Melinda Clever nasceu no dia 28 de dezembro de 2025. Ela chegou um mês antes do previsto pelos médicos. A mãe, Kely Clever, de 28 anos, relata que nas últimas semanas de gestação, teve um quadro de pressão alta e precisou lidar com a antecipação do parto. Apesar de ter nascido prematura, pesando 2,2 quilos e medindo 46 centímetros, Melinda veio ao mundo forte e saudável. Para o alívio dos seus pais, Kely e Juliberto, ela não precisou ficar internada na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI) em Irineópolis, Santa Catarina.
Para Kely, parte desse alívio veio de um cuidado antes do nascimento da primogênita: seguir a cartilha de vacinação durante a gestação. Ao longo do pré-natal, ela recebeu as orientações da equipe médica da Unidade Básica de Saúde (UBS) que frequentava e tomou todos os imunizantes previstos no Calendário Nacional de Vacinação de Gestantes. “Tomei todas as vacinas e minha caderneta está completa”, conta.
Vírus sincicial
Semanas antes do parto de emergência, Kely foi até a UBS que frequentava e conseguiu tomar a vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR). O imunizante foi incorporado ao SUS por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e começou a ser distribuído para todos os estados a partir de dezembro de 2025. O VSR, principal causador da bronquiolite viral aguda (BVA), é responsável pela maioria das internações e das mortes de bebês. A bronquiolite é uma infecção respiratória que inflama os bronquíolos que são pequenas vias aéreas dos pulmões, dificultando significativamente a respiração.
Por ter nascido prematura, Melinda tomou o anticorpo monoclonal contra o VSR disponível no SUS desde 2013. Diferentemente da vacina, essa tecnologia já entrega a imunidade pronta diretamente no organismo do bebê. Com oito meses, Melinda contraiu bronquiolite mas devido à imunização que recebeu teve os sintomas leves da doença e não precisou ser internada, o que demonstra a importância das vacinas. “Se eu não tivesse levado ela para se imunizar, me culparia muito”, desabafa a mãe.
O sucesso da proteção contra o VSR oferecida às gestantes pelo SUS pode ser observado na queda das internações no país. De acordo com dados do Ministério da Saúde, desde o início da vacinação, em dezembro do ano passado, mais de 1,6 milhão de doses foram aplicadas. No primeiro semestre de 2026, os casos graves de vírus sincicial respiratório em bebês menores de 6 meses caíram 52,5%, de 14.061 para 6.674, na comparação com o mesmo período de 2025 quando a vacina ainda não estava disponível no SUS.
Escudo materno
A história de Kely ilustra uma das principais estratégias de proteção para recém-nascidos: a vacinação materna. Assim que a gestante recebe a imunização, passa a produzir anticorpos que atravessam a placenta e alcançam o bebê, garantindo a chamada imunidade passiva nos primeiros 6 meses de vida. O virologista e professor de microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Flávio Guimarães reforça que a vacinação em gestantes exerce uma função indispensável, pois promove a proteção da mãe, que, no período gestacional fica mais vulnerável a infecções, e do bebê, que ainda não tem um sistema de defesa fortalecido.
“O recém-nascido não tem o sistema imunológico maduro. Então, ele não tem condições, por si só, de combater infecções. Portanto, se a mãe não se vacinar contra doenças importantes, ela não vai ter uma quantidade suficiente de anticorpos para passar para a criança”, explica.
Embora a imunização seja considerada um ato duplo de amor da mãe com o bebê e uma das estratégias mais bem-sucedidas na queda das internações e de mortalidade infantil, especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a cobertura vacinal em gestantes, assim como em outros públicos, ainda esbarra em obstáculos. No caso das gestantes, eles destacam dois desafios: orientações insuficientes no pré-natal e a hesitação vacinal, que ganha cada vez mais espaço nas redes sociais.
Atendimento humanizado
Para o pediatra e presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Eduardo Jorge Fonseca, as equipes médicas que realizam o pré-natal, especialmente no SUS, precisam passar por capacitações contínuas. Dessa forma, esses profissionais estarão cada vez mais atualizados e preparados para realizar um atendimento cada vez mais qualificado e humanizado, podendo assim, esclarecer eventuais dúvidas e receios das mães em relação aos imunizantes, reforçando que todas as vacinas são seguras e eficazes.
“O pré-natal é fundamental para a saúde da mãe e para o desenvolvimento do feto ainda no útero. O objetivo é garantir que, ao nascer, o bebê esteja protegido e nas melhores condições possíveis. Também é importante que tenha recebido, por meio da mãe, anticorpos contra doenças como gripe, Covid-19, coqueluche e VSR, que são doenças de maior risco”, explica o pediatra. “Precisamos ouvir o medo de cada gestante individualmente. Quando ficamos passivos e não perguntamos à gestante: "você tem alguma dúvida sobre a segurança desta vacina"? ou "você está absolutamente convicta de que esta vacina é importante para você e para o seu bebê?" perdemos a oportunidade de esclarecer essas dúvidas.”
O infectologista e professor da Faculdade de Medicina da UFMG, Unaí Tupinambás, chama atenção para a necessidade de o obstetra e os profissionais da saúde básica orientarem ativamente as gestantes em duas direções. A primeira é fortalecer a ideia de que as vacinas previstas no Calendário não produzem qualquer resultado negativo para a saúde do bebê. A segunda é alertar sobre a gravidade das falsas concepções de que algumas doenças já não existiriam, o que levaria as pessoas a negligenciar a imunização contra elas. Ele cita, por exemplo, a vacina tríplice bacteriana acelular dTpa - que protege contra difteria, tétano e coqueluche.
“É importantíssimo que as gestantes façam uso das vacinas da hepatite B, da influenza, da Covid-19, da dTpa, durante o pré-natal. As pessoas nem sabem mais o que é coqueluche. Isso é paradoxal justamente porque, no passado, a vacinação teve uma cobertura extensa. Antes desse período de negacionismo, a doença praticamente tinha desaparecido. É inaceitável que continue tendo mortes por uma doença imunoprevenível.” Como reflexo do desconhecimento dos dados epidemiológicos e da hesitação em se vacinar, entre 2020 e 2025, foram confirmados 1,8 mil casos da coqueluche em menores de 6 meses, com 35 óbitos, conforme dados do Ministério da Saúde.
País das vacinas?
Alternando avanços e retrocessos na cobertura vacinal na última década, especialistas consultados acreditam que o Brasil tem todas as condições de voltar a ter índices altos de vacinação como no passado. Para o infectologista Unaí Tupinambás, a hesitação vacinal contribuiu para o ressurgimento de doenças que já estavam controladas no país, como o sarampo. No entanto, o pesquisador afirma que nos últimos três anos e meio, o Ministério da Saúde tem trabalhado para recuperar a cobertura vacinal.
Uma das estratégias utilizadas pela pasta, comandada pelo atual ministro Alexandre Padilha, foi adaptar a produção de conteúdos sobre vacinação que são distribuídos pelas redes sociais. Com linguagem simples e quadros como “Alerta Vacina”, o ministro apresenta, nas redes sociais, conteúdos leves, informativos e descontraídos sobre a importância de se imunizar.
O pediatra e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Eduardo Jorge Fonseca, avalia que o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer para voltar a ter coberturas vacinais elevadas. “Eu sempre digo que o Brasil era um país do futebol, do carnaval e das vacinas. Precisamos recuperar isso.”
Menu