Por Gabriel Rattes e Johnnata Joras
A cada edição da Copa do Mundo, um costume atravessa gerações e volta a tomar conta das ruas: colecionar figurinhas. Em Petrópolis, a tradição tem endereço conhecido. A Praça da Inconfidência, no Centro Histórico, também chamada de Praça da Figurinha, reúne colecionadores de todas as idades em busca dos cromos que faltam para completar o álbum oficial do torneio.
Além da paixão pelo futebol, a movimentação também representa uma importante fonte de renda para bancas de jornal e vendedores independentes que aproveitam o período para reforçar o faturamento. O álbum da Copa continua sendo um dos produtos mais procurados nas bancas de jornal. Para muitos comerciantes, trata-se do período mais lucrativo do ciclo de quatro anos entre os Mundiais.
Há três décadas trabalhando na Praça da Inconfidência, o jornaleiro Júlio César Cilento afirma que a chegada do álbum transforma o movimento da banca. "É a melhor fase. A época da Copa do Mundo alavanca as vendas e levanta bem a condição da banca. A gente fica parado um bom tempo sem vender muita coisa e, com as figurinhas, consegue ter mais lucro", afirma.
Uma tradição além do futebol
Mais do que completar o álbum, a troca de figurinhas se tornou um momento de convivência entre moradores da cidade. Segundo Júlio, a prática mantém viva uma forma de interação que resiste aos tempos digitais.
"A cultura da troca de figurinha é legal porque promove a confraternização entre as pessoas. É um jeito de se comunicar fora do celular. O pessoal vem conversar, trocar e completar o álbum. Isso é uma curtição até hoje", destaca.
A fama do local é tão consolidada que muitos frequentadores sequer utilizam o nome oficial da praça durante o período da Copa.
Colecionar ficou mais caro
Neste ano, o álbum oficial custa R$ 24,90 na versão de capa mole. Já as versões especiais de capa dura, disponíveis em modelos dourado e prateado, são comercializadas entre R$ 75 e R$ 80. Mesmo com o aumento nos preços, a procura continua alta. Segundo os comerciantes, muitos colecionadores enxergam os álbuns como itens de recordação e até de investimento.
"Quem gosta de colecionar para guardar prefere o capa dura porque é mais resistente. Tem gente que pensa até em guardar para negociar no futuro como uma peça rara", explica Júlio.
Vendedores e colecionadores
Além das bancas de jornal, a Praça da Figurinha reúne vendedores independentes especializados na comercialização de cromos avulsos.
O vigilante Carlos Alberto Medeiros participa da movimentação desde a Copa de 2014 e diz que a atividade vai muito além do retorno financeiro. "A gente ri, tira foto, brinca e se diverte com as pessoas. Isso é gratificante. Você conhece gente nova e interage com crianças, jovens e idosos", conta.
Segundo ele, dependendo do movimento, a venda de figurinhas pode render entre R$ 600 e R$ 800 por dia. "Aqui virou a Praça da Figurinha. Quando a Copa começa mesmo, isso aqui fica lotado. É uma tradição que não pode morrer", afirma.
Geração em geração
A estudante Ana Luísa Barros conheceu o universo das figurinhas por influência do pai, apaixonado por futebol. Ela conta que completou o álbum da Copa de 2018 e, mesmo sem colecionar nesta edição, não deixou de visitar a praça. "Meu pai sempre gostou muito de futebol e passou isso para mim. Em 2018 eu completei o álbum inteiro. Este ano eu não estou fazendo, mas já garanti minha figurinha do Messi", brinca.
Para ela, a movimentação na praça mostra que a tradição permanece viva entre os jovens. "É bacana ver todo mundo trocando figurinha. A praça fica cheia e a gente percebe que essa cultura continua forte".
Diversão que também gera renda
O motorista de aplicativo Jucemar da Costa trabalha com venda e troca de figurinhas desde a Copa de 2010. Segundo ele, o retorno financeiro é importante, mas o principal motivo para continuar na atividade é o prazer de participar do ambiente criado em torno da Copa. "Comecei em 2010 e gostei da brincadeira. Claro que existe lucro, mas é uma coisa gostosa de fazer. Eu gosto de estar aqui", afirma.
Ele destaca que o investimento é alto e que uma caixa de figurinhas pode custar entre R$ 6,5 mil e R$ 7 mil. Mesmo assim, a procura costuma compensar o esforço. "Aqui já virou tradição. Nem é mais Praça da Inconfidência, é Praça da Figurinha".
Comércio local
Outro comerciante que percebe os reflexos da Copa é o jornaleiro Fernando Wilbert, responsável pela banca localizada ao lado do Colégio Dom Pedro II. Segundo ele, o aumento do número de seleções participantes nesta edição também ampliou o interesse dos colecionadores.
"São 980 figurinhas no álbum. Isso faz com que as pessoas comprem mais pacotes e demorem mais para completar a coleção. Para a banca, realmente melhora bastante nesse período", explica.
Ele observa que muitos colecionadores optam pelos modelos de capa dura. "O pessoal gosta de guardar. O álbum capa dura protege mais e acaba sendo bastante procurado".
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