O Centro de Cultura Raul de Leoni recebe, nesta sexta-feira (25), às 16h, mais uma disputa do Slam dos Crias. A batalha de poesia falada vai selecionar dois poetas para garantirem vaga e representarem a cena de Petrópolis na grande final do Festival FavelaCria, no Rio de Janeiro.
Além da classificação para o festival, os poetas participantes disputam premiações em dinheiro para os primeiros colocados: R$ 1.500 para o 1º lugar, R$ 700 para o 2º lugar e R$ 300 para o 3º lugar. O evento contará ainda com o DJ Jama Beats, embalando a roda de poesia e valorizando a cultura hip-hop e periférica no município.
As inscrições para os poetas que desejam competir já podem ser feitas pelo site do Slam dos Crias. O evento é aberto ao público.
A ação reforça a importância de ter poetas marginais falando das próprias vivências, ainda mais dentro da cidade de Petrópolis, que tem um viés imperialista e elitizado, conhecido por silenciar e não reconhecer os talentos e frutos da população marginalizada.
"Numa cidade como a nossa, muito conservadora, tudo o que a gente traz, né, com esse discurso, desde a estética até a prática marginal, ela sempre vai ser um lugar de ser olhada com uns olhares atravessados, né? Seja ela nas batalhas de rima, seja ela no slam, seja ela no cotidiano. E aí, quando a gente começa a perceber que o Slam dos Crias toma uma proporção onde é valorizada a cultura marginal, e é uma coisa que eu tô há anos lutando comigo mesma, com a vida, com o mundo, de permanecer nesse lugar que me assumo marginal, ver as proporções que o slam vai tomando é uma realização... Intimamente, eu tô aqui, ó, vibrando! A garotinha de 15 anos que começou a fazer poesia na rua, na batalha de rima, tá vibrando em ver tudo isso acontecendo", expressou Materna Poeta, uma das fundadoras do Slam dos Crias.
O evento também é especial porque coloca a cidade no radar do Rio de Janeiro no que diz respeito ao movimento do Slam. Isso é o que ressalta Míriam Santos, produtora do Slam dos Crias.
"E aí, depois de três anos, Petrópolis volta pro mapa do Slam RJ. É a primeira vez que o Slam dos Crias entra nas seletivas do Slam RJ, né, e é a primeira vez que um slammer de Petrópolis é representado dentro do Festival Favela Cria", disse.
Arte como conexão
A arte é uma ferramenta potente. Ela salva, multiplica ações e transforma.
A poesia falada e a arte marginal continuam se afirmando como ferramentas de transformação social e mediação pedagógica nas periferias. Criadores e organizadores de slams em Petrópolis destacam que a expressão poética de rua ultrapassa o entretenimento e atua diretamente no resgate da autoestima de jovens, servindo como ponte entre a realidade das comunidades e as salas de aula. Ao dar palco a vivências marcadas pelo cotidiano das periferias, o movimento poético desafia barreiras institucionais e mostra a potência da cultura urbana como instrumento de conhecimento e linguagem.
A caminhada, contudo, é acompanhada por desafios históricos na produção cultural independente do interior do estado. Sem grande apoio financeiro ou infraestrutura garantida, o coletivo local viabiliza suas edições na base do esforço comunitário e de parcerias locais, enfrentando desde a escassez de incentivos públicos até custos de deslocamento para acolher poetas de bairros mais afastados. Esse trabalho articulado tem gerado frutos: o slam, que nasceu no ambiente escolar e ganhou espaço nas praças, prepara-se agora para ocupar a programação do Festival Favela Cria, evento multicultural que promete dar visibilidade à produção periférica.
Para além dos palcos, os produtores locais sinalizam um paradoxo gerado pela era digital no meio artístico. Embora as redes sociais funcionem como vitrine para milhares de novos poetas, há um movimento de esvaziamento dos encontros físicos e das disputas presenciais. Como resposta, os organizadores reforçam o convite para a ocupação das ruas e lembram que as inscrições para as seletivas do festival estão abertas no site oficial.
O Slam dos Crias
O movimento foi desenvolvido dentro da escola a partir de uma construção coletiva e coloca a identidade como protagonista.
A essência do Slam dos Crias, movimento cultural de Petrópolis, está na transformação da realidade de crianças, jovens e artistas periféricos através da força da poesia marginal, ecoando vozes a partir de palavras que transmutam em potência e força e moldam a visão de mundo e a identidade dos envolvidos.
O movimento artístico incentiva a necessidade de ouvir a si próprio e aos que estão ao redor, seja dos mais novos aos mais velhos.
"A poesia do slam não tem nenhuma regra nem estrutura fixa. Ela só tem uma regra, que seja sobre uma verdade. Então ela vai trazer uma realidade e questão própria, que pode ser uma verdade com todos, mas pode ser uma coisa individual e íntima", comentou Emily Santos, a Materna Poeta.
Isso pode ser visto na formação do coletivo, quando destacam: "Do chão da escola para o mundo: No Slam dos Crias, a poesia nasce da infância, ecoa na favela e transforma vozes em potência", frase do grupo.
Nascimento
O pensamento expresso na frase ressaltada acima é um reflexo da construção do coletivo, que nasceu do desejo da educadora, produtora cultural e poeta de poesia marginal de slam Emily Santos, de 26 anos, ao querer criar um espaço acolhedor para todos que gostam da arte, porém com um diferencial: trazer as crianças para um universo majoritariamente composto por jovens e adultos.
"O projeto nasce de um desejo muito íntimo meu. Sou mãe, e por isso, levo o nome artístico de Materna Poeta. Sempre tentei entrelaçar a minha maternidade solo com a poesia marginal, de forma que eu conseguisse estar ocupando os espaços com as minhas necessidades, que é ser mãe, ser mãe solo, ter a necessidade de estar com a minha filha nesses espaços. Sempre fiquei com o desejo, assim, de ter um local que acolhesse mulheres mães e crianças. E aí percebi que os movimentos na rua têm uma certa limitação com o público infantil", contou.
A partir desse olhar e em busca de suprir as necessidades encontradas no caminho artístico, Materna Poeta encontrou nas crianças essa possibilidade.
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