A exposição internacional “Urban Utopias: cidades sonhadas, cidades habitadas” apresenta ao público um conjunto de fotografias e propostas acadêmicas que exploram a trajetória urbanística de duas cidades planejadas do século 20: Brasília, no Brasil, e La Grande-Motte, na França.
A mostra tem como eixo central o diálogo entre diferentes experiências de planejamento urbano e arquitetura modernista, reunindo imagens produzidas pelo fotógrafo francês Stéphane Herbert e trabalhos desenvolvidos por estudantes de arquitetura.
A iniciativa busca evidenciar os vínculos históricos, conceituais e arquitetônicos entre as duas cidades, concebidas em períodos marcados por projetos de modernização e expansão urbana. Além das fotografias, a exposição incorpora painéis produzidos por estudantes da Escola Nacional Superior de Arquitetura de Montpellier (ENSA Montpellier) e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAU-UnB), que foram convidados a desenvolver propostas relacionadas aos espaços urbanos das cidades retratadas.
Inspirações
O projeto dedica atenção especial às relações entre Brasília e La Grande-Motte, cidade francesa planejada pelo arquiteto e urbanista Jean Balladur. Em 1962, dois anos após a inauguração da capital brasileira, Balladur visitou Brasília para conhecer de perto a cidade concebida pelo urbanista Lúcio Costa e pelo arquiteto Oscar Niemeyer. A viagem ocorreu em um momento em que o profissional desenvolvia reflexões sobre o projeto urbano de La Grande-Motte, construída na região costeira do Mediterrâneo francês.
Brasília havia sido inaugurada em abril de 1960 como nova capital do Brasil. Seu conjunto urbanístico e arquitetônico tornou-se uma das principais referências do modernismo internacional. As edificações desenhadas por Oscar Niemeyer, caracterizadas pelo uso do concreto armado em formas curvas, diferenciavam-se de outras correntes arquitetônicas modernas associadas à racionalidade geométrica e à padronização construtiva. Curiosamente, há um outro ponto de conexão entre França e Brasil na criação de Brasília. A arquitetura de Oscar Niemeyer é inspirada na obra do francês Le Corbusier.
Concreto
A visita de Jean Balladur à capital brasileira é considerada um dos episódios relevantes para compreender as influências presentes em sua obra posterior. Em La Grande-Motte, o arquiteto também adotou o concreto como elemento predominante de construção e expressão formal, explorando diferentes possibilidades plásticas do material em edifícios, espaços públicos e equipamentos urbanos.
As conexões entre os dois projetos urbanos aparecem ainda em elementos simbólicos do plano urbanístico francês. Em uma referência direta a Brasília, Balladur incluiu em La Grande-Motte um espaço denominado inicialmente “Praça dos Três Poderes”, nome inspirado na praça cívica que abriga as sedes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário da capital brasileira. O local passou posteriormente a ser denominado Praça 1º de Outubro de 1974.
Fotografia
A exposição utiliza a fotografia como ferramenta de investigação urbana. O trabalho de Stéphane Herbert constitui a base do percurso expositivo. Ao longo de mais de três décadas de atuação, o fotógrafo tem documentado transformações arquitetônicas e paisagísticas em diferentes contextos urbanos. Suas imagens registram a relação entre os projetos idealizados por arquitetos e urbanistas e a forma como esses espaços são apropriados pela população ao longo do tempo.
Segundo a proposta curatorial, as fotografias revelam tanto os princípios que orientaram a criação dessas cidades quanto os processos de adaptação, ocupação e transformação ocorridos após sua consolidação. A mostra procura observar como os ideais modernistas dialogam com as dinâmicas sociais contemporâneas e como os espaços planejados são reinterpretados por seus habitantes.
Estudantes
Além da produção fotográfica, a participação de estudantes amplia o caráter de intercâmbio internacional do projeto. Cinco propostas elaboradas por alunos da Ensa Montpellier abordam aspectos relacionados à cidade de La Grande Motte. Outros cinco trabalhos, desenvolvidos por estudantes da FAU-UnB, concentram-se em Brasília. Os projetos foram concebidos para integrar o percurso expositivo e apresentar novas leituras sobre os territórios analisados.
A iniciativa também promove a aproximação entre instituições acadêmicas e centros de pesquisa ligados à arquitetura e ao urbanismo. Ao envolver estudantes de diferentes países, a exposição estimula reflexões sobre planejamento urbano, patrimônio moderno e os desafios enfrentados pelas cidades contemporâneas.
Brasília e La Grande-Motte
Brasília e La Grande-Motte compartilham características que justificam sua reunião em uma mesma mostra. As três cidades nasceram de projetos concebidos de forma planejada, com forte influência dos princípios modernistas que marcaram a arquitetura e o urbanismo do século 20. Cada uma delas, entretanto, desenvolveu trajetórias próprias, moldadas por contextos históricos, políticos, culturais e sociais distintos.
Ao reunir fotografias, referências históricas e propostas acadêmicas, “Urban Utopias” propõe uma análise sobre o legado dessas experiências urbanas e sobre a permanência de seus conceitos originais no cotidiano atual. A exposição convida o público a observar como cidades idealizadas em diferentes partes do mundo continuam sendo transformadas por seus moradores e pelos processos de evolução urbana que atravessam as últimas décadas.
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