Startup brasileira aposta em rastreabilidade contra deepfakes

IA nas eleições: startup brasileira aposta em rastreabilidade contra deepfakes

Plataforma criada por Caroline Nunes usa blockchain e padrões internacionais para comprovar origem de imagens digitais em meio ao avanço de fraudes com inteligência artificial

IA nas eleições: startup brasileira aposta em rastreabilidade contra deepfakes
"Quero ser mãe em breve e tenho medo de que fotos do meu filho possam ser alteradas e compartilhadas como pornografia infantil" - Caroline Nunes, fundadora da InspireIP Crédito: Edu Moraes/InspireIP

A expansão acelerada da inteligência artificial generativa vem impondo um novo desafio para governos, empresas de tecnologia, Justiça Eleitoral e veículos de comunicação: como comprovar se uma imagem, vídeo ou documento digital é verdadeiro?

Em meio ao avanço de deepfakes (conteúdos falsos  criados ou manipulados por inteligência artificial para imitar pessoas reais de forma convincente),  golpes virtuais e manipulações visuais cada vez mais sofisticadas, uma startup brasileira aposta na rastreabilidade digital como ferramenta de proteção da informação.

Fundada pela advogada e especialista em propriedade intelectual Caroline Nunes, a InspireIP desenvolveu a SIGNAIP, plataforma voltada à autenticação e verificação de procedência de imagens digitais por meio de registros em blockchain pública. A tecnologia cria uma espécie de “certidão digital” para arquivos visuais, registrando autoria, horário de criação, integridade e histórico de alterações de uma imagem.

A proposta surge em um momento de preocupação crescente com o uso político e criminoso de conteúdos produzidos por inteligência artificial. Em diferentes países, autoridades eleitorais passaram a discutir mecanismos para combater a circulação de materiais falsos capazes de influenciar campanhas, manipular declarações públicas e gerar desinformação em larga escala.

No Brasil, o tema ganhou força nas últimas eleições municipais de 2024 e deve ampliar a pressão sobre plataformas digitais e instituições públicas na preparação para o ciclo eleitoral de 2026. O receio é que vídeos manipulados, montagens hiper-realistas e imagens adulteradas sejam utilizados para fraudes, ataques coordenados e disseminação de notícias falsas.

Como funciona a tecnologia?

A tecnologia da InspireIP atua em uma camada anterior à simples identificação de fraudes. Em vez de apenas detectar manipulações depois que o conteúdo já circulou, o sistema busca garantir a autenticidade desde a origem do arquivo. Quando uma imagem é registrada, os metadados passam a integrar um histórico auditável em blockchain, permitindo verificar quando o conteúdo foi criado, quem realizou o registro e se houve alterações posteriores.

A plataforma também utiliza mecanismos de marcação invisível capazes de manter informações de procedência mesmo após compartilhamentos em redes sociais, republicações ou perda parcial de metadados. Segundo a empresa, a tecnologia consegue indicar se houve manipulação por inteligência artificial, qual ferramenta foi utilizada e em que momento a modificação ocorreu.

O avanço desse tipo de sistema acompanha uma movimentação internacional liderada por empresas de tecnologia, organizações de mídia e instituições ligadas à integridade da informação. A InspireIP está entre as primeiras 50 empresas do mundo e entre as pioneiras no Brasil a desenvolver soluções compatíveis com o padrão internacional C2PA, criado para estabelecer critérios globais de autenticidade e rastreabilidade de conteúdo digital.

O padrão é desenvolvido pela Content Authenticity Initiative (CAI), coalizão que reúne empresas como Adobe, Amazon, BBC e Sony em torno da criação de mecanismos técnicos capazes de comprovar origem e integridade de arquivos digitais.

Segundo Caroline Nunes, a capacidade de comprovar autenticidade tende a se tornar uma das principais demandas da internet na era da inteligência artificial. “A criação de conteúdo ganhou escala com a inteligência artificial, mas a capacidade de comprovar origem e integridade não evoluiu na mesma velocidade”, afirma.

A expectativa da empresa é que a tecnologia seja utilizada por veículos de comunicação, agências de publicidade, escritórios jurídicos, partidos políticos, criadores de conteúdo e organizações que dependem da validação de ativos digitais.

A plataforma opera atualmente em fase de testes fechados e tem previsão de abertura pública em junho de 2026.

Maternidade

Além do impacto sobre eleições e combate à desinformação, a tecnologia pode ser uma arma poderosa no enfrentamento de crimes digitais associados à circulação de conteúdos ilegais na deepweb. O avanço da inteligência artificial generativa ampliou a produção de imagens sintéticas utilizadas em fraudes financeiras, perfis falsos, extorsões e distribuição de material ilícito em ambientes de difícil rastreamento.

Em entrevista ao Correio da Manhã durante a São Paulo Innovation Week, Caroline Nunes afirmou que a preocupação com os impactos da inteligência artificial sobre crianças e adolescentes foi um dos fatores que impulsionaram o desenvolvimento da plataforma. Segundo ela, a decisão tem a ver com a maternidade.

“Quero ser mãe em breve e tenho medo de que fotos do meu filho possam ser alteradas e compartilhadas como pornografia infantil. O universo da IA é incrível, mas há riscos inerentes à tecnologia. As big techs não estão respeitando alguns limites. Tem um mercado gigantesco ligado à pornografia infantil que eu quero combater”, afirmou.

Caroline Nunes

A fundadora da startup atua há anos na área de blockchain, propriedade intelectual e ativos digitais. Advogada com formação em Direito e Tecnologia pela USC Gould School of Law, da Universidade do Sul da Califórnia, ela participou de projetos ligados à autenticação digital, NFTs e rastreabilidade de ativos virtuais no Brasil.

Entre os trabalhos realizados estão projetos envolvendo o SBT, Spotify, UOL e MSP Estúdios. Caroline também participou do primeiro leilão de arte em NFT integralmente brasileiro e de iniciativas relacionadas à certificação digital baseada em blockchain.