2025, o conceito foi aprovado pela banca durante a defesa da monografia "Racismo Ambiental em Petrópolis e a Falta de Políticas Públicas Pós-Tragédias: análise após as chuvas de 2022, por que sempre os mesmos?", no Curso de Especialização em Direitos, Desigualdade e Governança Climática da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Na ocasião, o desastre deixou 235 mortos e cerca de quatro mil desabrigados. O cenário levantou um debate sobre o modelo de "pólis" no qual a região está inserida, pois há um grande histórico de desastres, como o Vale do Cuiabá, em 2011, que deixou 72 mortos.

Diagnóstico

O projeto partiu de um panorama da cidade cinco anos antes da tragédia socioambiental do fatídico 15 de fevereiro e 20 de março de 2022. Segundo a pesquisadora, cinco anos antes das chuvas que devastaram a cidade, o município já tinha um diagnóstico técnico das áreas mais vulneráveis. "Atualizado em 2017, o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) realizou vistorias em áreas classificadas como de risco alto e muito alto, identificando pontos de escorregamento, moradias ameaçadas, condições físicas e sociais dos territórios, além de medidas necessárias para reduzir os riscos e áreas consideradas inadequadas para ocupação. Os pontos identificados foram georreferenciados e incorporados ao banco de dados do plano", explicou Pamela.

Nesses estudos do plano, na Região I, no Alto da Serra, o PMRR identificou 15 setores de risco, entre eles Chácara Flora, Estrada do Paraíso, Sargento Boening, Vila Felipe e Oswero Vilaça. Este último recebeu a maior pontuação de prioridade da região, com 439 pontos. "Ou seja, pelo menos desde 2017, o município dispunha de informações sobre onde estavam algumas das populações mais expostas e sobre quais medidas poderiam ser adotadas para reduzir os riscos no 1º distrito", informou.

Pamela destaca que o diagnóstico ganha outra dimensão quando os dados sobre as áreas de risco são comparados com o perfil racial da população. "Segundo o Censo 2022, Petrópolis tinha 43.019 moradores vivendo em Favelas e Comunidades Urbanas. Desse total, 26.746 eram pretos ou pardos, o equivalente a 62,2% dos moradores desses territórios", ressaltou.

Esse recorte também traz um olhar diferente do município, uma forma de tirar as vendas dos que só enxergam as fantasias de uma "Cidade Imperial" inventada para poucos, lá em 1843. Pois, apesar de ter a maior parte da população que declarou raça no Censo branca (58,7%), cerca de 41,1% são pretos ou pardos. "Em outras palavras, embora a maioria da população do município seja branca, nas Favelas e Comunidades Urbanas a maioria dos moradores é negra", destacou Pamela.

Esse ponto é possível observar quando se considera que são os mais atingidos pelos eventos climáticos extremos, como a última tragédia. Conforme apontou a pesquisadora, os dados, sozinhos, não permitem afirmar que a raça determina quem ficou exposto ao risco. Mas mostram uma desigualdade territorial que precisa ser considerada quando se discute racismo ambiental em Petrópolis. A população negra está proporcionalmente mais presente em territórios populares que também concentram situações de vulnerabilidade e risco.

Com isso, a partir dessa análise, vêm outros termos, como racismo ambiental, e foi chegando ao climacídio, que partiu da seguinte indagação: "O conhecimento que o município tinha sobre esses territórios se transformou em medidas concretas de proteção para quem vivia neles?".

Climacídio

O termo veio questionar a negligência institucional, repetida no tempo e nas administrações, e a urgência de que essa inércia do poder público precisava ser nomeada, chegando até o climacídio.

Que, de acordo com a definição de Pamela, é a morte climática, resultado direto da omissão consciente e negligência do Município, Estado ou União diante de eventos climáticos extremos. "Podendo ser enchentes, deslizamentos, secas, ondas de calor, tempestades, intensificados pela crise climática global. O termo combina 'clima', em referência a esses eventos extremos, e o sufixo '-cídio', que significa morte ou extermínio", explicou.

Pamela Mércia ressalta que o conceito é mais que uma palavra. "É uma categoria analítica, política e jurídica que denuncia a decisão institucional de não proteger vidas, mesmo quando os riscos são conhecidos, estudados e amplamente mapeados. O Climacídio tem responsáveis, territórios e vítimas", afirmou.

Crise climática x saúde

Cidades debaixo d'água, deslizamentos, famílias desalojadas e insegurança climática são cenas recorrentes no Brasil, principalmente na Região Serrana, em especial Petrópolis, que, em 2024, liderou o ranking nacional com maior número de ocorrências de deslizamentos e inundações.

O termo versa sobre as desigualdades enfrentadas pela falta de políticas públicas voltadas à população mais vulnerável quando se trata de espaços na sociedade. Em sua maioria, esses grupos são afetados diretamente pela degradação ambiental, sendo expostos a riscos nocivos à saúde, pois são atingidos por enchentes, poluição, entre outras situações causadas pela falta de infraestrutura.